Corpos de vítimas de tombamento na Serra de Petrópolis chegam a Belo Horizonte sob forte comoção

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    Os caixões lacrados começaram a desembarcar em Belo Horizonte ainda na madrugada desta terça-feira (18). Em silêncio, familiares acompanharam o traslado dos corpos das dez mulheres que perderam a vida no tombamento de um ônibus na BR-040, na Serra de Petrópolis (RJ), ocorrido na madrugada de domingo (16). As vítimas foram encaminhadas a funerárias da Região Metropolitana da capital mineira, onde velórios e enterros ocorrem ao longo do dia.

    O acidente chocou em especial a comunidade Vila Acaba Mundo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Doze moradores haviam embarcado no coletivo que saiu da capital na noite de sábado (15) rumo a Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Quatro não voltaram com vida: uma cabeleireira conhecida no bairro, a filha dela, uma jovem grávida de 19 anos e uma menina de sete.

    Dinâmica do tombamento e resgate

    O coletivo da Estrela Guia Turismo despencou em uma curva no quilômetro 91, trecho em obras e sinalizado da descida da Serra de Petrópolis. De acordo com a concessionária que administra a rodovia, o ônibus tombou sobre a pista por volta das 2h e mobilizou equipes de resgate de Petrópolis, Corpo de Bombeiros e concessionária. Ao todo, 56 pessoas estavam a bordo, entre elas o motorista e dois ajudantes.

    Dez passageiras morreram — nove no local e uma a caminho do hospital. Outras 34 ficaram feridas, segundo balanço inicial. Parte dos sobreviventes recebeu atendimento em unidades de saúde fluminenses; três foram transferidos para o Hospital João XXIII, referência em trauma na capital mineira. Dois já tiveram alta e um segue internado à espera de cirurgia.

    Passageiras fatais: perfis e histórias interrompidas

    • Lavinia Eduarda Souza Dias, 7 anos, viajava de férias com a tia.
    • Priscilla de Souza Braz, 33, tia de Lavinia, trabalhava em comércios do bairro.
    • Jhennifer Ferreira Carvalho, 33, cabeleireira querida na Vila Acaba Mundo.
    • Luciana Ferreira Carvalho, 53, mãe de Jhennifer.
    • Entre as vítimas está também uma jovem de 19 anos grávida de quatro meses, cuja família pediu anonimato.
    • Outras cinco mulheres, moradoras de diferentes bairros da capital, completam a lista de fatalidades.

    Na Acaba Mundo, as portas de salões de beleza permaneceram fechadas em sinal de luto. Vizinha de Jhennifer, a aposentada Delina Luiz Mário resumiu o sentimento coletivo: “Ela arrumava o cabelo e as unhas de todo mundo aqui. É como se toda a rua tivesse perdido alguém da família”.

    Irregularidades na operação da viagem

    A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) confirmou que o ônibus não possuía licença para operar transporte interestadual de passageiros. A empresa Estrela Guia Turismo está registrada para fretamento eventual, mas não protocolou a viagem junto à agência. Por isso, o deslocamento é classificado como clandestino, prática que se multiplicou nos últimos anos com a demanda por passagens mais baratas.

    Sem a autorização, o veículo deixa de cumprir exigências como seguro obrigatório para cada passageiro, controle de jornada de motoristas e verificação prévia das condições mecânicas. Questionada, a Estrela Guia informou apenas que “colabora com as autoridades” e lamentou o ocorrido, mas não explicou por que vendeu bilhetes para um trajeto interestadual.

    Investigação em curso

    A Polícia Civil de Petrópolis ouviu o motorista e colhe depoimentos de sobreviventes. Peritos analisam tacógrafo, sistema de freios e estado dos pneus. Os investigadores também verificam se a obra na pista — devidamente sinalizada, segundo a concessionária — influenciou no controle do veículo. Relatório preliminar deve sair em até 30 dias.

    Entre as linhas de apuração estão:

    1. Excesso de velocidade na descida da serra;
    2. Fadiga do condutor, que teria trabalhado em outra viagem horas antes;
    3. Problemas nos freios apontados por passageiros minutos antes do tombamento.

    O motorista, liberado após prestar depoimento, relatou às autoridades que perdeu a força dos freios a poucos metros da curva. Sobreviventes afirmam ter percebido cheiro de queimado e alertado a tripulação. A perícia pretende confrontar esses relatos com dados técnicos.

    Comoção e despedidas na Grande BH

    Os velórios acontecem em diferentes bairros de Belo Horizonte e Contagem. Prefeituras disponibilizaram transporte a parentes e ofereceram apoio psicológico. Na Paróquia São Vicente, no bairro Serra, missas de corpo presente atraem centenas de moradores que acendem velas e deixam flores na porta do templo.

    Amigos de Lavinia levaram desenhos e brinquedos para o velório da menina. Já no salão comunitário da Acaba Mundo, vizinhos de Jhennifer montaram um mural com fotos de penteados feitos por ela. “Cada sorriso ali é uma lembrança do cuidado que ela tinha com a autoestima das mulheres daqui”, lamentou a professora Jocasta Nunes.

    Apoio às famílias

    A Secretaria Municipal de Assistência Social mobilizou equipes para orientar sobre seguros, benefícios eventuais e traslado dos corpos. O governo de Minas assumiu o custo dos sepultamentos para famílias em vulnerabilidade. Também foi criado um ponto de coleta de doações de cesta básica na escola municipal do bairro.

    Debate sobre transporte clandestino

    Entidades que representam transportadoras regulamentadas criticaram a dificuldade de fiscalização nas estradas federais. Em nota, a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros condenou a prática clandestina e pediu reforço de barreiras nas saídas de grandes capitais, sobretudo em períodos de férias escolares.

    Somente em 2023, a ANTT reteve 1.230 veículos não autorizados em todo o país; 178 circulavam em Minas Gerais. Especialistas defendem ampliar canais de denúncia e rastreamento eletrônico de venda de passagens. Já passageiros ouvidos pela reportagem citam a diferença de preço — até 40% menor — como principal razão para optar por essas viagens.

    Próximos passos

    Enquanto as famílias se despedem das vítimas, o inquérito da Polícia Civil e o processo administrativo da ANTT seguem paralelos. Caso sejam confirmadas falhas graves de manutenção ou conduta do motorista, a Estrela Guia pode responder por homicídio culposo e perder a licença de fretamento. Multas podem ultrapassar R$ 7 mil por passageiro transportado irregularmente.

    Por ora, a prioridade das autoridades é acompanhar os feridos internados. A última paciente em estado considerado grave aguarda cirurgia ortopédica e não corre risco de morte, de acordo com boletim médico emitido nesta manhã.

    A tragédia na Serra de Petrópolis reacende o alerta sobre a segurança em viagens rodoviárias e expõe a vulnerabilidade de comunidades que veem no transporte clandestino a única alternativa viável financeiramente. Em Belo Horizonte, o luto convive agora com a cobrança por respostas — e pela garantia de que desastres semelhantes não voltem a se repetir.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.