Balões brancos subiram ao céu no fim da tarde desta sexta-feira em frente ao Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Irmã Maria Custódia de Jesus, no Jardim Aureny II, em Palmas. Pais, professores, colegas de turma e moradores do bairro se reuniram para lembrar Gustavo Veloso Feitosa, de três anos, encontrado morto no dia 3 de agosto na casa do pai, com sinais de espancamento.
Enquanto a comunidade prestava a homenagem, o pai do menino, o advogado Igor Gustavo Veloso de Sousa, 33 anos, e a madrasta, Kathellen Moreira da Silva, 23, continuavam presos preventivamente. Ambos são investigados por homicídio duplamente qualificado e tortura, e a Polícia Civil apura se o crime configura violência vicária — quando o agressor atinge um filho para ferir emocionalmente a mãe.
Homenagem mobiliza escola e vizinhança
A mobilização começou às 17h30, horário de saída das turmas de educação infantil. Funcionários e estudantes vestiram roupas claras, levaram flores e soltaram balões brancos, símbolo de paz. Cartazes exibiam mensagens de “Justiça por Gustavo” e pedidos de “Proteção à infância”. O ato, organizado pela equipe pedagógica, teve o objetivo de confortar familiares e chamar atenção para a necessidade de denunciar sinais de maus-tratos.
Segundo a Secretaria Municipal da Educação, a escolha do local do tributo se deu porque o Cmei era o “segundo lar” do garoto. “Gustavo era alegre, curioso e muito querido”, disse uma professora que preferiu não se identificar. Ao fim da cerimônia, os presentes fizeram um minuto de silêncio e formaram um cordão humano em frente ao portão de entrada.
Investigação detalha agressões
Relatório obtido pela Polícia Civil descreve que a morte foi causada por “crueldade, indiferença e multiplicidade de lesões”. O laudo do Instituto Médico Legal descartou a versão inicial apresentada pelo pai — de que o menino teria se afogado — e apontou marcas de violência compatíveis com espancamento e possível tortura.
Igor e Kathellen foram presos dias após o óbito. A Justiça decretou a preventiva por considerar risco de fuga e possibilidade de interferência nas apurações. O casal pode ser denunciado pelo Ministério Público por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel e emprego de tortura, crimes que preveem penas entre 12 e 30 anos de prisão, aumentadas em razão da vítima ser menor de 14 anos.
Histórico de conflitos e denúncias
Depoimentos de familiares apontam que desentendimentos entre os pais de Gustavo começaram ainda durante a gravidez. A mãe registrou boletins de ocorrência entre 2023 e 2024 relatando ameaças, perseguição e ofensas. O casal se separou e travava disputa judicial pela guarda e pelo valor da pensão.
Imagens reunidas pela investigação mostram o garoto retornando de visitas ao pai com hematomas, arranhões e, em alguns casos, aparentemente sedado. Em um vídeo anexado ao inquérito, Gustavo aparece chorando e se recusando a entrar no carro que o levaria à casa do pai. Segundo a mãe, o menino relatava agressões sempre que ouvia a voz de Igor.

Imagem: Internet
Entenda o conceito de violência vicária
Desde abril de 2026, a Lei n.º 15.383 inclui o termo “violência vicária” na Lei Maria da Penha. A figura jurídica descreve situações em que o agressor atinge pessoas próximas à mulher — como filhos — para controlá-la, punir‐lhe ou prolongar o sofrimento psicológico. Especialistas explicam que, nesses casos, a criança deixa de ser vista como sujeito autônomo e passa a ser instrumento de vingança.
Para a delegada responsável pelo caso, a hipótese se encaixa porque as lesões teriam ocorrido em meio à disputa de guarda e a repetidas ameaças contra a mãe. Se confirmada, a qualificadora pode agravar ainda mais a pena dos suspeitos.
Posicionamento das defesas
A defesa de Igor sustenta que o advogado se entregou espontaneamente e nega a intenção de fugir. Em nota, os representantes afirmam que ele “tem colaborado desde o início” e se reserva o direito de silêncio sobre detalhes sob sigilo. Já a defesa de Kathellen alegou surpresa com a prisão preventiva, destacando que a madrasta amamenta uma bebê de cinco meses. Os advogados pretendem pedir substituição da prisão por medidas cautelares ou, subsidiariamente, prisão domiciliar, para preservar a saúde da criança.
Ambos os escritórios afirmam confiar que a análise individualizada dos fatos demonstrará a inocência de seus clientes. A Polícia Civil, no entanto, diz ter provas materiais e depoimentos consistentes que confirmam o envolvimento do casal na morte do garoto.
Próximos passos do inquérito
Peritos ainda revisam registros médicos, fotos e vídeos anteriores ao óbito. Exames toxicológicos buscam indicar se Gustavo foi dopado. Testemunhas devem ser ouvidas ao longo da próxima semana, incluindo vizinhos que teriam presenciado discussões na residência do pai.
Concluída essa fase, o delegado enviará o inquérito ao Ministério Público, que pode oferecer denúncia por homicídio qualificado, tortura e violência vicária. Caso a Justiça aceite a acusação, Igor e Kathellen virarão réus e poderão ir a júri popular. Até lá, a comoção em Palmas segue intensa, e a escola onde Gustavo estudava promete manter viva a memória do aluno com ações permanentes de prevenção ao abuso infantil.
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