O aumento da abstenção nas últimas disputas presidenciais – que bateu 20,9% em 2022 – obrigou os institutos a revisar suas fórmulas de estimar intenção de voto. Na Quaest, a resposta veio com o modelo de “eleitor provável”, ferramenta que atribui probabilidade individual de comparecimento às urnas e que volta a ser empregada em 2026.
Segundo o diretor da empresa e professor da Fundação Getulio Vargas, Felipe Nunes, a técnica de likely voter permite projetar o resultado final de forma mais fiel porque considera apenas quem tem reais chances de votar — exatamente como faz a Justiça Eleitoral ao calcular votos válidos. A estratégia, usada pela primeira vez pela Quaest na disputa presidencial de 2022 e reaplicada nas municipais de 2024, orientará todas as 130 pesquisas que Globo, g1, GloboNews e afiliadas publicarão ao longo do primeiro turno deste ano.
O que é o modelo de “eleitor provável”
A amostragem de toda pesquisa eleitoral parte de um recorte que espelha o eleitorado apto, inclusive quem pode se ausentar. O ponto de virada ocorre quando cada entrevistado recebe uma pontuação que expressa a chance de ele sair de casa e votar. Essa nota, calculada por variáveis como perfil socioeconômico, histórico de comparecimento, engajamento na campanha e motivação declarada, gera um “peso” específico para cada pessoa na tabulação final.
Na prática, um cidadão que declara grande interesse pela eleição, vive em zona urbana com acesso fácil à seção e costuma participar a cada pleito ganha mais peso do que alguém que admite desinteresse ou tem histórico de abstenção. A ponderação final forma o universo de “eleitores prováveis”, retratando mais de perto a parcela que, de fato, decide a eleição.
Diferença em relação ao cálculo tradicional
No método clássico, todos os entrevistados contam igualmente, sejam eles entusiastas da política ou propensos a faltar. O resultado obtido reflete a fotografia geral das opiniões, mas pode superestimar candidatos cujo eleitorado demonstra menor disposição de comparecer. O ajuste do likely voter mitiga esse efeito: os percentuais passam a reproduzir o cenário mais próximo da urna eletrônica, onde só entram votos confirmados.
Por que a abstenção ganhou peso nas projeções
O país vem registrando crescimento constante na não participação desde 2010. Embora o voto seja obrigatório, fatores como descrença, dificuldades logísticas e questões de saúde levaram dois em cada dez eleitores a ficar em casa no segundo turno presidencial de 2022. Em disputas apertadas, essa fatia define quem governa. Por isso, estimar quantos — e quem — podem se ausentar virou tema central entre analistas.
Efeito potencial nos resultados
Imagine uma corrida em que dois candidatos apareçam empatados em 45% das intenções gerais. Se o grupo A apresentar perfil que sugere 95% de comparecimento e o grupo B apenas 80%, o equilíbrio desaparece após o filtro de “eleitor provável”. Pequenas variações na taxa de presença alteram a vantagem numérica e, em determinados estados, decidem até a necessidade de segundo turno.
Como a Quaest calcula a probabilidade individual
Felipe Nunes detalha quatro grandes blocos de perguntas que alimentam o algoritmo:
- Engajamento: nível de interesse declarado na disputa, acompanhamento de debates e leitura de notícias políticas.
- Histórico: frequência de comparecimento em pleitos anteriores, checada por autorrelato.
- Intenção de votar: se o entrevistado afirma que “com certeza” irá às urnas ou ainda “pode decidir”.
- Motivação específica: importância atribuída à eleição atual e percepção de que seu voto pode fazer diferença.
A pontuação obtida em cada bloco recebe ponderação estatística. O resultado final é um índice entre 0 e 1. Abaixo de determinado corte, o eleitor passa a ter influência reduzida na tabulação; acima, ganha peso proporcional. O limite é calibrado a partir de dados oficiais de abstenção e de projeções internas, revisados a cada rodada.
Aplicação em 2022, 2024 e 2026
No ciclo de 2022, a Quaest comparou seus cenários de “eleitor geral” e “eleitor provável” com os números de apuração. O modelo mais refinado apresentou margem de erro menor, especialmente em estados marcados por disputas acirradas. Em 2024, nas eleições municipais, o instituto repetiu o processo em capitais como São Paulo, Salvador e Recife, observando distância reduzida entre a última pesquisa e o resultado oficial.
Com base nesse histórico, a empresa decidiu adotar o filtro em todas as sondagens de 2026. A parceria com o Grupo Globo prevê 130 levantamentos sobre Presidência, governos estaduais, Senado e intenção de voto nas 27 unidades da Federação. Cada pesquisa trará dois conjuntos de números: a fotografia de todo o eleitorado entrevistado e a projeção limitada ao “eleitor provável”.

Imagem: Internet
Transparência dos dados
Os relatórios publicados nos portais da emissora incluirão nota metodológica explicando:
- Tamanho e composição da amostra.
- Percentual médio de probabilidade de voto atribuído ao universo pesquisado.
- Margem de erro e grau de confiança.
A divulgação atende às exigências da Justiça Eleitoral e ao compromisso editorial do grupo de “informar, rodada a rodada, como está a corrida”.
Série de vídeos para esclarecer o processo eleitoral
Além das pesquisas, o g1 estreou uma sequência de 50 vídeos verticais que permanecerá no ar até o primeiro turno, em 4 de outubro. Os episódios, liberados diariamente, abordam:
- Fundamentos das metodologias estatísticas empregadas pelos principais institutos.
- Regras para uso de redes sociais e inteligência artificial em campanhas.
- Funções de cada cargo em disputa e o papel do Congresso.
- Diferenciações entre sistemas eleitorais de deputados, senadores e prefeitos.
- Dicas práticas para o dia da votação, do título digital ao horário de funcionamento das seções.
O objetivo, segundo a redação, é democratizar informação num formato adequado ao consumo móvel e ajudar o eleitor a interpretar dados que chegam em ritmo acelerado durante a campanha.
Desafios e limites da projeção
Especialistas advertem que, embora o modelo reduza incertezas, ele não elimina todos os riscos. Mudanças bruscas no clima social — crises, denúncias ou eventos mobilizadores — podem alterar a disposição de ir às urnas entre a coleta da amostra e o dia da votação. Há também fatores regionais, como transporte público e condições climáticas, que interferem no comparecimento e são mais difíceis de prever.
Mesmo assim, a adoção do “eleitor provável” tornou-se tendência em mercados eleitorais que registram abstenção elevada, caso dos Estados Unidos e do Brasil. Para 2026, a Quaest aposta que o refinamento do banco de dados, somado à série histórica construída desde 2022, tornará as projeções mais próximas do placar final.
O papel do eleitor na leitura dos números
Ao consumir pesquisas, é importante observar se o instituto divulga ou não o filtro de “eleitor provável”. Números sem esse ajuste podem variar consideravelmente em relação aos ajustados. Comparar cenários metodológicos distintos pode levar a conclusões apressadas sobre viradas ou tendências inexistentes.
Com a popularização do conceito, cresce a responsabilidade de veículos e analistas de explicitar qual conjunto de dados está sendo discutido. A transparência, somada ao entendimento do público, tende a reduzir desconfianças sobre os levantamentos e a fortalecer o debate democrático.
Para acompanhar os resultados das rodadas de pesquisas e assistir aos vídeos educativos, o eleitor pode acessar as plataformas do g1 e configurar alertas de notificação. Assim, terá acesso contínuo às projeções que usam o modelo de “eleitor provável”, entendendo como elas se relacionam com o comportamento real das urnas.
