A direção da Casas Bahia descarta qualquer alívio no ambiente macroeconômico no curto prazo e já trabalha com 2027 mais duro que 2026. A leitura pessimista, revelada pelo presidente-executivo Renato Franklin em conferência com analistas, sustenta a decisão de cortar quase 300 lojas e entrar na Justiça com pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas.
Segundo o executivo, o crédito ao consumidor tende a ficar ainda mais restrito, pressionado por endividamento elevado das famílias e por medidas anticíclicas adotadas nos últimos anos que agora começam a cobrar a conta. “Não projetamos melhora de cenário; ao contrário, consideramos deterioração”, afirmou, explicando que o próprio modelo de concessão de financiamentos da companhia se tornou “muito mais seletivo”.
Pedido de proteção à Justiça envolve dez empresas do grupo
O protocolo de recuperação judicial foi feito no Foro Central Cível de São Paulo e engloba a varejista e outras nove subsidiárias. A medida busca bloquear execuções, alongar prazos e reestruturar passivos sem interromper operações em lojas físicas, e-commerce e canais de marketplace. O Conselho de Administração e o acionista controlador aprovaram por unanimidade o movimento, que ainda precisará ser ratificado em assembleia extraordinária de acionistas devido ao caráter de urgência do protocolo.
Objetivo: preservar 20 mil empregos e manter portas abertas
No documento entregue ao Judiciário, o grupo argumenta que a recuperação é “condição necessária” para manter mais de 20 mil postos de trabalho e garantir a continuidade de contratos com fornecedores. A companhia sustenta que, sem a suspensão temporária das cobranças, teria de liquidar estoques de forma acelerada e fechar unidades adicionais, cenário considerado mais danoso para credores e para a cadeia de suprimentos.
Plano de transformação começou em 2023
O pedido de proteção representa um novo capítulo de uma reestruturação em curso há três anos. A primeira fase, lançada em meados de 2023, focou eliminação de ineficiências, redução de despesas e reforço do caixa. Na ocasião, 55 lojas deficitárias foram encerradas e aproximadamente 8.600 colaboradores desligados.
Renegociação extrajudicial em 2024 não foi suficiente
Em 2024, a empresa conseguiu costurar recuperação extrajudicial, reescalonando R$ 4,1 bilhões em débitos bancários. A aposta era que a combinação de juros em queda e retomada do consumo sustentasse o fôlego financeiro até 2025. No entanto, o recuo das taxas se mostrou lento, a renda das famílias estagnou e a desalavancagem não avançou no ritmo esperado.
Cortes profundos em 2026
Já em agosto de 2026, a companhia anunciou a segunda etapa do plano: demissão de aproximadamente 3 mil funcionários e encerramento de 298 lojas—cerca de 30% da rede. O ajuste permitiu reduzir custos fixos, mas também evidenciou que a base de vendas precisava se adequar a um consumidor endividado e com menor acesso a financiamento de longo prazo.
Crédito ao consumidor no centro da crise
Franklin destacou, na teleconferência, que a deterioração da qualidade de crédito das famílias pressiona o varejo de bens duráveis, segmento que tradicionalmente depende de parcelamento a prazo. “O limite disponível nos cartões encolheu, o Cadastro Positivo mostra maior inadimplência e as fontes de funding ficaram mais caras”, detalhou.
Portfólio de financiamentos agora tem filtros mais rígidos
- Aprovação automática reduzida.
- Prazo médio de parcelamento encurtado.
- Maior exigência de entrada para linhas próprias.
- Foco em clientes com histórico de adimplência comprovada.
As mudanças, embora protejam o balanço, impactam receita no curto prazo. A direção entende, porém, que a venda sem retorno financeiro pesa mais que a perda de participação de mercado momentânea.
Projeções nada otimistas para 2027
Questionado sobre premissas macroeconômicas para o próximo biênio, Franklin foi taxativo: “Não há qualquer sinal de que 2027 traga alívio. Mantemos cenário de juros elevados, renda real pressionada e oferta de crédito menor”. O executivo evitou divulgar estimativas de venda ou margens para os anos futuros, alegando que o novo plano a ser apresentado aos credores ainda está em construção, mas adiantou que a empresa trabalha com cenário base mais pessimista que aquele adotado na reestruturação de 2024.

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Fatores que sustentam a visão negativa
- Captação de bancos com prazos mais curtos, encarecendo o crédito ao consumidor.
- Rescaldo de programas emergenciais que ampliaram o endividamento das famílias.
- Taxa de desemprego sem sinal claro de queda sustentada.
- Concorrência acirrada no e-commerce puxando preços para baixo.
Próximos passos na recuperação judicial
Assim que o pedido for aceito, a Casas Bahia terá 60 dias para apresentar o plano detalhado de pagamento aos credores. Esse documento costuma abranger alongamento de vencimentos, descontos em parte do principal e opções de conversão de dívida em capital. Em paralelo, a administração diz que continuará implementando medidas operacionais para enxugar despesas, renegociar aluguéis e acelerar a digitalização dos canais de venda.
Assembleia geral vai referendar decisão
A convocação da assembleia extraordinária será divulgada “nos próximos dias”, segundo a companhia. Caso o ato não seja ratificado, o processo judicial pode ser extinto, mas interlocutores próximos ao conselho consideram remota essa hipótese, já que o controlador manifestou apoio formal à iniciativa.
Impacto para fornecedores e consumidores
Com a proteção judicial, pagamentos a fornecedores referentes a períodos anteriores ficam congelados até que o plano seja aprovado. Entregas realizadas após o protocolo, porém, são classificadas como “créditos extraconcursais” e entram em ordem preferencial de liquidação, o que costuma manter a cadeia abastecida. Para o consumidor final, a empresa assegura que assistências técnicas, garantias estendidas e programas de troca continuam válidos.
Clientes podem sentir ajustes na oferta de produtos
A redução de sortimento e a cautela na formação de estoques são esperadas, especialmente em categorias de alta rotatividade financeira, como eletrônicos e linha branca de maior ticket. O marketplace, onde terceiros vendem dentro do site da varejista, ganha importância porque minimiza necessidade de capital próprio para compra de inventário.
Mercado monitora repercussão
Analistas de grandes bancos e casas de research veem a decisão como “inevitável” diante da magnitude da dívida e do quadro macro. Alguns, porém, ponderam que o processo ainda traz riscos relevantes: caso o consumo recue além do previsto, o fluxo de caixa operacional pode não cobrir compromissos pós-pedido, forçando cortes adicionais.
Ponto de inflexão para o setor de varejo?
Além da Casas Bahia, outras redes de bens duráveis enfrentam margens comprimidas e estoque elevado. Gestores de fundos avaliam que a tempestade perfeita de juros altos, renda frágil e competição digital deve acelerar consolidações no segmento entre 2026 e 2028.
O que muda na experiência do cliente
- Lojas físicas continuarão operando, mas número de unidades cai 30%.
- Canais digitais receberão reforço de sortimento via marketplace.
- Condições de pagamento devem ficar mais restritas, com menos “sem entrada” e prazos mais curtos.
- Programas de fidelidade e cashback tendem a ganhar peso como alavancas de tráfego.
Ao encerrar a teleconferência, Franklin reforçou o discurso de que a companhia “não conta com salvação do cenário externo”, mas sim com “disciplina de capital, foco no cliente e eficiência operacional” para atravessar o próximo triênio. A mensagem, contudo, deixa claro: para a Casas Bahia, o pior ainda pode estar por vir, e 2027 é visto como o ano mais desafiador da década.
