Um vídeo de pouco mais de cinco minutos divulgado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos colocou a Doutrina Monroe, proclamada em 1823, no centro do discurso diplomático da administração Donald Trump. Narrada pelo embaixador Kevin Marino Cabrera, a peça sustenta que a diretriz de quase 200 anos continua sendo a “pedra angular” da atuação norte-americana no hemisfério e define Trump como seu “mais recente defensor”.
Na produção, Washington exibe como exemplo contemporâneo da doutrina a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, ocorrida no início deste ano, e diz que a América Latina permanece área de “domínio regional” dos EUA. A iniciativa aprofunda o movimento da Casa Branca de reincorporar a lógica de James Monroe às prioridades de segurança nacional, agora mirando não apenas a Europa, mas também rivais como a China.
Vídeo oficial exalta legado de 1823
Lançada nas redes institucionais na terça-feira (11), a gravação mistura trechos históricos e cenas do governo atual para afirmar que, “ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos”. O material afirma ainda que a doutrina evoluiu de um “alerta” a potências estrangeiras para uma “estrutura de domínio regional” consolidada.
Maduro como vitrine da doutrina
No roteiro, a prisão de Nicolás Maduro é apresentada como prova de que Washington não hesita em agir quando julga ameaçados seus interesses no “quintal” ocidental. O episódio é descrito como demonstração de força destinada tanto a parceiros locais quanto a atores externos, sobretudo Pequim, que amplia investimentos na América Latina.
O que dizia James Monroe
Em dezembro de 1823, James Monroe ocupou a tribuna do Capitólio para o discurso anual ao Congresso. O presidente, então no segundo mandato, alertou que qualquer tentativa das monarquias europeias de exportar seus sistemas políticos para o Novo Mundo seria encarada como ameaça direta à paz e à segurança dos Estados Unidos. Em troca, Washington comprometia-se a não intervir em disputas internas do Velho Continente.
Recado às potências europeias
O pronunciamento ocorreu num momento em que antigas colônias espanholas e portuguesas conquistavam independência, reacendendo o apetite imperial europeu. Para Monroe, afastar essa influência criaria zona de proteção para o jovem país e, simultaneamente, transformaria os EUA em guardião tácito dos novos Estados latino-americanos.
Releituras e corolários no século XX
Ao longo das décadas, sucessivos presidentes reinterpretaram a mensagem original. O caso mais emblemático é o Corolário Roosevelt, de 1904. Theodore Roosevelt declarou que Washington poderia intervir em nações latino-americanas incapazes de honrar compromissos internacionais. A lógica do big stick — “falar manso e carregar um grande porrete” — legitimou ocupações militares e mudanças de regime no Caribe e na América Central.
Outros governos adaptaram a doutrina para novas disputas: durante a Guerra Fria, foi argumento contra qualquer indício de alinhamento comunista no hemisfério; nas últimas décadas, sustentou pressões comerciais e operações antidrogas.
Da ‘Doutrina Monroe’ à ‘Doutrina Donroe’
A gestão Trump não esconde a inspiração histórica. A expressão “Doutrina Donroe”, mistura dos nomes Monroe e Donald, circula entre diplomatas desde 2018, quando a Casa Branca incluiu citação explícita à doutrina no documento oficial de Estratégia de Segurança Nacional. No texto, a América Latina aparece vinculada a temas que, segundo Washington, impactam diretamente sua população: imigração, narcotráfico e, mais recentemente, penetração econômica chinesa.
O papel da China no novo tabuleiro
Em entrevista concedida no ano passado, o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que os EUA “perderam terreno” para Pequim em seu próprio hemisfério e precisavam recuperar predominância. Para analistas de política externa, essa visão recria a lógica de 1823 – porém com o Pacífico, e não o Atlântico, no foco da contenção.

Imagem: Internet
Repercussões na região
Governos latino-americanos reagiram de forma comedida ao vídeo. Chancelarias de países alinhados a Washington, como Colômbia e Equador, evitaram críticas públicas, mas diplomatas admitem, em caráter reservado, preocupação com eventual ampliação de sanções unilaterais ou operações de segurança sem consulta prévia.
Já dirigentes de Argentina, México e Brasil, embora mantenham diálogo com a Casa Branca, manifestaram desconforto com o termo “domínio”. Fontes ouvidas em Buenos Aires afirmam que a retórica de tutela “é politicamente tóxica” em pleno século XXI, mesmo para parceiros históricos.
Memória de intervenções
Especialistas recordam que, sob o guarda-chuva de Monroe, Washington patrocinou, entre outros episódios, a separação do Panamá da Colômbia (1903), o desembarque de fuzileiros navais no Haiti (1915-1934) e operações clandestinas durante a Guerra Fria, como o apoio ao golpe na Guatemala (1954). “Quando a Casa Branca agita essa bandeira, muitos na região enxergam não proteção, mas ingerência”, resume a historiadora Maria Clara Rios, da Universidade de Brasília.
Monroe 2.0: estratégia ou sinalização?
Para parte dos analistas, o vídeo é mais gesto político que roteiro de ações imediatas. “Trump fala para a base interna, reafirmando uma tradição que soa patriótica aos eleitores”, avalia o cientista político John H. Coatsworth. Outros observam convergência entre discurso e prática: recordam a imposição de tarifas sobre o aço brasileiro, a ameaça de intervenção militar na Venezuela em 2025 e o endurecimento das regras de asilo na fronteira com o México.
Disputa de narrativas
Enquanto Washington convoca a memória de Monroe, Pequim multiplica empréstimos, obras de infraestrutura e acordos bilaterais na América do Sul. Para conter esse avanço, a Casa Branca incorpora a doutrina como eixo simbólico de um esforço geopolítico renovado, no qual a lealdade hemisférica volta a ser requisito para parcerias preferenciais com os EUA.
Próximos passos
Diplomatas ouvidos em Washington acreditam que a Casa Branca deve anunciar, até o fim do ano, um pacote de medidas econômicas e de segurança sob o rótulo “Hemisfério Seguro”. O plano incluiria maior presença de forças navais no Caribe, oferta de financiamentos para infraestrutura digital e exigências mais rígidas de transparência a contratos com empresas chinesas.
No Congresso norte-americano, parlamentares democratas prometem questionar o que chamam de “ressurreição intervencionista”. Republicanos, por sua vez, celebram o retorno a uma “tradição de firmeza” nas relações com vizinhos.
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