Enquanto o Avante decide na Justiça quem de fato representará o partido na disputa pelo Palácio de Karnak, o pré-candidato Gustavo Henrique Leite Feijó entregou à Justiça Eleitoral uma declaração de bens de R$ 148 mil. O valor, confirmado no sistema de prestação de contas, contrasta com o patrimônio de R$ 255,3 mil informado pelo companheiro de chapa, o advogado Lucas Veras de Moraes, apontado para a vaga de vice-governador.
Os números chamam atenção porque, no pleito de 2022, Gustavo Henrique havia afirmado não possuir nenhum bem. Dois anos depois, ele declara R$ 100 mil em dinheiro vivo e uma motocicleta Honda CB 1000 avaliada em R$ 48 mil, enquanto Veras apresenta uma casa de R$ 250 mil em Parnaíba e R$ 5,3 mil aplicados em renda fixa.
Balanço patrimonial da chapa
Detalhamento dos bens de Gustavo Henrique
- Dinheiro em espécie: R$ 100.000,00
- Motocicleta Honda CB 1000: R$ 48.000,00
Detalhamento dos bens de Lucas Veras de Moraes
- Imóvel residencial em Parnaíba: R$ 250.000,00
- Aplicações financeiras (renda fixa): R$ 5.300,00
Somados, os bens declarados pelos dois integrantes da chapa chegam a R$ 403,3 mil. O volume financeiro, ainda modesto diante da média de outros pretendentes ao Executivo estadual, pode influenciar a estratégia de financiamento de campanha, já que a legislação eleitoral impõe limites de gastos proporcionais ao cargo e ao número de eleitores.
Mudança em relação a 2022
A virada patrimonial de Gustavo Henrique é o dado mais visível da atualização cadastral. Em 2022, quando também tentou o governo, o servidor público alegou não possuir propriedades, veículos ou valores em contas bancárias. Na prática, essa alteração não configura irregularidade, mas obriga o candidato a explicar eventuais incrementos perante a Receita Federal, caso seja solicitado. Já Lucas Veras estreia na política declarando um patrimônio baseado essencialmente em um único imóvel.
Guerra de convenções no Avante
A apresentação dos dados financeiros ocorre em meio a uma crise partidária. No Piauí, o Avante realizou duas convenções distintas: uma homologou a candidatura própria de Gustavo Henrique; a outra sacramentou apoio ao empresário Elizeu Aguiar, do Novo. O impasse foi levado ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PI), que deverá indicar qual assembleia obedeceu às exigências estatutárias e, portanto, tem legitimidade para falar em nome da sigla.
Internamente, aliados de Gustavo argumentam que a convenção que o escolheu foi convocada pela direção estadual legitimamente constituída. Já o grupo que prefere coligação com o Novo sustenta que a Executiva nacional autorizou a manobra. Até que o TRE se pronuncie, ambos os pedidos de registro permanecem no sistema da Justiça Eleitoral, mas apenas um será validado para aparecer na urna eletrônica.
Panorama da corrida pelo Palácio de Karnak
Até o fim da tarde de 13 de agosto, dez nomes figuravam no painel do Tribunal Superior Eleitoral com o status “Concorrendo” ao governo do Piauí. Além de Gustavo Henrique (Avante) e Elizeu Aguiar (Novo), constavam Rafael Fonteles (A Força do Povo), Joel Rodrigues (Juntos pelo Piauí), Geraldo Carvalho (PSTU), Lúcia Santos (Federação PSDB/Cidadania), Ravenna Castro (Democrata) e Santiago Belizário (Unidade Popular), entre outros. O prazo oficial para envio de pedidos de candidatura termina às 19h de 15 de agosto.
Após o encerramento das inscrições, a Justiça Eleitoral verifica se todos os documentos apresentados — entre eles, a declaração de bens — atendem às exigências legais. Caso haja omissões ou inconsistências, o Ministério Público pode contestar o registro. O processo costuma incluir análise de certidões criminais, filiação partidária, quitação eleitoral e situação com o serviço militar, no caso de homens.
Impacto eleitoral dos bens declarados
No Piauí, onde pouco mais de um terço do eleitorado declara renda até dois salários mínimos, o valor patrimonial de um candidato costuma ser explorado politicamente. Consórcios de pesquisa qualitativa apontam que a imagem de “pouco recursos” pode favorecer a narrativa de proximidade com o eleitor comum; por outro lado, limita o poder de autofinanciamento da campanha. A estratégia de Gustavo Henrique deverá se apoiar no fundo partidário e na busca por doações individuais, já que doações empresariais permanecem proibidas desde 2015.

Imagem: Internet
Próximos passos jurídicos
Concluída a fase de registros, abre-se o prazo para impugnações. No cenário específico do Avante, a decisão sobre qual convenção prevalece tende a ocorrer antes do início do horário eleitoral gratuito, previsto para o fim de agosto. Se o TRE delimitar que a legenda não poderá lançar candidato próprio, Gustavo Henrique estará fora da disputa, restando a ele apenas a possibilidade de recurso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Até lá, tanto Gustavo quanto Lucas Veras mantêm-se em pré-campanha, percorrendo municípios do interior e reforçando propostas de enxugamento da máquina e expansão de projetos sociais de baixo custo. A agenda oficial, entretanto, só poderá exibir pedidos diretos de voto após o deferimento do registro ou publicação de decisão judicial que garanta o direito de concorrer.
Restrições de gasto e transparência
O teto de gastos para a eleição de governador no Piauí será divulgado pelo TSE nos próximos dias. Em 2022, o limite ficou na casa dos R$ 8,1 milhões. Caso o patamar se repita, a chapa de Gustavo Henrique teria de buscar fontes alternativas, já que seu patrimônio conjunto cobre menos de 5% desse montante. Pelo calendário eleitoral, a primeira parcial de prestação de contas deve ser entregue em setembro, aberta ao público no site do tribunal, reforçando o mecanismo de transparência sobre origem de recursos e despesas.
Com a documentação patrimonial agora exposta, qualquer cidadão pode questionar a evolução financeira dos candidatos, seja por meio de representação fiscal, seja acompanhando o julgamento das contas de campanha. A preocupação com lisura ganhou força após operações da Polícia Federal que, em ciclos eleitorais passados, identificaram tentativas de ocultar patrimônio usando laranjas ou empresas de fachada.
O que pode mudar até a urna
Embora a chapa Avante siga em compasso de espera, a divulgação dos bens já se converteu em munição para adversários, que citam a virada repentina de Gustavo como indício de fragilidade discursiva. Consultores políticos lembram, contudo, que o principal fator de decisão do eleitor piauiense ainda é a percepção de capacidade administrativa, mais que o volume patrimonial. Com a disputa fragmentada, cresce a probabilidade de segundo turno, cenário no qual recursos escassos podem pesar.
Enquanto o jogo jurídico não termina, Gustavo Henrique e Lucas Veras apostam em visitas a comunidades, lives em redes sociais e alianças com lideranças locais de partidos nanicos. A movimentação ocorre sob o olhar atento do Ministério Público Eleitoral, que fiscaliza a utilização de estrutura pública ou doações irregulares ainda no período de pré-campanha. A cada ato, cabos eleitorais carregam cópias da declaração de bens, prontos para rebater acusações de sonegação de informações ou enriquecimento ilícito.
