Temperaturas que passam dos 36 °C e quase nenhum sinal de chuva transformaram o verão amazônico de Manaus num período de alerta máximo. A combinação entre o fenômeno El Niño e as ilhas de calor urbanas fez a capital registrar, nesta semana, o dia mais quente do ano: 36,3 °C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O calor se soma à umidade baixa e já provoca aumento expressivo nos focos de incêndio.
De acordo com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), a cidade acumulou menos de 12 mm de precipitação nos últimos 40 dias — contra os 40 mm a 70 mm esperados para o período. Sem alívio pelas nuvens, os índices de calor entre meio-dia e 15h sobem ainda mais e devem ganhar força em setembro e outubro, alertam especialistas.
Termômetros rompem recordes em plena estação seca
O verão amazônico já é, historicamente, o mais seco do ano, mas o episódio de El Niño intensificou o cenário. Na quarta-feira, o Inmet marcou 36,3 °C, temperatura considerada atípica mesmo para os padrões locais. Quem circula pelas ruas relata sensação térmica “insuportável”. O vendedor José Carlos Cruz, por exemplo, descreveu o calor como “pior, muito pior” do que em verões anteriores, enquanto o motociclista Ricardo Victor disse que o mormaço já é sentido “às sete da manhã”.
Uma medição rápida feita pelo meteorologista Leonardo Vergasta, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ilustrou o contraste: à sombra, o termômetro apontava 33 °C; sob o sol, a leitura subia de forma “absurda”, segundo ele. A previsão é de agravamento nas próximas semanas, quando a atmosfera tende a ficar ainda mais aquecida pela persistência do El Niño e pela retenção de calor provocada pelo concreto e pelo asfalto da metrópole.
Sensação térmica dispara no início da tarde
Entre o meio-dia e as 15h, o índice de calor, que leva em conta temperatura do ar e umidade relativa, costuma ultrapassar a marca medida pelos termômetros. A baixa umidade impede a transpiração eficiente do corpo, elevando a sensação térmica e aumentando riscos de desidratação, exaustão e outros problemas de saúde, sobretudo para trabalhadores ao ar livre.
Falta de chuva agrava o estresse hídrico
O aquecimento anômalo das águas do Pacífico, característica do El Niño, inibe a formação de nuvens carregadas sobre a Amazônia. Em Manaus, a última chuva volumosa ocorreu há mais de um mês. O meteorologista Paulo Moura, do Censipam, ressalta que os 11 mm acumulados no período representam uma fração mínima do esperado. “A tendência é que esses valores continuem baixos”, afirmou.
A ausência de precipitação prolongada não apenas potencializa o calor como compromete a qualidade do ar. Poeira em suspensão e partículas oriundas de queimadas permanecem mais tempo sobre a cidade, reduzindo a visibilidade e afetando a saúde respiratória da população.
Verão amazônico mais seco do que o habitual
Normalmente, os rios da região já atingem níveis mais baixos entre julho e novembro, mas a escassez adicional pode antecipar impactos na navegação e no abastecimento de comunidades ribeirinhas. Especialistas alertam para a possibilidade de queda mais rápida no nível dos rios caso o regime de chuvas não se recupere até o fim do ano.

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Incêndios avançam na capital e no interior
Com vegetação ressecada e temperaturas elevadas, o número de focos de fogo cresce em ritmo preocupante. Apenas nos dois primeiros fins de semana de agosto, Manaus registrou mais de 200 ocorrências, de acordo com o Corpo de Bombeiros do Amazonas. Ao longo de 2026, já são mais de 1.200 atendimentos na capital, frente a menos de 600 em todo o interior do estado.
O comandante da corporação, coronel Orleilso Muniz, observa uma “crescente linear” e prevê que setembro, outubro e novembro serão os meses mais críticos, coincidindo com a fase de pico do El Niño. Além de áreas verdes, muitos incêndios atingem edificações e terrenos urbanos, onde o acúmulo de lixo e material inflamável facilita a propagação das chamas.
Calor e baixa umidade formam combinação explosiva
Quando a umidade relativa do ar cai, o risco de combustão espontânea em matéria orgânica aumenta. Fogos de limpeza de quintal, bitucas de cigarro e queima irregular de resíduos se tornam detonadores de incêndios de grandes proporções. A orientação das autoridades é suspender qualquer atividade que envolva fogo e redobrar a vigilância em terrenos baldios.
Expectativa para os próximos meses
Os modelos meteorológicos indicam que o El Niño deve manter força ao longo do segundo semestre, prolongando o período de calor extremo em Manaus. As equipes de saúde e defesa civil intensificam campanhas de hidratação, uso de protetor solar e denúncias de queimadas. Mesmo assim, a previsão é de que os termômetros sigam acima da média histórica até, pelo menos, a segunda quinzena de outubro.
Sem mudança substancial no quadro, a população da capital amazonense enfrenta não apenas desconforto térmico, mas também riscos ambientais e sanitários associados a um verão amazônico que, neste ano, chegou antes, ficou mais forte e, segundo os meteorologistas, ainda deve demorar a ir embora.
