Em até dois meses, a Polícia Civil do Rio de Janeiro pretende colocar em campo uma dupla de agentes bem incomuns: as cadelas Lolla e Cora, de um ano e quatro meses, estão em fase final de um treinamento pioneiro para localizar corpos escondidos em cemitérios clandestinos. A iniciativa, conduzida pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), mira diretamente um problema que se repete em áreas dominadas por facções criminosas e milícias: o desaparecimento forçado de vítimas cujos restos mortais são enterrados em valas improvisadas ou ocultados em poços e matas fechadas.
Com olfato até 100 mil vezes mais sensível que o humano, as duas pastor-belga-malinois serão as primeiras da corporação especializadas nesse tipo de busca. Elas devem atuar em operações da Core, unidade de elite constantemente mobilizada em comunidades de difícil acesso. Quando o adestramento terminar, a expectativa é que as cadelas indiquem, em segundos, pontos exatos onde investigadores levariam dias para cavar às cegas.
Treinamento focado em restos mortais
Embora o Corpo de Bombeiros já utilize cães para resgate em desastres naturais, o projeto da Core tem outra finalidade: encontrar evidências que sustentem inquéritos de homicídio e desaparecimento. O instrutor Vandré Nicolau de Souza explica que o trabalho começa com a familiarização dos animais ao odor específico de tecidos humanos em decomposição. A partir daí, o processo avança gradualmente para cenários que reproduzem a realidade das favelas cariocas.
Etapas diárias de preparação
- Socialização – Lolla e Cora são expostas a becos estreitos, vielas íngremes, mata fechada e ruídos de tiros de festim, simulando operações reais.
- Detecção de odores – Fragmentos ósseos e tecidos congelados são enterrados em profundidades e solos variados. As cadelas devem cravar a pata ou latir apenas quando sentirem o cheiro correto, descartando resíduos animais ou lixo orgânico.
- Condicionamento físico – Corridas diárias e circuitos com obstáculos garantem fôlego para percorrer extensões de morro sob sol forte, além de preservar a musculatura essencial para escavações superficiais.
Em uma simulação recente, a dupla foi levada a um terreno de quase 5 mil metros quadrados. Os policiais esconderam uma ossada humana entre galhos secos a 30 centímetros de profundidade. Lolla farejou o ponto em menos de um minuto, sentou-se sobre o local e latiu, sinal convencional que autoriza o condutor a iniciar a escavação. “O ideal é que o cão indique sem tocar, evitando contaminação da cena”, detalha Vandré.
Seção de Operações com Cães: números da unidade
Atualmente, a Seção de Operações com Cães da Core conta com 15 animais, predominantemente da raça pastor-belga-malinois, escolhida pela resistência ao calor e pela inteligência. Nos últimos 12 meses, o grupamento esteve presente em ao menos 180 ocorrências, incluindo apreensão de arsenal, localização de tonéis com drogas e varredura em rotas de fuga sob terreno instável.
Para cada missão, o planejamento considera o limite de carga de trabalho do animal. Em buscas prolongadas, os cães são revezados de duas em duas horas para evitar fadiga olfativa. Segundo os condutores, o uso de focinheiras especiais — que retêm partículas contaminantes — tornou-se praxe, sobretudo em áreas de lixo hospitalar ou esgoto a céu aberto.
Por que especializar em cemitérios clandestinos?
A tática de enterrar vítimas em solos de difícil escavação ganhou força entre grupos armados para diminuir provas materiais e atrasar inquéritos. Poços desativados, pedreiras abandonadas e áreas de proteção ambiental viraram depósitos macabros. “Sem indício concreto, o perito depende de denúncias anônimas e sorte. O cão reduz a área de varredura de hectares para metros”, afirma um delegado que acompanha o projeto.
Legado de Lord e Gaia inspira a nova geração
O histórico da seção mostra que a aposta em olfato canino já se pagou diversas vezes. Em 2017, a Core importou da Colômbia o pastor-belga Lord. No ano seguinte, ele foi fundamental na apreensão de 1,4 tonelada de cocaína pura — uma das maiores cargas já registradas no estado. A descoberta ocorreu quando o animal sinalizou para um contêiner lacrado que, à primeira vista, parecia transportar apenas fertilizante.
Outra estrela da equipe é Gaia, atualmente aposentada. A cadela participou de dezenas de operações e ganhou elogio formal em boletim interno ao ajudar a solucionar um quíntuplo homicídio em Saquarema. A polícia procurava, sem sucesso, a arma usada no crime. Gaia precisou de 20 minutos para encontrar o revólver envolto em plásticos e enterrado em um terreno baldio.
Metodologia reconhecida internacionalmente
O protocolo de adestramento seguido na Core adapta técnicas utilizadas por forças de segurança da Bélgica, Estados Unidos e Israel. Tudo começa com filhotes de oito semanas, selecionados por linhagens livres de displasia e de histórico de doenças respiratórias. O filhote convive 24 horas com seu condutor, o que cria um vínculo capaz de superar distrações em ambientes hostis.

Imagem: Internet
Depois de aprovados em exames de resistência e estabilidade emocional, os cães recebem coletes táticos, óculos de proteção contra estilhaços e localizadores GPS. Nas missões em comunidades, o animal costuma avançar cerca de 30 metros à frente da equipe, sinalizando a presença de obstáculos, armadilhas ou pessoas em emboscada.
Próximos passos e expectativa de resultados
Com Lolla e Cora, a Core busca acelerar a chegada de respostas às famílias de desaparecidos e reforçar o arsenal probatório do Ministério Público. A estimativa inicial é empregar as cadelas em pelo menos dez operações já mapeadas, todas ligadas a investigações de homicídio e ocultação de cadáver.
Os instrutores defendem que a especialização não ficará restrita ao Rio. A intenção é compartilhar a metodologia com outras polícias civis, criando um protocolo nacional de busca em cemitérios clandestinos. Para isso, será elaborado um manual detalhando desde a coleta de amostras de tecidos humanos até o manejo de cenas forenses preservadas por cães.
Custos e manutenção
Cada animal custa, em média, R$ 15 mil até o fim do primeiro ano de trabalho, incluindo ração de alta performance, vacinas, equipamentos e exames periódicos. Esse valor sobe para R$ 25 mil quando se somam deslocamentos em helicópteros e blindados, além de seguros veterinários. Ainda assim, coordenadores consideram o investimento modesto diante do impacto nas investigações.
Ao fim da carreira, os cães são aposentados e podem permanecer com os condutores ou ser adotados. O processo segue critérios de saúde e adaptação do animal à vida doméstica. Gaia, por exemplo, vive hoje em uma chácara na Região Serrana, onde continua praticando exercícios leves para manter articulações em dia.
Expectativa da sociedade por respostas
Organizações de familiares de vítimas de desaparecimento comemoram o avanço. Para elas, cada corpo recuperado representa não apenas prova judicial, mas também a oportunidade de sepultamento digno. Grupos de direitos humanos defendem que a medida ponha luz sobre a dimensão real do problema, até hoje subnotificado.
A Defensoria Pública estuda acompanhar as primeiras ações com Lolla e Cora para garantir que as evidências encontradas sigam cadeia de custódia adequada. Delegados da Core, por sua vez, destacam que o emprego dos cães não substitui o trabalho pericial; ele o orienta, reduzindo drasticamente o tempo de busca e o desgaste das equipes em áreas de risco.
Se o cronograma for mantido, as duas cadelas devem estrear ainda neste semestre, marcando uma nova etapa na utilização de tecnologia biológica em investigações criminais no estado do Rio de Janeiro.
