O Banco de Brasília (BRB) pretende levar à Justiça, por meio de ações cíveis, pelo menos 12 ex-gestores envolvidos nas polêmicas operações financeiras firmadas com o Banco Master entre 2024 e 2025. A iniciativa será submetida à assembleia de acionistas marcada para 24 de agosto, mês em que o banco pretende oficializar a cobrança de ressarcimento pelos prejuízos apurados por auditoria independente.
A ofensiva judicial é resultado direto das conclusões desse levantamento externo, contratado logo após a Polícia Federal deflagrar a operação Compliance Zero e a antiga diretoria ser substituída. O relatório indica responsabilidade de ex-dirigentes por transações que comprometeram a saúde financeira da instituição, forçando o governo do Distrito Federal — acionista controlador — a recorrer a um empréstimo bilionário para socorrer o banco.
Lista de alvos pode crescer
Embora o documento cite 12 nomes com indícios robustos de má gestão, o total de ex-servidores que podem acabar na mira da Justiça tende a ser mais alto. Desde novembro de 2025 a nova administração abriu 25 processos administrativo-disciplinares (PADs) que analisam a conduta de outros integrantes da antiga cúpula. Os envolvidos não foram identificados publicamente, mas seus casos seguem em análise pela área de compliance do banco.
Assembleia decide próximo passo
A proposta de ajuizar as ações será apresentada aos acionistas na reunião extraordinária de 24 de agosto. Caso aprovada, o departamento jurídico do BRB ingressará com processos individuais para tentar recuperar valores que, segundo a instituição, foram desviados ou aplicados em títulos considerados inexistentes ou de difícil recuperação.
Em nota interna distribuída aos cotistas, o banco informou que a medida “reforça o compromisso com a transparência, a governança e a defesa dos interesses dos acionistas”. Entre os objetivos listados estão ressarcir danos ao patrimônio e sinalizar ao mercado que práticas irregulares não serão toleradas.
Entenda o rombo deixado pelas operações
Entre 2024 e 2025, o BRB negociou cerca de R$ 30 bilhões em créditos vinculados ao Banco Master. Segundo a apuração interna, ao menos R$ 8,8 bilhões correspondem a papéis sem lastro, forjados ou já considerados praticamente irrecuperáveis. O impacto foi tão severo que comprometeu indicadores de solvência, exposição a riscos e rating de crédito da instituição pública.
Socorro de R$ 6,6 bilhões
Para contornar parte da exposição, o governo do Distrito Federal calculou que poderia resgatar R$ 2,2 bilhões com realizações de garantias, mas precisaria de mais R$ 6,6 bilhões para recompor o capital do banco. Em junho, foi sancionada lei que autoriza o Executivo local a firmar acordo no Supremo Tribunal Federal (STF) e contratar a operação de crédito que viabilizará o aporte.
O Distrito Federal utiliza o BRB como braço financeiro para mais de 30 programas sociais, gerenciamento da folha de salários do funcionalismo e concessão de crédito habitacional. Por isso, teve de agir rapidamente para que a instituição continuasse enquadrada nas normas do Banco Central.
Operação Compliance Zero e prisão de ex-presidente
A turbulência ganhou contornos criminais em novembro de 2025, quando a Polícia Federal desencadeou a operação Compliance Zero. A investigação aponta a existência de um esquema bilionário de fraudes envolvendo as operações com o Banco Master e contratos estruturados sem observância dos procedimentos de governança exigidos pelo Conselho Monetário Nacional.

Imagem: Internet
Em abril deste ano, uma nova fase da operação resultou na prisão preventiva de Paulo Henrique Costa, que comandou o BRB durante o período investigado. A PF sustenta que Costa autorizou seguidos negócios de compra de carteiras de crédito do Master sem documentação comprobatória, além de supostamente interferir em processos de fiscalização interna.
Desdobramentos administrativos
Paralelamente à investigação criminal, a atual gestão intensificou o pente-fino em contratos, gerou relatórios de risco e reestruturou a área de controles internos. As conclusões preliminares desses trabalhos alimentaram os PADs mencionados, onde se apura desde violação de normas do Banco Central até possíveis atos de improbidade administrativa.
Governança em xeque
O episódio revelou falhas graves de governança em um banco que, à época, ostentava crescimento acelerado e diversificação de negócios. A ausência de segregação de funções, a concentração de decisões em poucos executivos e a fragilidade dos controles de risco permitiram que operações vultosas fossem formalizadas sem as devidas garantias.
Reorganização interna
Para evitar a repetição de problemas semelhantes, o BRB contratou consultoria especializada, revisou políticas de crédito e implantou um comitê independente de auditoria estatutária. Também intensificou treinamentos de compliance, refinou metodologias de precificação de ativos e passou a exigir duplo fator de aprovação para operações acima de determinado limite financeiro.
Impacto para correntistas e programas sociais
Apesar do abalo contábil, a instituição garante que serviços como pagamento de salários, concessão de crédito imobiliário e repasses de benefícios sociais seguem operando normalmente. Fontes do governo distrital afirmam que a estabilidade dessas funções foi condicionante para a liberação do empréstimo de R$ 6,6 bilhões.
Auditores independentes alertam, porém, que o banco precisará demonstrar solidez e manter níveis adequados de capital ao longo dos próximos anos para preservar a confiança de clientes, parceiros e organismos reguladores.
Próximos passos
- 24 de agosto: assembleia extraordinária dos acionistas vota a abertura das ações judiciais.
- Após votação: definição da estratégia processual, com provável ajuizamento de causas na esfera cível.
- Curto prazo: conclusão dos 25 PADs, que podem ampliar a lista de ex-gestores responsabilizados.
- Médio prazo: implementação completa do plano de recuperação de capital aprovado pelo Banco Central.
- Longo prazo: auditorias recorrentes para atestar a eficácia dos novos mecanismos de governança.
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