Sem poder atravessar a histórica Ponte Torta desde janeiro, caminhões e máquinas agrícolas de Carmo do Rio Claro, no Sul de Minas, ganharão em agosto uma rota alternativa: um porto recém-aberto na cabeceira da ponte permitirá que veículos pesados cruzem o Rio Sapucaí por balsa. A construção, financiada pela prefeitura por aproximadamente R$ 200 mil, começou na semana passada e deve funcionar gratuitamente para moradores do município, enquanto usuários de outras localidades pagarão tarifa destinada à manutenção.
O serviço será integrado ao trajeto já feito pela balsa que liga o centro da cidade ao outro lado do rio. Segundo o prefeito Filipi Cardoso Carielo (PSD), a embarcação passará a cumprir dois itinerários, inclusive à noite, reduzindo em até 30 km o desvio imposto a quem hoje precisa contornar a BR-265.
Alívio para caminhões e máquinas agrícolas
A interdição da Ponte Torta atingiu em cheio produtores rurais, mineradoras e prestadores de serviço. Caminhoneiros que antes cruzavam o rio em poucos minutos passaram a rodar longa distância por estradas estaduais, encarecendo fretes e atrasando entregas. Com a nova rampa de acesso, a prefeitura espera restabelecer parte da agilidade perdida.
O produtor de milho Delson Freitas Basílio calcula que o custo por saca subiu R$ 12 desde que a estrutura foi fechada, encarecendo em cerca de 15 % o preço final do produto. “A gente tem visto um descaso enorme. Toda vez que passamos lá a sinalização piora, e nada de solução”, reclamou. Relatos parecidos se multiplicam entre empresários que dependem da travessia para transportar calcário, areia, brita e insumos agropecuários.
Dois portos, um mesmo barco
Para dar conta da nova demanda sem suspender o atendimento aos moradores que já usam a balsa diariamente, a prefeitura optou por ampliar a estrutura existente. A embarcação, que hoje opera de manhã cedinho e no fim da tarde, terá grade de horários ajustada para atender também a cabeceira da ponte. “Precisamos encaixar os turnos porque muita gente depende do primeiro trajeto. Mas vamos colocar placa com horários certinhos e incluir viagens noturnas”, disse Carielo.
De acordo com o chefe do Executivo local, residentes de Carmo do Rio Claro não pagarão nada pela travessia. Já empresários, transportadoras e motoristas de outros municípios precisarão desembolsar valor ainda não divulgado, revertido à manutenção da rampa de concreto, cabos, motor e combustível do empurrador.
Situação crítica da Ponte Torta
Construída há décadas sobre a BR-265, a Ponte Torta foi considerada em “estado crítico” pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Laudo técnico apontou risco iminente de colapso, motivo pelo qual veículos acima de 3,5 t estão proibidos de circular desde o início do ano.
Para reforçar a restrição, o órgão federal instalou placas e colocou manilhas de concreto na entrada da estrutura. Mesmo assim, alguns motoristas insistem em atravessar: em junho, um carreteiro acabou preso após tentar forçar passagem e ficar entalado entre as barreiras.
Contratação emergencial para obra definitiva
Na última quarta-feira, o DNIT publicou no Diário Oficial da União o resultado da dispensa de licitação que selecionará a empresa responsável por demolir e reconstruir a ponte sobre o Rio Sapucaí. O contrato, classificado como emergencial, terá prazo de execução de até 12 meses a partir da ordem de serviço. Embora a contratação avance, o órgão projeta que a nova ponte só estará concluída em 2027, pois o processo inclui projetos, licenças ambientais e acabamentos.
A autarquia informou ainda que tentou, duas vezes, contratar balsa temporária para garantir fluxo de veículos enquanto durarem as obras, mas não houve empresas interessadas nas condições oferecidas. A lacuna acabou preenchida pelo próprio município e, em parte, pela iniciativa privada: uma companhia de mineração ergueu estrutura própria no leito do Sapucaí para transportar brita e calcário.

Imagem: Internet
Impactos econômicos e pressão política
A agropecuária responde por fatia relevante do PIB de Carmo do Rio Claro. Com lavouras de milho, café e soja localizadas às margens do rio, a impossibilidade de atravessar tratores e colheitadeiras elevou custos e gerou insegurança. O produtor Claudinei Célio Mendonça resume o clima: “Esse problema se arrasta, traz incerteza e insatisfação para quem depende da ponte todos os dias”.
Líderes empresariais pressionam o município e o DNIT por soluções rápidas, temendo perda de competitividade em plena safra de grãos. A prefeitura argumenta que a balsa é medida paliativa, mas essencial para evitar demissões em série. O custo de R$ 200 mil, justifica o prefeito, foi bancado com recursos próprios porque o trâmite federal ainda levará tempo.
Tarifa diferenciada
Embora a gratuidade para carmelitanos tenha sido bem recebida, prefeitos da vizinhança questionam a cobrança diferenciada. Segundo Carielo, não há como sustentar combustível, manutenção e mão de obra apenas com dinheiro municipal se todo o fluxo vier de fora. “A prioridade é quem paga imposto aqui. Mas qualquer um poderá usar, desde que contribua para os custos”, declarou.
Calendário da nova travessia
A obra da rampa de concreto entrou na última fase, com compactação do solo e instalação de defensas metálicas. A equipe de engenharia planeja testes de atracação nos próximos dias; caso não haja chuva forte, a operação começa até o fim de agosto.
Inicialmente, a balsa fará quatro viagens pela manhã e quatro à tarde, além de dois horários noturnos. A capacidade máxima estimada é de 25 t, suficiente para caminhões bi-trem vazios ou carregados moderadamente. Durante a estiagem, quando o nível do Sapucaí costuma baixar, a prefeitura pretende dragar o canal de aproximação para manter a lâmina d’água.
Segurança e fiscalização
O Corpo de Bombeiros dará aval final à estrutura. Também será instalada balança móvel na entrada do porto para impedir que veículos acima do limite embarquem. Guardas municipais ficarão responsáveis por organizar filas e evitar que motoristas tentem furar bloqueios na Ponte Torta.
O que ainda falta decidir
- Publicação da tabela de tarifas para não residentes;
- Definição dos horários definitivos depois do período de teste;
- Treinamento da equipe de marujos e socorristas;
- Negociação com o DNIT para eventual participação financeira federal.
Enquanto a ponte original não renasce, a pequena balsa virou símbolo da resiliência local. “Não é solução definitiva, mas já nos devolve parte da mobilidade”, resume o agricultor Delson Basílio. Até 2027, a travessia sobre as águas do Sapucaí — tortuosa como a velha ponte — será o elo que manterá girando as engrenagens econômicas de Carmo do Rio Claro.
