Volodymyr Zelensky voltou a acusar Moscou de lançar mísseis fabricados pela Coreia do Norte sobre cidades ucranianas e afirmou que até 50 mil soldados norte-coreanos devem reforçar as fileiras russas nos próximos meses. O presidente ucraniano qualificou o episódio mais recente — um bombardeio que deixou mortos e feridos — como prova de que Pyongyang já atua diretamente no conflito.
O alerta reabre o debate sobre a extensão da parceria militar entre Kim Jong-un e Vladimir Putin, firmada em junho de 2024. Desde então, segundo organismos independentes e serviços de inteligência ocidentais, a Coreia do Norte despachou munições, veículos de guerra, baterias de artilharia e contingentes de combate para sustentar o esforço bélico russo, que sofre com escassez de material e dificuldade de recrutamento.
De mísseis a soldados: o arsenal norte-coreano em solo russo
Relatórios do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) e de um grupo de 11 países da ONU indicam que Pyongyang já enviou mais de 15 milhões de projéteis de artilharia, centenas de mísseis balísticos e veículos blindados ao aliado. Em paralelo, pelo menos 14 mil militares norte-coreanos teriam sido incorporados às operações russas entre 2024 e 2025. A nova leva citada por Zelensky elevaria o número total para algo próximo de 64 mil, configurando a maior participação estrangeira regular no conflito.
Unidade balística na fronteira
Fontes ucranianas ouvidas pela agência Reuters detalham o aparelho militar deslocado recentemente para a região de Voronezh, próxima à Ucrânia. Trata-se de uma unidade composta por seis lançadores, capaz de disparar até 120 mísseis balísticos acompanhados por 90 especialistas norte-coreanos. Um dos projéteis, segundo Kiev, foi responsável pelo ataque que matou oito membros de uma mesma família no mês passado.
O envio desse módulo operacional exemplifica como Moscou tem integrado equipamentos de Pyongyang em estruturas já existentes, aproveitando-se da facilidade de reposição de peças — muitas vezes compatíveis com sistemas soviéticos — e da disponibilidade de munição barata.
Cálculo estratégico de Kim Jong-un
Para o think tank Instituto Econômico Coreano (KEI), a proximidade com Moscou tornou-se um pilar da política externa norte-coreana. Ao “dobrar a aposta” com material bélico e pessoal, Kim Jong-un busca fortalecer sua posição num tabuleiro internacional marcado por sanções e isolamento diplomático. A aposta não se limita à frente militar: cerca de 30 mil trabalhadores civis foram enviados à Rússia para ocupar vagas deixadas por homens mobilizados para a guerra, reforçando a economia russa e garantindo divisas a Pyongyang.
O tratado de cooperação estratégica assinado em 2024 prevê ajuda mútua em caso de “agressão externa”. Com base nesse dispositivo, autoridades norte-coreanas classificam o envio de tropas e armamentos como “assistência legítima a uma nação-irmã”. Em maio de 2025, Kim chegou a declarar que a participação direta de seus militares visava “proteger um aliado sob ataque do Ocidente”.
Impacto no campo de batalha
Embora ainda não haja consenso sobre o efeito de um reforço de 50 mil soldados norte-coreanos, analistas apontam que a presença estrangeira pode aliviar o desgaste do exército russo, responsável por quase meio milhão de mortos e um total de 1,2 milhão de baixas, segundo o ISW. O alto custo humano levou Moscou a readmitir feridos na linha de frente e a recorrer a contingentes externos, inclusive mercenários.

Imagem: Internet
No plano material, indícios de escassez tornaram-se mais visíveis. Pela primeira vez desde o início da invasão, o desfile do Dia da Vitória, em abril, não exibiu blindados pesados na Praça Vermelha. A lacuna vem sendo suprida por lotes de equipamentos de Pyongyang, capazes de manter a artilharia russa em operação constante.
Do outro lado, a Ucrânia enfrenta limitações semelhantes. No dia 6 de julho, Kiev não conseguiu interceptar nenhum dos 23 mísseis balísticos lançados por Moscou, evidenciando gargalos em suas defesas aéreas. Ainda assim, os ucranianos compensam a inferioridade numérica com um “paredão de drones” e ataques de precisão em bases russas, estratégia que inaugurou uma nova fase do conflito, marcada por operações de médio e longo alcance dentro do território adversário.
Estagnação e guerra de drones
Com a linha de frente praticamente congelada, ambos os exércitos recorrem a drones e mísseis para desgastar infraestrutura e moral inimigas. A avaliação do ISW é que, apesar do fluxo constante de munições norte-coreanas, a ofensiva terrestre russa tem avançado centímetros ao custo de milhares de vidas, enquanto a defesa ucraniana se mantém relativamente estável graças ao emprego massivo de sistemas não tripulados e às remessas de armamento ocidental.
Próximos movimentos
Autoridades ocidentais monitoram o possível deslocamento dos 50 mil militares norte-coreanos. Caso se confirme, será a maior mobilização estrangeira desde o início da invasão russa, elevando o risco de escalada regional e colocando à prova a capacidade logística de Moscou para integrar um contingente de idioma, doutrina e treinamento diferentes.
Enquanto o quadro não se define, Kiev insiste em denunciar cada míssil norte-coreano encontrado nos escombros — tentativa de pressionar aliados a reforçarem sanções contra Pyongyang e, por tabela, esvaziar o fôlego de Putin. Resta saber se o fluxo de armamentos asiáticos será suficiente para alterar o equilíbrio de forças ou apenas prolongar um impasse que já entra no quinto ano.
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