Antonio Calloni encerrou as gravações da primeira fase de “Coração Acelerado” com a convicção de ter desbravado um território diferente na própria carreira. No folhetim das sete, ele interpreta Walmir Santana, homem simples que adotou um bebê encontrado às margens de um rio e, anos depois, embarca no desafio de criar sozinho o adolescente João Raul. Para o ator, viver um pai guiado pelo afeto, pela comicidade quase infantil e por uma fé inabalável na bondade humana traz um sabor raro: “É um personagem delicioso, distante do que eu vinha fazendo, e isso me deu um prazer imenso”.
O balanço, feito nos bastidores da Globo, vai além do discurso sobre papel inédito. Calloni detalha como construiu o protagonista, comemora a sintonia com Filipe Bragança — intérprete de João Raul — e elogia a química com Fernanda Pimenta, que encarna Irene, o novo amor de Walmir. Embora já some mais de 45 anos de atuação, o artista afirma que cada cena do pai adotivo dialoga com experiências pessoais e, ao mesmo tempo, ressignifica marcas de personagens icônicos como Bartolo, de “Terra Nostra”, e Mohamed, de “O Clone”.
Da adoção à leveza: o nascimento de Walmir
O ponto de partida para Calloni foi a informação recebida ainda na leitura dos primeiros capítulos: Walmir acolhe um bebê solitário na beira de um rio. Essa origem, segundo ele, ditou o tom de todas as decisões de atuação. “Pensei em alguém tosco, quase pueril, mas extremamente amoroso”, conta. A equipe de caracterização reforçou essa ideia ao optar por figurinos práticos, sem vaidades excessivas, e cortes de cabelo que lembram trabalhadores do interior.
Em cena, o intérprete buscou equilíbrio entre humor e emoção, recurso que, a seu ver, facilita a identificação do público. “Queria que as pessoas rissem com ele, não dele, e entendessem sua lógica simples de querer o bem”, explica. O resultado aparece nos índices de redes sociais: as hashtags #MeuPaiWalmir e #CoraçãoAcelerado figuraram entre os assuntos mais comentados na estreia do personagem.
Construção a partir da escuta
- Gestual reduzido: Calloni limitou movimentos expansivos para preservar a ingenuidade de Walmir.
- Sotaque ameno: Embora a novela se passe em cidade fictícia, o ator evitou marcações regionais fortes para reforçar universalidade.
- Olhar direto: “Quando ele olha, entrega tudo”, diz o artista, que usou contato visual prolongado como assinatura do personagem.
Parceria afinada com Filipe Bragança
Se na trama Walmir e João Raul formam uma família unida por respeito e cumplicidade, fora dela Calloni e Filipe Bragança seguem a mesma trilha. O veterano descreve o colega como “trabalhador incansável e, ao mesmo tempo, leve”, combinação que facilitou a criação de cenas de afeto sem parecer forçado. “Foi muito fácil construir essa amizade: bastou olhar para ele e lembrar que, na história, aquele menino era tudo para o meu personagem.”
Bragança, por sua vez, já declarou em entrevistas internas que o convívio com Calloni serviu como “masterclass diária”. O jovem ator estudou gravações antigas do colega e acompanhou leituras de roteiro para absorver nuances de entonação e pausa. A sintonia rendeu sequência antológica: no capítulo em que João Raul descobre a adoção, a emoção explícita entre os dois arrancou aplausos de colegas de equipe ainda no estúdio.
A cena que definiu a relação
No episódio citado, Walmir revela ao filho que o encontrou no rio. A direção pediu apenas uma tomada, confiando na química dos atores. O choro genuíno de Bragança fez Calloni improvisar um abraço prolongado, mantido na edição final. A produção registrou silêncio absoluto nos bastidores durante a gravação, reflexo da intensidade do momento.
Irene: o amor que floresce após anos de dedicação ao filho
O arco romântico de Walmir com Irene, vivida por Fernanda Pimenta, começou discreto, mas rapidamente ganhou espaço. Calloni soube desde a sinopse inicial que seu personagem teria um envolvimento com a ex-empregada de Alaor, mas não imaginava a receptividade dos fãs. “Esses personagens se completam na precariedade, no carinho, no desejo de acertar”, analisa.
Para criar credibilidade ao romance, Calloni e Pimenta marcaram encontros de laboratório fora dos Estúdios Globo, onde compartilharam memórias de infância, músicas preferidas e histórias de família. A imersão buscava encontrar pontos em comum entre os intérpretes para que transparecessem em cena. Funcionou: perfis nas redes da novela registraram crescimento de 42% em interações durante capítulos envolvendo o casal.

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O contrato de confiança
- Escuta ativa: nas leituras, cada ator repetia a fala do outro para garantir entendimento completo.
- Tempo de cena: a dupla acordou manter pausas entre as falas para traduzir timidez dos personagens.
- Limite corporal: beijos e abraços foram estabelecidos em conjunto, respeitando a narrativa de descoberta amorosa tardia.
Entre Bartolo e Mohamed: as pontes na trajetória de Calloni
A experiência de quatro décadas permite a Calloni mapear ecos de Walmir em papéis que marcaram época. De Bartolo, o camponês italiano de “Terra Nostra”, ele resgata a devoção à família; de Mohamed, o comerciante de “O Clone”, herda a veia cômica que brota sem anular o drama. “Mesmo quando os personagens parecem opostos, eles conversam dentro de mim. Tudo é construído com o material da minha vida”, reflete.
O ator rejeita a ideia de que a entrega sentimental de Walmir seja mais fácil por aproximar-se de sua natureza afetuosa fora das telas. Para ele, qualquer personagem exige transformação consciente: “Eu modulo voz, corpo e respiração. Não basta ser carinhoso na vida real, preciso encontrar a frequência exata que faz daquele carinho algo propriamente do Walmir”.
Diferente, mas não distante
Questionado se considera o papel um divisor de águas, Calloni prefere a metáfora da engrenagem: “Ele é uma peça que se encaixa num mecanismo maior, onde cada personagem alimenta o seguinte”. Ainda assim, admite um sabor particular ao interpretar alguém “tão solar em tempos sombrios”.
Despedida provisória e expectativa pelos próximos capítulos
Com o fim do bloco inicial de gravações, Walmir passa por um momento de crise: a demissão da empresa de Alaor ameaça o sustento da família. Calloni garante que a virada dramática não roubará a essência otimista do personagem. “Ele vai continuar acreditando que o amor vence. Esse é o motor dele.”
Nos bastidores, a equipe de roteiristas trabalha para aprofundar conflitos envolvendo preconceito, adoção e novos modelos de família. O ator, sempre que pode, divide sugestões baseadas em órgãos de adoção reais visitados ao longo da pesquisa. “Quero que quem assista sinta esperança, mas também reflita sobre a responsabilidade de criar alguém”, conclui.
Futuro aberto
A direção artística planeja gravar cenas externas em comunidades ribeirinhas para resgatar a origem de João Raul, promessa que empolga Calloni. “Voltar ao rio onde tudo começou fecha um ciclo e, ao mesmo tempo, inaugura outro”, diz ele, deixando no ar a oportunidade de revisitar o primeiro encontro entre pai e filho sob nova perspectiva.
Entre memórias acumuladas, parcerias reverenciadas e desafios ainda por chegar, Antonio Calloni se despede do set diariamente com a sensação de que Walmir continuará batendo forte no peito do público — e no dele. “Coração acelerado é exatamente o que sinto ao viver esse homem”, confessa, sorrindo largo enquanto se perde pelos corredores iluminados da emissora.
