Uma massa verde compacta, formada por macrófitas conhecidas como “alfaces-d’água”, tomou proporções inéditas na represa do Mimoso, em Ribas do Rio Pardo (MS). O bloqueio vegetal cobre cerca de 25% dos 1.300 hectares do reservatório da usina hidrelétrica e já impede a navegação, afasta turistas e provoca queda brusca no faturamento de comerciantes ribeirinhos.
Além do baque econômico, especialistas alertam que o sombreamento da lâmina d’água reduz o oxigênio dissolvido, ameaça a fauna aquática e pode acelerar o processo de assoreamento, tornando o lago cada vez mais raso e alterando a dinâmica do curso d’água abaixo da barragem.
Impactos imediatos para quem vive do lago
Barcos particulares, lanchas de passeio e até motos aquáticas ficaram retidos nas margens nas últimas semanas. Proprietários relatam que os motores travam ao ter hélices enroscadas na vegetação flutuante. “O fluxo de visitantes caiu mais de 80%. As famílias deixaram de vir e meu comércio ficou vazio”, lamenta Edevaldo Oliveira Cardoso, dono de uma mercearia à beira da represa.
A mudança na paisagem também afeta atividades cotidianas de moradores de chácaras e fazendas vizinhas, que usavam o lago para travessias rápidas. Segundo relatos, grandes mamíferos, como antas, deixaram de cruzar o espelho-d’água porque o tapete vegetal funciona como barreira física.
Risco ambiental além da superfície
Luz bloqueada e oxigênio em queda
O diretor do Instituto Delta Salobra, biólogo Felipe Augusto Dias, adverte que a camada espessa de plantas sobre o espelho-d’água impede a passagem de luz fundamental para a fotossíntese de algas submersas. Sem fotossíntese, o oxigênio dissolvido cai e coloca em risco peixes e invertebrados. “Com baixa oxigenação, muitas espécies não conseguem sobreviver e a cadeia alimentar se desestrutura”, explica.
Assoreamento acelerado
Quando morrem, as macrófitas afundam e se decompõem, aumentando a carga orgânica no fundo. O material em decomposição eleva a turbidez, libera nutrientes e torna o lago progressivamente mais raso. O fenômeno reduz o volume útil do reservatório e pode comprometer a geração de energia da usina Mimoso em períodos de seca prolongada.
Economia local sente o baque
Pescadores artesanais relatam queda no número de exemplares capturados e aumento no custo de operação, pois redes e anzóis se prendem às plantas. Investidores de embarcações de passeio, que nos fins de semana alugavam lanchas e motos aquáticas, pausaram atividades indefinidamente. “Quem comprou barco para fazer renda extra vai ter de encostar na garagem”, observa o empresário Cláudio Deocleciano Correia.
O setor de hospitalidade, formado por pousadas rústicas e restaurantes que serviam peixe frito ao pôr-do-sol, também se encontra ameaçado. Reservas para feriados que costumavam lotar com antecedência foram canceladas desde que imagens do “mar verde” circularam nas redes sociais.
Por que o surto ficou fora de controle?
Excesso de nutrientes na água
Macrófitas são naturais de ambientes aquáticos brasileiros e até prestam serviços ecossistêmicos, como filtrar a água e ofertar abrigo a alevinos. O problema começa quando há aporte anormal de nutrientes – principalmente nitrogênio e fósforo – que turbina o crescimento da vegetação. Estudos preliminares indicam duas frentes principais de investigação:
- Escorrimento superficial: falta de manejo adequado do solo, retirada de mata ciliar e uso de fertilizantes em lavouras nas cabeceiras podem levar excesso de nutrientes a córregos que deságuam no reservatório.
- Fontes pontuais: lançamento de efluentes não tratados por confinamentos pecuários ou indústrias próximas é outra hipótese avaliada por pesquisadores da região.
“As plantas absorvem o que chega. Quanto maior a planta, maior o sinal de que há desequilíbrio na entrada de nutrientes que, em condições normais, não estariam ali”, pontua Dias. Até o momento não há laudo conclusivo sobre a origem exata da carga nutritiva que disparou a proliferação.

Imagem: Internet
Ausência de manejo sistemático
Historicamente, pequenas manchas de alface-d’água apareciam no período de cheia e eram removidas manualmente ou pela própria dinâmica de vazão da barragem. O volume atual, porém, ultrapassou qualquer capacidade de contenção improvisada. Sem programa de manejo contínuo, a biomassa acumulada tornou-se incontrolável.
Efeitos na operação da hidrelétrica
Operadores da usina passaram a monitorar o tapete vegetal por risco de redução de fluxo nas comportas. Quanto maior a camada de plantas, maior a dificuldade de liberar água sem soltar grandes blocos de macrófitas rio abaixo, onde poderiam entupir estruturas de captação municipal ou barragens menores.
Há receio de que, caso seja necessária a retirada emergencial de grandes quantidades de plantas, o processo provoque aumentos abruptos de turbidez e favoreça mortandade de peixes em cadeia.
Possíveis soluções em debate
- Coleta mecânica: barcaças equipadas com esteiras e guindastes poderiam remover toneladas de biomassa, mas o custo operacional é alto e exige destinação adequada do material retirado.
- Barragens flutuantes: boias de contenção instaladas em pontos estratégicos podem impedir que a vegetação avance sobre áreas de uso recreativo ou chegue às turbinas.
- Controle de fonte: identificação e redução do aporte de nutrientes é medida de médio e longo prazos considerada indispensável pelos especialistas.
Enquanto técnicos discutem estratégias, moradores organizam mutirões pontuais para abrir clareiras junto às rampas de acesso, esforço que, embora importante para manter passagens emergenciais, é insuficiente diante da escala do problema.
Preocupação de quem depende da água
Comerciantes temem que a temporada de primavera e verão – auge do turismo náutico na região – seja perdida. “Se não acharem solução logo, muitos vão fechar as portas”, afirma Cardoso ao lembrar que o contrato de aluguel de seu ponto comercial vence em breve.
Pescadores relatam prejuízos não apenas pela queda na captura, mas também pela perda de equipamentos danificados. Já moradores de zonas rurais próximas à represa receiam que o avanço da vegetação alcance criadouros de peixes e represamentos menores usados para irrigação.
Próximos passos
Órgãos ambientais estaduais e a administração da usina planejam vistorias conjuntas para medir a profundidade real do problema – literal e figurativamente. Amostras de água devem ser analisadas para identificar concentrações de nutrientes e possíveis contaminantes. A partir desses dados, será elaborado plano de manejo que inclua retirada controlada de biomassa e ações de saneamento na bacia de contribuição.
Enquanto isso, quem mora ou investe às margens da represa do Mimoso segue em compasso de espera, torcendo para que o cartão-postal volte a ser espelho-d’água cristalino, não o imenso canteiro flutuante que, hoje, sintetiza o desequilíbrio ambiental da região.
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