Depois de seis décadas sem saber ler uma única palavra, a agricultora Maria da Conceição, moradora de Sousa, no Sertão da Paraíba, está pronta para estrear como escritora. Aos 65 anos, ela concluiu o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) e finalizou, também à mão, um manuscrito de cerca de 200 páginas que deve chegar ao público até outubro.
O feito rompe o ciclo de exclusão que marcou a infância da paraibana: vivendo na zona rural, ela percorria longas distâncias até a roça, dividindo o dia entre o algodão, a criação dos filhos e as tarefas domésticas. A escola, distante e inacessível, ficou para depois — só que esse “depois” veio 50 anos mais tarde, transformando a rotina da família e reacendendo sonhos adormecidos.
Da roça para a sala de aula
Infância sem cadernos
Nascida e criada em um sítio nos arredores de Sousa, Maria recorda que trocar a enxada pelo caderno nunca foi opção possível. “Trabalhava muito, a escola era longe demais e a gente não tinha dinheiro”, resume. As dificuldades financeiras, associadas ao esforço físico diário, tornaram a educação um privilégio distante.
Retorno tardio incentivado pela EJA
O cenário mudou quando ela descobriu a EJA, programa pensado justamente para adultos que não frequentaram a escola na idade adequada. Segundo o Ministério da Educação, mais de 16 milhões de matrículas foram registradas na modalidade na última década, sendo cerca de 5 milhões no Nordeste. Na Paraíba, aproximadamente 500 mil estudantes aproveitaram a iniciativa — Maria entre eles.
Com ritmos e métodos adaptados, a agricultora ganhou confiança. Os professores, conta, “tinham paciência e mostravam que a gente podia aprender”. Em poucos anos, não só dominou a leitura e a escrita como concluiu todo o ensino médio, façanha que se tornou exemplo dentro de casa.
Uma família transformada pelos estudos
Francisco volta a pegar nos livros
O entusiasmo de Maria contagiou o marido, Francisco, que havia abandonado a escola cedo para trabalhar como gesseiro e ajudar no sustento da família. Motivado por ela, ele também se matriculou na EJA, conciliando as aulas noturnas com o serviço pesado durante o dia. Juntos, conseguiram o diploma do ensino médio, experiência que comoveu a filha do casal, Járcia Soares. “Meu pai chegava exausto e mesmo assim estudava. Ver os dois formados deixa a gente orgulhosa”, diz.
O nascimento de um livro
Ideia que brotou na sala de aula
Durante as aulas, o professor Nilson Rutizat costumava levar obras de autores sertanejos para mostrar que a literatura também é produzida na região. Foi ali que Maria percebeu que poderia contar suas próprias histórias. Sem avisar ninguém, começou a escrever à noite, depois que todos dormiam.
Manuscrito de 200 páginas
Meses depois, surpreendeu o educador com um caderno robusto: cerca de 200 páginas preenchidas à mão. Nilson admite ter ficado atônito. “Quando ela me entregou, não acreditei na quantidade de papel escrito. É pura dedicação”, relata.

Imagem: Internet
Enredo de fé e perseverança
A obra, inspirada na trajetória de uma amiga de infância, permanece cercada de mistério até o lançamento. A autora antecipa apenas que se trata de uma história de fé e superação, “uma batalha sem fim, sem desistir nenhum segundo”. O texto já foi digitado, ganhou capa e aguarda registro antes de seguir para a gráfica.
Rede de apoio e reconhecimento
Professor e colegas celebram conquista
Para Nilson, a experiência de Maria comprova a relevância da EJA em regiões onde o trabalho rural ainda impede crianças de chegarem à escola. “Ela mostra que nunca é tarde para aprender e criar”, avalia o professor.
Reflexo em números e em vidas
Os dados do MEC evidenciam a demanda reprimida: no Nordeste, um terço das matrículas da EJA na última década concentra-se em estados como a Paraíba. Casos como o de Maria ajudam a dar rosto a estatísticas que, muitas vezes, passam despercebidas nas planilhas oficiais.
Próximos capítulos
Lançamento previsto para outubro
A expectativa é que o evento de lançamento ocorra em Sousa até o fim de outubro, reunindo familiares, professores e moradores da cidade. Será a primeira vez que a autora verá o manuscrito transformado em livro impresso.
Planos para uma segunda obra
Antes mesmo do primeiro título chegar às prateleiras, Maria já traça metas futuras: pretende agora escrever para o público infantil. “Os professores que se preparem, vou começar outro”, brinca, exibindo a mesma convicção que a levou do analfabetismo ao papel impresso em tão pouco tempo.
Mais que uma conquista individual, a história da agricultora reflete a importância de programas de ensino inclusivo e reforça que a idade não limita a capacidade de sonhar, aprender e compartilhar conhecimento com o mundo.
