Em menos de uma semana após o anúncio de um novo pacote de tarifas dos Estados Unidos, a equipe do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Palácio do Planalto, divulgou nas redes sociais um jingle que atribuía o Pix ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A peça, criada com apoio de inteligência artificial (IA), exemplifica a rapidez e o baixo custo com que músicas políticas vêm sendo produzidas para responder a temas do momento.
Produção acelerada e segmentada
Ferramentas de IA disponíveis por assinatura permitem gerar, em poucos segundos, versões diferentes de uma mesma canção, ajustar voz, instrumentos e até letras. Segundo o compositor Paulo César Bernardes, conhecido como PC, que trabalhou em campanhas tucanas desde os anos 1990, “hoje seria possível criar um jingle para cada bairro de São Paulo em dois dias”, tarefa que em 1992 demandou grande equipe e alto investimento.
A lógica também mudou: em vez de apostar em um único refrão marcante, campanhas estão lançando diversas faixas curtas e temáticas — segurança hoje, saúde amanhã — na tentativa de viralizar nas redes. PC avalia, porém, que a maioria dessas músicas é “descartável” e tende a não permanecer na memória do eleitorado.
Profissionais versus amadores
Com a popularização das plataformas, apoiadores passaram a criar jingles por conta própria, fenômeno que já ocorria, mas não em larga escala. Em 2020, a pisadinha “O Homem Disparou”, composta de forma tradicional pelo piauiense César Araújo, tornou-se onipresente entre candidatos a prefeituras e câmaras municipais; agora, qualquer usuário consegue produzir algo parecido em minutos. O GLOBO testou um desses serviços e gerou, em menos de cinco minutos, uma música para o fictício “Joãozinho da Galera”.
Para o marqueteiro Paulo de Tarso, criador do bordão “Lula Lá” na campanha de 1989, a enxurrada de conteúdos tende a ser contraproducente: “Vejo jingles genéricos e longos. O eleitor não vai decorar dez canções; o ideal é ter uma só, com versões em ritmos diferentes”.
Impacto no mercado musical
Lázaro do Piauí, responsável pelo “Deixa o Homem Trabalhar” de 2006, relata que produtoras oferecem hoje cerca de 30% do valor cobrado antes da IA, mas entregam produtos padronizados, “com a mesma voz e sem emoção”. Ele costuma ser procurado para “ajustar” faixas criadas por algoritmo, corrigindo erros como duração excessiva para redes sociais ou falta de identificação com o cargo disputado.
Ramon Quadros, fundador da Jingle Online em 2010, nota que desde 2024 pré-candidatos chegam perguntando se a empresa usa IA — alguns querem justamente uma solução artesanal para se diferenciar do material massificado.
Imagem: Editoria de Arte
Regras eleitorais para conteúdo sintético
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que qualquer peça criada com IA deve indicar, de forma clara, que foi produzida ou manipulada por essa tecnologia. Há ainda restrições: é proibido divulgar conteúdos sintéticos que usem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou figuras públicas nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas seguintes. Sistemas de IA também não podem sugerir nomes de candidatos a pedido do usuário.
Desde 2024, compositores e intérpretes ganharam o direito de solicitar retirada de paródias não autorizadas, medida tomada após sucessivas queixas de artistas como Roberto Carlos, Caetano Veloso e Marisa Monte.
Com IA ou sem IA, publicitários concordam que a ideia original continuará sendo o diferencial. “O que faz a música funcionar é quem define o que ela precisa dizer e qual estilo usar”, resume PC. Para os especialistas, a tecnologia barateia e democratiza a produção, mas não substitui a criatividade humana que transforma um simples refrão em peça de campanha memorável.
Com informações de O Globo
