São Paulo – O Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização sem fins lucrativos contratada pela Prefeitura de São Paulo para implantar 5 mil pontos de internet gratuita na periferia da capital, registrou um salto de faturamento de aproximadamente 170 vezes entre 2022 e 2025. As demonstrações contábeis entregues ao Ministério da Justiça indicam que a receita passou de R$ 306 mil, no fim de 2022, para R$ 54 milhões no encerramento de 2025.
Explosão de receitas públicas
Do total declarado em 2025, R$ 51,9 milhões correspondem a parcerias e subvenções governamentais, R$ 2 milhões a subvenções na área de educação e R$ 2,6 milhões a prestação de serviços. Em 2022, praticamente todo o faturamento (R$ 299 mil) foi gasto em “serviços de terceiros”, item que também consumiu R$ 52 milhões em 2025, sem detalhamento de fornecedores.
Ligação com produtora de “Dark Horse”
A representante do instituto é Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, longa-metragem inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) investiga se recursos públicos do contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura teriam sido desviados para financiar o filme. A ONG e a produtora foram alvo de operação da Polícia Civil em 1º de junho.
Certificação travada no Ministério da Justiça
Para obter o certificado de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), o ICB protocolou a documentação em fevereiro deste ano. Em 29 de março, um parecer técnico da pasta apontou irregularidades no estatuto, como a previsão de benefícios diretos a associados, vedada pela Lei 9.790/1999. O órgão concedeu 60 dias úteis para adequação, prazo encerrado em 29 de maio, sem confirmação de alterações.
Despesas declaradas em 2025
• Despesas com pessoal: R$ 452 mil;
• Encargos sociais: R$ 85 mil;
• Serviços de terceiros (pessoa jurídica): R$ 52 milhões;
• Comunicação: R$ 18,8 mil;
• Aluguéis: R$ 224 mil;
• Manutenção do imóvel: R$ 9,1 mil;
• Transporte e veículos: R$ 70 mil;
• Outras despesas/projetos: R$ 72 mil;
• Impostos, taxas e contribuições: R$ 3,3 mil;
• Multas e juros: R$ 1 mil;
• Despesas bancárias: R$ 88,7 mil;
• Depreciação e amortização: R$ 4,1 mil.
Suspeitas sobre contrato de R$ 108 milhões
O acordo firmado em 2024 previa a instalação de pontos de Wi-Fi livre. Entre as notas fiscais apresentadas pelo ICB estão um documento de R$ 1,2 milhão emitido em nome da própria ONG e outro, de R$ 2 milhões, posteriormente cancelado. O Ministério Público apura indícios de crimes licitatórios, lavagem de dinheiro, organização criminosa e desvio de verbas públicas. A promotora Marina de Azevedo Pedersolli solicitou ao Coaf relatórios financeiros de Karina Ferreira da Gama.
Imagem: Internet
Produtora nega uso de verba pública
A Go Up Entertainment afirma que o filme “Dark Horse” custou R$ 75 milhões, sendo R$ 54,2 milhões gastos nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil. A estimativa consta de perícia contratada pela própria empresa e anexada ao inquérito, que tramita sob sigilo.
O montante divulgado pela produtora é R$ 44,8 milhões inferior ao valor discutido em suposta negociação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em 2025. Conversas obtidas pelo site The Intercept Brasil mencionam pagamentos equivalentes a US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para financiar o longa. Em 16 de novembro, Flávio Bolsonaro enviou áudio a Vorcaro demonstrando preocupação com parcelas atrasadas; no dia seguinte, o banqueiro foi preso na Operação Compliance Zero, que apura fraudes bilionárias no mercado financeiro.
Com informações de Metrópoles
