Delegação dos EUA permanece sentada e se isola na despedida de Guterres na ONU

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    Em um gesto que escancarou o distanciamento entre Washington e o multilateralismo, a delegação dos Estados Unidos foi a única a permanecer sentada enquanto mais de 190 representações nacionais levantavam-se para aplaudir o secretário-geral António Guterres. O episódio ocorreu nesta terça-feira (22), durante a abertura da 81ª Assembleia Geral — a última presidida pelo diplomata português, que deixa o cargo sem sucessor definido.

    A recusa em homenagear o chefe da Organização das Nações Unidas, somada à ausência de figuras de alto escalão norte-americanas no plenário, sinalizou a continuidade da estratégia do presidente Donald Trump de deslegitimar o organismo. Guterres sai de cena em meio a uma crise financeira e política sem precedentes, agravada justamente pelo boicote orçamentário e retórico conduzido pela Casa Branca.

    Uma despedida sob tensão

    António Guterres assumiu o comando da ONU em 2017, num período já marcado pela ascensão de governos nacionalistas e pela retração de recursos destinados às agências multilaterais. Ao longo de quase uma década, buscou reposicionar a instituição como fórum indispensável para temas climáticos, direitos humanos e prevenção de conflitos. A falta de unanimidade, porém, explodiu na plenária quando a delegação norte-americana manteve-se imóvel, contrariando o protocolo de cortesia adotado por todos os demais países presentes.

    Embora gestos simbólicos sejam corriqueiros na diplomacia, a postura dos EUA ganhou dimensão maior pelo momento de transição da própria ONU. Sem acordo sobre o sucessor de Guterres, os Estados-membros travam negociações que, segundo diplomatas ouvidos, esbarram no veto informal de Washington a nomes considerados “globalistas”. Até agora não há calendário fechado para a escolha, o que amplia a sensação de vazio de poder no organismo.

    Agenda defendida pelo secretário-geral

    No discurso que desencadeou a reação norte-americana, Guterres reiterou três pontos caros à sua gestão: igualdade de gênero, reforma do Conselho de Segurança e solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino. Por pelo menos seis vezes, intervenções do secretário-geral foram seguidas de aplausos calorosos; em todas elas, a representação dos EUA manteve as mãos pousadas sobre a mesa.

    A defesa de uma composição mais equilibrada no Conselho de Segurança toca diretamente em interesses americanos — o país teme perder poder de veto ou ter de ceder espaço a novos membros permanentes. Quanto à pauta de gênero, Trump já vetou repetidas resoluções que, na avaliação da Casa Branca, extrapolavam a soberania doméstica. Em relação ao Oriente Médio, o governo republicano continua a apoiar Israel sem restrições, rejeitando qualquer menção a um Estado palestino independente.

    Isolamento calculado de Washington

    Desde que assumiu a presidência, em 2025, Trump intensificou ataques à ONU, chamando-a de “clubinho globalista” e caracterizando seus programas como entraves à liberdade de ação americana. No ano passado, chegou a zombar da infraestrutura do edifício-sede, citando problemas em escadas rolantes e teleprompters como exemplo de “ineficiência crônica”. Para evitar novo constrangimento, a gestão do complexo fez reformas pontuais às vésperas da assembleia.

    Apesar do cuidado com a parte física, não houve maneira de contornar o embate político. A recusa em aplaudir Guterres foi vista por observadores como um recado claro: sem mudanças que acomodem o maximalismo de Washington, a maior potência financeira do sistema continuará a cortar verbas e a bloquear resoluções contrárias a seus interesses. Desde 2017, os EUA já congelaram ou redirecionaram centenas de milhões de dólares originalmente destinados a programas da ONU.

    Ausência de autoridades de primeira linha

    Outro sinal do desdém norte-americano foi a escala de diplomatas de segundo escalão para ocupar as poltronas reservadas ao país. Nem o secretário de Estado nem o embaixador junto à ONU acompanharam a fala de Guterres. “Não fazia sentido prestigiar um evento com viés globalista”, comentou, em off, um assessor de política externa da Casa Branca.

    Diplomatas europeus e latino-americanos relataram surpresa com o grau de isolamento demonstrado. “Nunca vi algo semelhante, nem nos anos mais tensos da Guerra Fria”, disse um embaixador sul-americano. Para ele, a atitude pode se voltar contra os próprios EUA, fragilizando alianças históricas em votações futuras.

    Expectativa para a fala de Trump

    De acordo com o protocolo da Assembleia, o chefe da Casa Branca será o segundo líder mundial a discursar — imediatamente após o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Fontes do governo norte-americano adiantam que Trump usará o púlpito para celebrar a chamada “Doutrina Donroe”, releitura da ideia de primazia dos EUA sobre o continente americano formulada há mais de um século. O objetivo declarado é reafirmar o direito de intervenção unilateral “sempre que for necessário para proteger a segurança nacional”.

    Assessores dizem ainda que o presidente apresentará um balanço das ações “que restituíram a liberdade de manobra” ao país, citando a retirada de acordos ambientais, o bloqueio de resoluções sobre direitos reprodutivos e o corte de financiamento a operações de paz consideradas “inúteis”. A expectativa é de que mencione, como conquista, a renegociação de contribuições obrigatórias, que passou a atrelar repasses a metas definidas exclusivamente por Washington.

    Repercussão nos corredores da ONU

    A postura americana dividiu opiniões nos corredores do prédio de vidro. Delegações da União Europeia preferiram relativizar o episódio, afirmando que, apesar das diferenças, “o diálogo permanece aberto”. Já representantes de países em desenvolvimento alertaram para o impacto financeiro: “Se os EUA saírem de vez, ficaremos diante de um buraco orçamentário impossível de cobrir”, avaliou um negociador africano.

    Enquanto isso, grupos da sociedade civil presentes em Nova York criticaram o que chamam de “boicote sistemático” aos temas sociais defendidos por Guterres. Organizações de direitos humanos temem que a lacuna de liderança pós-secretário-geral coincida com a ofensiva de governos autoritários contrários a agendas de gênero e proteção de minorias.

    Impasses à vista

    A nomeação do novo secretário-geral costuma refletir delicado equilíbrio político entre as cinco potências com direito a veto. Com a disposição dos EUA em barrar qualquer perfil que privilegie a diplomacia multilateral, representantes da China, da Rússia, do Reino Unido e da França antecipam uma negociação mais arrastada do que o habitual. “Se não houver consenso até o fim do ano, poderemos ficar meses com a casa sem comando”, reconheceu um funcionário sênior do Departamento de Assuntos Políticos da ONU.

    Nesse cenário, cresce a preocupação de que a instituição perca relevância justamente quando crises como a guerra da Ucrânia, os conflitos no Sahel e a emergência climática exigem coordenação internacional. Para antigos colaboradores de Guterres, a maneira como os Estados-membros responderão ao boicote americano indicará se a ONU ainda consegue se renovar ou se caminhará para um papel secundário na governança global.

    Por ora, o silêncio — e os assentos imóveis da delegação dos EUA — resumem o grau de incerteza em torno do futuro do sistema multilateral que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial e que, 80 anos depois, enfrenta seu teste mais duro.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.