Mensagens obtidas pela Polícia Federal detalham ao longo de quase dois anos a aproximação entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O material reúne desde convites para almoços em Campos do Jordão até a discussão de contratos que totalizariam R$ 181 milhões com o escritório de advocacia da mulher do magistrado, além de pedidos de ajuda formulados por Vorcaro às vésperas de sua prisão em 2025.
Moraes afirma que jamais julgou tema ligado ao Grupo Master, classifica o relatório policial como “farsa” e sustenta que não houve irregularidade. O escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci, diz ter prestado serviços efetivos e sustenta que todas as movimentações financeiras foram declaradas.
Primeiros contatos e um almoço de fim de ano
27 de dezembro de 2023: convite em Campos do Jordão
Os diálogos analisados pela PF começam com o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria organizando um almoço para “Alex” – referência a Moraes – em 30 de dezembro, no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (SP). Funcionários de Vorcaro receberam orientação para montar uma “experiência completa” para nove convidados, sinal de que o banqueiro arcaria com a recepção.
11 e 15 de janeiro de 2024: minuta do contrato
Duas semanas depois, arquivos de texto em nuvem ligados ao Banco Master apontam “Ministro Alexandre de Moraes” como último editor de duas versões de contrato entre a instituição financeira e o escritório Barci de Moraes. Segundo a banca, tratou-se de consulta informal de compliance para verificar impedimentos legais, supostamente inexistentes.
Contrato de R$ 131 milhões com o escritório da esposa
23 de janeiro de 2024: assinatura e valores
O acordo foi firmado por três anos, prevendo remuneração total de R$ 131 milhões. Dados da Receita Federal mostram repasses efetivos de R$ 80,2 milhões até novembro de 2025, quando a liquidação do Banco Master encerrou a relação comercial.
Serviços prestados, segundo a banca
O escritório informa ter atuado em contencioso cível e consultivo bancário, emitindo pareceres e representando o Master em tribunais estaduais e federais. Relatórios de horas de trabalho teriam sido enviados mensalmente ao banco.
Jantares, viagens e sinal de proximidade
2 de fevereiro de 2024: jantar em Brasília
Fábio Faria voltou a intermediar encontro social na própria residência, com a presença das esposas de todos os envolvidos. Nas conversas, Moraes aparece como solicitante do evento.
Julho a novembro de 2024: mensagens curtas e encontros
- 17 de julho: Faria manda a Vorcaro o aviso “Careca 19:30”, apelido usado para o ministro.
- 5 de novembro: o banqueiro avisa à filha que está “com Alexandre de Moraes”.
26 de fevereiro de 2025: chegada monitorada
Um motorista vinculado ao Grupo Master informa a Vorcaro que “o ministro Alexandre chegou”, indicando reunião privada em endereço não especificado.
Abril de 2025: feriado em Campos do Jordão
Vorcaro relata à então namorada, a influenciadora Martha Graeff, que verá Moraes “perto de casa”. As mensagens sugerem que ambos aproveitaram o feriado na cidade serrana paulista.
22 de agosto de 2025: flagrante em aeronave
Vídeo do canal AVTV mostra Moraes e a esposa desembarcando em São Paulo de um jato operado pela Prime Aviation, empresa ligada a Vorcaro. Em declarações públicas anteriores, o ministro negara ter voado em aeronaves associadas ao ex-banqueiro.
Tentativa de novo acordo pago com jatos
A partir de maio de 2025, surgem rascunhos de um segundo contrato de R$ 50 milhões entre o Master e o escritório de Viviane. A proposta destinava R$ 40 milhões em cotas de um jato executivo e de um helicóptero, além de R$ 10 milhões para despesas futuras. A banca afirma que recusou a ideia e nenhuma assinatura foi formalizada.
Escalada de tensão pré-prisão
19 de março de 2025: “dar um aperto”
Em conversa com o ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, Vorcaro menciona estar ao lado de Moraes e diz que o ministro “vai chamar o Paulo para dar um aperto”, sem especificar o alvo da pressão.
15 de novembro de 2025: “devo sair do país?”
Dois dias antes de ser detido, Vorcaro indaga supostamente Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Ele tenta também marcar novo encontro, informando estar em voo e disposto a encontrar o ministro após pouso.
17 de novembro de 2025: captura em Guarulhos
Às 17h26, já com ordem de prisão expedida, Vorcaro escreve: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Horas depois, é preso no Aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar para Malta num jato privado – o mesmo modelo que havia sido oferecido em troca de honorários.
Os registros recuperaram apenas as mensagens enviadas por Vorcaro. De Moraes, segundo a PF, não há resposta visível; ele usaria imagens de texto em visualização única para preservar sigilo.
O que dizem os envolvidos
- Alexandre de Moraes – Sustenta que nunca atuou em processos ligados ao Banco Master, que não participou de gestão contratual da esposa e que as viagens em jatos foram contratadas como táxi aéreo.
- Viviane Barci de Moraes – Declara que o escritório executou todos os serviços e que as propostas envolvendo cotas de aeronaves jamais foram aceitas.
- Daniel Vorcaro – Desde a prisão, não se pronunciou publicamente sobre o teor das mensagens. Seus advogados alegam perseguição e excesso na investigação.
- Fábio Faria – Confirma ter aproximado as partes em compromissos sociais, mas diz não conhecer detalhes de contratos ou tratativas financeiras.
Apesar das negativas, investigadores veem indícios de que a relação extrapolou o âmbito social e comercial, aproximando um ministro da mais alta Corte do país de um banqueiro que, meses depois, seria acusado de crimes financeiros. O STF ainda estuda se abrirá apuração interna sobre o caso.
