O partido governista Rússia Unida, base de sustentação do presidente Vladimir Putin, desponta como vencedor das eleições para a Duma Estatal ao registrar 57,5% dos votos nas primeiras urnas apuradas, informou a Comissão Eleitoral Central após contabilizar 14% das cédulas. Já a pesquisa de boca de urna do Centro de Pesquisa da Opinião Pública da Rússia (Vciom) atribui 49,4% ao bloco governista, bem à frente dos comunistas (14,2%) e dos ultranacionalistas do LDPR (10,7%).
Tratado pelo Kremlin como referendo sobre a ofensiva militar contra a Ucrânia, o pleito ocorreu no fim de semana sob denúncias de que candidatos contrários à guerra foram barrados e em meio a uma série de ataques de drones, explosões em refinaria de petróleo e tentativas de invasão cibernética ao sistema de votação.
Resultados iniciais confirmam hegemonia do Kremlin
Os números preliminares divulgados em Moscou indicam que a legenda governista caminha para manter a ampla maioria obtida no pleito anterior. O resultado da boca de urna, elaborado pelo estatal Vciom, não considera votos eletrônicos nem as cédulas de militares nos territórios ocupados, motivo pelo qual o diretor do instituto, Valeri Fedorov, prevê um desempenho ainda maior para o partido de Putin quando a contagem total for divulgada.
Dmitri Medvedev, ex-presidente russo e atual líder formal da Rússia Unida, celebrou o que chamou de “desempenho admirável” e prometeu implementar “as decisões do presidente”. Internamente, a vitória fortalece o projeto de permanência de Putin no poder e confirma o controle do Executivo sobre o Legislativo.
Questionamentos sobre legitimidade
Críticos rotularam a votação como “pseudoeleição”, alegando que concorrentes com posição contrária à guerra ou ao presidente foram impedidos de se registrar, além de denúncias de intimidação e falta de observadores independentes. Todos os demais partidos que superaram a cláusula de barreira na pesquisa — Partido Comunista, LDPR e Rússia Justa — apoiam oficialmente a campanha militar na Ucrânia e não oferecem oposição sistêmica ao governo.
O processo marca a primeira ida às urnas nacionais desde a invasão da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022. Analistas veem o resultado como termômetro do humor popular diante do prolongamento do conflito, das sanções ocidentais e da mobilização parcial que convocou milhares de reservistas.
Voto nos territórios ocupados
A eleição também foi organizada em áreas ucranianas sob controle russo, como Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson. A presença de seções eleitorais nesses locais foi denunciada por Kiev como tentativa de legitimar anexações contestadas pela ONU e não reconhecidas pela maior parte da comunidade internacional.
Guerra ecoa nas urnas
O clima bélico saiu das telas de TV para as proximidades das cabines de votação. Logo na madrugada de domingo, Moscou sofreu o que o prefeito Serguei Sobianin descreveu como “o maior ataque de drones já registrado” contra a capital. Três pessoas morreram na região metropolitana, enquanto duas vítimas foram confirmadas na província de Kherson — uma delas funcionário de uma comissão eleitoral.
Segundo Sobianin, cerca de 1.600 drones teriam sido lançados pela Ucrânia numa ofensiva que pretendia sabotar o processo eleitoral. Embora grande parte dos artefatos tenha sido abatida pela defesa antiaérea, destroços provocaram incêndio em uma refinaria de petróleo nos arredores da cidade, aumentando a pressão sobre o comando militar russo.

Imagem: Internet
Resposta de Moscou
O Ministério da Defesa prometeu retaliar com “ataques de alta precisão” contra alvos em Kiev e em outras áreas controladas pelo governo do presidente Volodimir Zelenski. A nota oficial não estipulou prazos nem detalhou quais instalações seriam visadas, mas advertiu que a intensidade dos bombardeios será ampliada.
Zelenski — que negou ter como objetivo interferir no pleito russo — comemorou publicamente o impacto das investidas. Nas redes sociais, afirmou que “uma das principais instalações da indústria petrolífera russa” e “uma estrutura logística do agressor” foram atingidas, retirando “bilhões de dólares que sustentam a máquina de guerra” de Putin.
Ataques cibernéticos complicam votação eletrônica
Além das explosões, a Comissão Eleitoral Central reportou ofensivas de hackers contra servidores de votação on-line e linhas de comunicação oficiais. A presidente do órgão, Ella Pamfilova, atribuiu as tentativas de invasão a “grupos altamente profissionais que utilizam ferramentas de inteligência artificial”, sem apresentar provas nem apontar responsáveis.
Embora tenha garantido que os sistemas permaneceram estáveis, Pamfilova admitiu lentidão momentânea na autenticação de usuários e recepção de votos digitais. O episódio reforça preocupações de especialistas quanto à transparência do sufrágio eletrônico russo, implementado de forma acelerada durante a pandemia e agora ampliado para regiões em conflito.
O que vem a seguir
A contagem prossegue nas próximas horas e o resultado final deve ser proclamado ainda esta semana. Caso se confirme o desempenho indicado pelos primeiros números, a Rússia Unida manterá a supermaioria necessária para alterar leis federais sem necessidade de alianças. Na prática, o Parlamento seguirá alinhado ao Executivo, facilitando a aprovação de novos pacotes de gastos militares, mudanças no serviço obrigatório e restrições a opositores.
Na arena internacional, a votação — somada à escalada de ataques aéreos — tende a aumentar o isolamento de Moscou e a dificultar qualquer perspectiva de negociação de paz no curto prazo. Com o conflito se aproximando de seu terceiro ano, o Kremlin celebra nas urnas a continuidade de sua estratégia, enquanto a Ucrânia aposta em levar a guerra ao coração do território russo para minar o moral dos eleitores e dos soldados.
