Áudios da operação Vectura Corrupta citam Milton Leite como possível ponte do PCC no transporte paulistano

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    Mensagens de voz recuperadas pelo Ministério Público de São Paulo durante a operação Vectura Corrupta sugerem que o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil), teria sido procurado por integrantes do Primeiro Comando da Capital para destravar interesses do grupo no sistema de transporte coletivo da capital. Os áudios fizeram a Polícia Civil pedir – e obter – a prisão temporária do ex-vereador, apontado pelos investigadores como possível articulador político de empresas ligadas à facção.

    Ao todo, 16 mandados de prisão foram expedidos nesta terça-feira, segundo o delegado Fabrício Intelizano, da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise). O inquérito, que corre desde 2024, mapeou 12 companhias de ônibus sob suposto domínio direto ou indireto do PCC. Entre elas, a Transwolff, cuja propriedade, de acordo com depoimentos de policiais militares, seria atribuída a Leite.

    O conteúdo dos áudios

    Em uma das gravações, um homem identificado como membro da facção relata a outro investigado ter informado o advogado Milton Milreu de que “seria preciso envolver o Milton Leite” para solucionar pendências no segmento. Noutra conversa, o mesmo interlocutor mostra preocupação em “dar ciência” ao ex-vereador sobre problemas que atingiam a UpBus, operadora de linhas na zona sul da capital.

    Para promotores, o diálogo pode se referir à substituição da UpBus pela Translíder, movimento observado na mesma região e que, segundo o MP, teria sido orquestrado para colocar outra empresa sob influência do grupo criminoso. As conversas reforçam a hipótese de que Leite atuaria como ponte política, facilitando decisões dentro da SPTrans, responsável pela gestão do sistema na cidade.

    Ligação com a Transwolff

    A suspeita de que o ex-vereador tenha participação societária na Transwolff ganhou peso com depoimentos de PMs que atuam em bases comunitárias de bairro. Eles afirmaram aos investigadores que o “verdadeiro dono” da viação seria Leite. A Transwolff opera linhas em bairros onde o PCC mantém forte presença e, desde 2023, está no centro de várias apurações sobre superfaturamento e má prestação de serviço.

    Operação Vectura Corrupta

    Deflagrada nas primeiras horas da manhã, a operação empenhou equipes do Garra, Dise e do Ministério Público para cumprir mandados na capital, Grande São Paulo e interior. Foram apreendidos celulares, computadores e documentos contábeis. “Identificamos infiltração do crime organizado em 12 empresas de transporte público”, afirmou Intelizano. De acordo com ele, os contratos somam centenas de milhões de reais anuais, valor que sustentaria tanto a estrutura legal das companhias quanto atividades ilícitas.

    Os investigadores rastrearam conversas de WhatsApp e áudios armazenados em nuvem recuperados de aparelhos apreendidos em fases anteriores do inquérito. A análise pericial passou a ligar nomes do alto escalão da política municipal a operadores do PCC responsáveis por recolher propina de permissionários. Parte do material mostra troca de informações sobre pagamento de “taxas de segurança” a faccionados em garagens e pontos-finais.

    Esquema de influência

    • PCC controla garagens e frotas em regiões periféricas, garantindo domínio territorial.
    • Empresas formalmente registradas em nomes de laranjas recebem subsídios públicos.
    • Interlocutores políticos atuariam para aprovar aditivos contratuais na SPTrans.
    • Advogados ligados ao grupo mediam disputas comerciais entre viações.

    Segundo o MP, o controle das empresas garante não apenas receita legal – por meio de repasses do município e da bilhetagem eletrônica – mas também logística para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

    Defesa de Milton Leite

    Procurado, o ex-vereador qualificou as acusações como “descabidas” e negou qualquer sociedade em empresas de ônibus. Ele afirma ter atuado como interlocutor da gestão Bruno Covas durante a greve de motoristas em 2019, “a pedido do então prefeito”, sem receber vantagem. “Não sou foragido nem devo nada. Estou no interior cumprindo agenda familiar e me apresentarei ainda hoje”, declarou por telefone.

    Leite também contestou ligação com a Transwolff e disse que jamais manteve contato com dirigentes da empresa. A defesa estuda pedir revogação imediata da prisão temporária ou sua conversão em medidas cautelares menos gravosas.

    Próximos passos do processo

    1. Interrogatório dos 16 alvos da operação, inclusive Leite, assim que se apresentarem.
    2. Perícia contábil em documentos apreendidos nas garagens e nos escritórios de advocacia.
    3. Quebra de sigilo bancário das 12 empresas suspeitas para rastrear pagamentos.
    4. Pedido de compartilhamento de provas com a SPTrans e o Tribunal de Contas do Município.

    Contexto político

    Milton Leite, 56 anos, presidiu a Câmara Municipal por três mandatos e é considerado um dos caciques do União Brasil na capital. Em 2022 decidiu não concorrer à reeleição e passou a dedicar-se à carreira política dos filhos: Milton Leite Filho, deputado estadual, e Alexandre Leite, deputado federal. A eventual prisão do ex-vereador abre crise na legenda às vésperas das convenções que vão definir candidaturas para a Prefeitura de São Paulo em 2026.

    Nos bastidores, aliados temem que o caso respingue em alianças articuladas por Leite junto ao atual prefeito Ricardo Nunes (MDB), que busca ampliar o tempo de TV na corrida pela reeleição. Dirigentes do União Brasil ainda avaliam se vão manter o ex-vereador na presidência municipal da sigla.

    PCC e o transporte coletivo

    O uso de empresas de ônibus para lavar dinheiro não é inédito na história recente da facção. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) já apontavam movimentações atípicas de cooperativas de transporte na zona leste em 2018. A Vectura Corrupta difere, contudo, por atingir concessionárias de grande porte e por envolver diretamente agentes públicos com mandato eletivo.

    Especialistas em crime organizado veem na estrutura de transporte uma “porta de entrada” para legitimar recursos. Com subsídios, bilhetagem centralizada e baixa fiscalização contábil, o segmento permitiria ao PCC misturar dinheiro ilícito às receitas formais, dificultando rastreamento. A expansão para companhias com contratos milionários amplia o alcance financeiro da organização, que já domina o tráfico de drogas em 22 estados, conforme dados do Ministério da Justiça.

    Reflexos no serviço

    Além do aspecto criminal, a investigação levanta dúvidas sobre a qualidade do transporte oferecido à população. Reclamações de usuários da Transwolff e da UpBus foram registradas em audiências públicas da Câmara entre 2022 e 2024, com queixas de frota sucateada, atrasos e acidentes. Se confirmada a captura das operadoras pelo crime organizado, contratos podem ser rescindidos, o que obrigaria a prefeitura a redistribuir linhas de milhares de passageiros diários.

    O prefeito Ricardo Nunes determinou à SPTrans abertura de procedimento interno para verificar possíveis irregularidades. A Secretaria Municipal de Mobilidade encaminhou nota afirmando colaborar com o MP e garantindo que “qualquer empresa condenada por envolvimento com organizações criminosas será descredenciada”.

    Próxima fase da investigação

    Nas próximas semanas, o MP deve formalizar denúncia contra os investigados ou pedir mais 30 dias de prazo para concluir diligências. Caso a participação de Milton Leite seja confirmada, ele poderá responder por organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro, crimes que podem somar até 35 anos de prisão.

    A defesa, por sua vez, aposta em pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça, sustentando que os áudios não provam atuação direta do ex-vereador nem posse de empresas. A estratégia inclui anexar documentos contábeis da Transwolff para demonstrar quadro societário sem ligação com a família Leite.

    Enquanto o embate jurídico se arma, a operação Vectura Corrupta recoloca a relação entre poder público e transporte coletivo no centro do debate sobre segurança e transparência na capital paulista.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.