A Suécia amanheceu com mudança de rumos políticos. Derrotado por uma margem mínima de cadeiras no Parlamento, o primeiro-ministro Ulf Kristersson entregou o cargo e abriu caminho para que a social-democrata Magdalena Andersson, líder da oposição, tente montar um novo governo de centro-esquerda.
A contagem oficial divulgada nesta quinta-feira (17) confirmou 176 assentos para a coalizão progressista contra 173 para o bloco conservador que sustentava Kristersson. Bastaram cerca de 50 mil votos de diferença em um universo nacional de eleitores para alterar a equação de poder no Riksdag, composto por 349 cadeiras.
Placar apertado redefine correlação de forças
Todos os votos da eleição realizada no domingo (13) foram apurados, restando apenas a certificação formal nos próximos dias. O resultado inverte a vantagem obtida pela direita em 2022 e devolve a iniciativa aos partidos de centro-esquerda, comandados pelos social-democratas de Andersson.
O revés também encerra um período de governo curto para Kristersson, que assumiu em 2022 com discurso duro contra a criminalidade e promessa de leis migratórias mais rígidas. A estratégia, eficaz há quatro anos, não galvanizou o mesmo apoio nesta disputa, avalia a cientista política Annika Freden, da Universidade de Lund. Segundo ela, o tema da imigração deixou de ser o principal motor do voto e os Democratas da Suécia (SD), legenda de extrema direita, não conseguiram diversificar sua agenda.
Kristersson oficializa saída
O ainda primeiro-ministro comunicou a decisão em carta protocolada ao presidente do Parlamento e reproduzida na rede X. “Solicito ser dispensado do cargo para que o processo de formação de um novo governo possa começar imediatamente”, escreveu. Ao apresentar o pedido, ele reconheceu que o bloco adversário conquistou maioria e colocou o futuro político nas mãos do speaker, responsável por indicar quem tentará compor a próxima administração.
Com a renúncia, Kristersson permanece apenas como líder interino até que o Legislativo escolha seu sucessor. A votação para confirmar o próximo chefe de governo não acontecerá antes de 29 de setembro, prazo mínimo regimentado. Para efeito de comparação, a Suécia levou 37 dias para formar gabinete em 2022 e chegou a ficar 134 dias sem coalizão depois da eleição de 2018.
Direita perde apoio mas mantém trunfos
- Conservadores somaram 173 cadeiras, três a menos que os rivais.
- Maioria simples no Riksdag exige 175 lugares; qualquer deserção interna pode recolocar a direita no jogo.
- Se Andersson falhar, Kristersson ou outro nome do bloco poderá ganhar nova chance de costura política.
Andersson tenta voltar ao poder
Primeira mulher a governar a Suécia (2021-2022) e ministra das Finanças por sete anos, Magdalena Andersson, 59, recuperou protagonismo após quatro anos na oposição. Em vídeo publicado nas redes, declarou que o eleitorado “escolheu coesão e não divisão” e prometeu “fazer a Suécia avançar”.
A líder social-democrata pretende apresentar programa baseado em maior investimento público. As diretrizes incluem aumento de impostos sobre bancos e sobre rendas mais altas para financiar saúde e educação, além de auxílio extra a famílias de baixa renda. O desenho exato das medidas, entretanto, dependerá das concessões que ela terá de fazer a eventuais parceiros.
Desafios de composição
O caminho de Andersson passa por acomodar interesses divergentes dentro de um arco que soma:
- Partido Social-Democrata (principal força da aliança);
- Partido de Esquerda, favorável a presença no gabinete;
- Partido Verde, aliado cativo mas numericamente pequeno;
- Partido de Centro, legenda liberal que rejeita conceder ministérios aos esquerdistas.
Conciliar Centro e Esquerda é a equação mais delicada. Caso não encontre formato aceitável para ambos, Andersson pode chegar ao poder com governo minoritário que negocie apoio caso a caso, prática comum no parlamentarismo sueco. O risco, porém, é ficar exposta a moções de desconfiança.

Imagem: Internet
Extrema direita experimenta primeiro recuo
O resultado trouxe surpresa ao registro do partido Democratas da Suécia. Depois de 16 anos de crescimento contínuo no Parlamento, a legenda anti-imigração perdeu terreno pela primeira vez. Em outras nações europeias, siglas semelhantes avançaram; em Estocolmo, a tendência se inverteu.
Analistas apontam dois fatores: a diluição do tema migratório, adotado por quase todo o espectro político, e a falta de propostas robustas na economia. “Os SD apostaram que identidade nacional continuaria sendo ponto central, mas o eleitor está mais preocupado com custo de vida e investimentos sociais”, resume Annika Freden.
Agenda que marcou a campanha
Bloco conservador
- Punições mais duras para crimes violentos;
- Endurecimento das regras de asilo e reunificação familiar;
- Corte de impostos para setores estratégicos.
Bloco de centro-esquerda
- Aumento de tributos sobre bancos e altas rendas;
- Destinação de verbas adicionais a hospitais e escolas;
- Programa de suporte financeiro direto a famílias vulneráveis.
A divergência programática deve nortear as negociações pelas próximas semanas. Enquanto isso, a responsabilidade de formular um nome para o trono sueco recai sobre o presidente do Riksdag. Ele deverá, primeiro, sondar Andersson; se a social-democrata demonstrar capacidade de reunir 175 votos ou mais — ou ao menos evitar que 175 deputados votem contra seu nome — será indicada ao plenário.
Próximos passos no Riksdag
1. Consultas formais: o presidente do Parlamento ouve líderes partidários em ordem de tamanho. O objetivo é identificar quem tem maiores chances de conseguir maioria.
2. Votação nominal: o candidato apresentado enfrenta pleito aberto. Para ser reprovado, precisa de 175 “nãos”. Ou seja, abstenções contam a favor.
3. Quatro tentativas: se quatro rodadas falharem, novas eleições são convocadas automaticamente, cenário pouco provável mas não descartado diante do equilíbrio de forças.
Em meio à incerteza, Ulf Kristersson assume função de gestor cotidiano, aprovando apenas atos urgentes. Já Andersson se dedica a costurar acordos — seja de coalizão formal, seja de tolerância parlamentar — que afastem fantasma de nova eleição e consolidem o retorno da centro-esquerda ao poder.
