João Gomes arrasta cortejo com frevo, maracatu e bonecos de Olinda no meio do Rock in Rio

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    Uma hora antes de assumir o palco Sunset, João Gomes transformou parte do Rock in Rio num recorte vivo do carnaval de Pernambuco. O cantor trocou o tradicional aquecimento nos bastidores por um cortejo que mesclou maracatu, frevo, bonecos gigantes de Olinda e artistas em pernas de pau, rompendo a rotina do Parque Olímpico na noite de sábado (13).

    A procissão cultural atravessou estandes iluminados, pegou de surpresa quem circulava pelo festival e chegou a ofuscar, por instantes, o som que vinha do palco Mundo, onde J Balvin ainda se apresentava. Entre estandartes, tambores e sopros, o público reagia entre o espanto e a celebração, sacando celulares para registrar a cena que levou a cultura popular nordestina ao coração do megafestival carioca.

    Cortejo invade o Parque Olímpico e muda o clima do festival

    O desfile começou por volta das 19h, partindo de uma das entradas do Rock in Rio. À frente, estandartes exibiam o nome de João Gomes e de agremiações convidadas, como o bloco Galo da Madrugada e o grupo percussivo Rio Maracatu. Sem a estrutura de 16 metros do Galo, prometida mas barrada pela logística do evento, a produção improvisou com “galinhos” menores que abriram alas para a batucada.

    Maracatu marca o passo com figuras do cangaço

    O primeiro som que se impôs sobre o burburinho dos visitantes foi o dos tambores de maracatu. Integrantes em pernas de pau, caracterizados como personagens do cangaço e outras figuras nordestinas, mantinham o ritmo enquanto serpenteavam entre as filas para brinquedos e as tendas de patrocinadores. Ainda sem qualquer amplificação, os graves do alfaia vibravam o chão e anunciavam que algo fora do script habitual do festival se aproximava.

    Bonecos gigantes homenageiam ícones pernambucanos

    Logo atrás surgiram os bonecos de Olinda, uma das marcas registradas do carnaval do estado. Três figuras se destacavam: Luiz Gonzaga, eterno “Rei do Baião”; Chico Science, símbolo do manguebeat; e o próprio João Gomes em versão de quatro metros de altura. O clássico boneco do Homem da Meia Noite, responsável por abrir oficialmente o carnaval de Olinda, desfilou carregando a chave que tradicionalmente entrega ao bloco Cariri, reforçando a atmosfera de festa de rua.

    Frevo de maestro Oséas faz o público dançar

    Quando os bonecos já chamavam a atenção de quem passava, foi a vez do frevo ganhar a cena. Sob regência do maestro Oséas, a orquestra itinerante atacou com “Tropicana”, de Alceu Valença, passou por “Ceroula”, de Almir Rouche, e emendou baiões de Luiz Gonzaga e Zé Dantas — caso de “Riacho do Navio” — todos vertidos ao compasso frenético do ritmo pernambucano. A plateia gritava “frevo!” entre uma música e outra, criando um coro espontâneo que ecoava entre as torres de som do festival.

    Da surpresa à celebração coletiva

    Quem estava sentado em calçadas, descansando entre shows, levantou às pressas para abrir caminho. Muitos apenas observavam, tentando entender como um pedacinho do carnaval do Nordeste surgira ali; outros se juntavam ao cortejo, dançando ou registrando cada passo nos celulares. A ausência de amplificação não foi obstáculo: perto da multidão que acompanhava a procissão, os sopros e tambores se sobrepunham aos decibéis de J Balvin, deixando o reggaeton em segundo plano naquele trecho do parque.

    À medida que avançava, o séquito colorido fazia o festival parecer duas cidades na mesma noite: de um lado, o palco Mundo com luzes, lasers e hits globais; do outro, um carnaval de rua de raízes centenárias. A fusão das experiências só aumentou a curiosidade do público, que passou a seguir o “mini Galo” e os bonecos até as proximidades do palco Sunset.

    João Gomes arrasta cortejo com frevo, maracatu e bonecos de Olinda no meio do Rock in Rio - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Chegada ao Sunset e cacofonia involuntária

    O momento de transição aconteceu ao som do “Hino do Galo”. Já diante do Sunset, a produção conectou os instrumentos à estrutura de som do palco, fazendo o frevo ganhar potência de show. Lá no fundo, J Balvin ainda finalizava seu set, o que gerou uma sobreposição curiosa entre arranjos de sopros nordestinos e batidas de reggaeton vindas de outra direção.

    O cortejo se estendeu por cerca de uma hora, encerrando-se poucos minutos antes de João Gomes assumir os microfones para o show oficial, marcado para 20h10. A ideia, segundo integrantes da equipe do cantor, era “aquecer” o público e levá-lo ao palco já em clima de festa — objetivo cumprido à risca, a julgar pela animação que tomou conta da plateia antes mesmo da primeira canção do repertório principal.

    Entre tradição e pop: o recado de João Gomes

    Sem discursos formais, o próprio desfile já funcionou como pronunciamento estético. Ao misturar referências como o cangaço, o frevo de rua, o maracatu nação e os bonecos de Olinda, João Gomes sinalizou a intenção de inserir o forró e a cultura popular do Nordeste em um dos maiores palcos da música internacional no país. O público, surpreendido, respondeu com adesão imediata, transformando o “aquecimento” num momento memorável da edição.

    Quando as luzes do Sunset se acenderam para o show, o clima de carnaval instaurado pelo cortejo se manteve. Embora o festival costume abraçar parcerias e encontros inusitados, raras vezes a experiência de rua e o espírito comunitário de um bloco pernambucano haviam invadido o espaço oficial de forma tão explícita. Nesse sentido, a hora pré-show de João Gomes já garantiu ao artista um feito singular antes mesmo de tocar a primeira nota de seu set.

    No fim da noite, quem participou do percurso saiu com a sensação de ter vivido uma “matinê” carnavalesca dentro do Rock in Rio — um lembrete de que, mesmo em um evento dominado por grandes estruturas de som, telões e efeitos, a força de uma tradição popular pode tomar o centro da cena apoiada apenas em percussão, sopro e entusiasmo coletivo.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.