PF aponta Cláudio Castro como dono de fato de mansão onde planejou adega de R$ 245 mil

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    Mensagens extraídas do celular de Cláudio Castro pela Polícia Federal revelam que o ex-governador do Rio de Janeiro coordenou pessoalmente a construção de uma adega orçada em R$ 245 mil numa mansão em Petrópolis, Região Serrana fluminense. Nos diálogos, Castro discute detalhes de obra, cobra cronogramas e fala em “minha obra”, comportamento que, segundo relatório da PF, demonstra posse de fato do imóvel, embora a casa esteja registrada em nome do empresário Luiz Fernando Gomes.

    A residência, avaliada em R$ 2,4 milhões e situada em condomínio de luxo com heliponto, já vinha sendo utilizada por Castro, conforme revelado em julho. Agora, a análise policial sugere que a relação ia além do usufruto: o então governador tratava de reparos diários, combinava a preparação do imóvel para receber visitas e definia intervenções estruturais, postura que, no entender dos investigadores, é típica de quem tem controle pleno sobre a propriedade.

    Conversas detalham negociação e custo da adega

    Nos arquivos apreendidos durante a Operação Sem Refino, deflagrada pela PF, aparecem trocas de mensagens em que Castro acerta prazos com fornecedores, solicita materiais específicos e aprova orçamento de R$ 245 mil para erguer a adega. Em certo momento, ele orienta que a obra seja concluída antes de uma recepção agendada na serra: “preciso da minha obra pronta para o fim de semana”, registra um trecho transcrito no relatório.

    A investigação assinala que o político não se limitava a pedir informações; ele comandava a execução. Para os investigadores, esse protagonismo evidencia que Castro “exercia poderes típicos de quem detém a posse e o controle fático do imóvel”, apesar de o registro em cartório apontar outro titular. O documento de propriedade está em nome de Luiz Fernando Gomes, empresário da construção civil que mantém mais de 20 empresas ativas no estado.

    Empresário viu faturamento crescer 17.660% após Castro assumir

    Luiz Fernando Gomes é sócio da Enge Prat, companhia que passou a multiplicar contratos com o governo fluminense depois que Castro tomou posse no Palácio Guanabara. Antes de 2018, a empresa tinha dois acordos com o Executivo, somando R$ 1,9 milhão. A partir de 2022, já com Castro no comando do estado, firmou mais 11 contratos que totalizam R$ 355,2 milhões, dos quais R$ 49,6 milhões foram ajustados sem licitação, de acordo com dados públicos citados pela PF.

    O salto representa incremento de 17.660% no faturamento da construtora junto à administração estadual. Os policiais não detalham, no relatório, se há relação direta entre a cessão do imóvel a Castro e a expansão dos negócios, mas apontam a coincidência como “indicador relevante” a ser aprofundado. Ainda segundo a corporação, outras empresas ligadas a Gomes também celebraram contratos vultosos no mesmo período.

    Casa de luxo em condomínio com heliponto

    Localizada no Villa Locanda Residenze, a mansão faz parte de um conjunto de imóveis de alto padrão cercados por mata atlântica e monitorados por segurança 24 horas. O condomínio mantém heliponto para moradores e visitantes, além de acesso rápido a um badalado polo gastronômico de Petrópolis. Imagens anexadas ao inquérito mostram piscina aquecida, área gourmet e quatro suítes distribuídas em 700 m² de área construída.

    Apesar de não constar como proprietário, Castro tratava o local como extensão de sua residência oficial. As conversas registram, por exemplo, solicitações de pequenos consertos em portas e fechaduras, troca de lustres e organização de hospedagem para convidados. Em outro trecho, ele discute a instalação de sistema de climatização específico para a adega, a fim de preservar vinhos de sua coleção particular.

    Obra de R$ 245 mil foi calculada em detalhes

    O orçamento da adega inclui revestimento em madeira nobre, climatização independente e iluminação projetada. Planilhas localizadas nos arquivos do celular atribuem R$ 110 mil a materiais, R$ 80 mil a mão de obra especializada e R$ 55 mil a equipamentos de refrigeração e acabamento. Os pagamentos seriam feitos em quatro parcelas, cronograma que Castro acompanha diariamente nas mensagens.

    Numa das conversas, o ex-governador reclama do atraso na entrega de prateleiras importadas: “Pedi isso há duas semanas, não podemos empurrar mais”. Outro interlocutor responde que aguardava liberação no porto. Para a PF, o tom ilustraria o “caráter diretivo” exercido por Castro sobre as intervenções na mansão.

    Repercussão política e próximos passos

    O relatório da Operação Sem Refino foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que deve avaliar possível abertura de investigação específica sobre favorecimento em contratos públicos. Procurada, a defesa de Cláudio Castro não se manifestou até a conclusão desta edição. O empresário Luiz Fernando Gomes tampouco respondeu aos questionamentos encaminhados.

    PF aponta Cláudio Castro como dono de fato de mansão onde planejou adega de R$ 245 mil - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    No plano político, aliados do ex-governador consideram inevitável o desgaste, já que ele deixou o cargo tentando se projetar nacionalmente. Integrantes da oposição na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro articulam convocar Gomes e ex-assessores de Castro para esclarecer a relação entre a mansão, as obras custeadas e os contratos bilionários da Enge Prat.

    Operação Sem Refino: origem do inquérito

    Lançada para apurar possíveis irregularidades em licitações de obras públicas, a Operação Sem Refino cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a empresários e agentes públicos em todo o estado. Foi nessa fase que celulares e documentos de Cláudio Castro foram recolhidos. O material estava sob sigilo, mas trechos vieram a público depois de juntados a pedidos de quebra de sigilo bancário.

    Os investigadores mapeiam agora se os recursos aplicados na reforma da mansão saíram de alguma das empresas contratadas pelo governo ou se houve pagamento indireto por meio de prestadores de serviço. A PF não descarta convocar os arquitetos responsáveis pelo projeto da adega para obter notas fiscais e comprovantes de transferência.

    Patrimônio em xeque

    Embora o valor da adega represente pouco mais de 10% do preço estimado da casa, a PF considera o gasto relevante para analisar eventual evolução patrimonial incompatível de Castro, que já responde a questionamentos no Tribunal Regional Eleitoral sobre doações de campanha. Caso fique provado que a obra foi custeada por terceiro em troca de favorecimento, o ex-governador poderá ser enquadrado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

    Até o momento, não há pedido de prisão preventiva nem afastamento de direitos políticos. A expectativa nos bastidores judiciais é de que novas diligências sejam autorizadas nas próximas semanas, inclusive oitivas de servidores que acompanharam a assinatura dos contratos com a Enge Prat.

    Cenário de incertezas

    Enquanto aguarda o desenrolar das investigações, Cláudio Castro tenta preservar capital político mirando a eleição municipal de 2024, quando pretende lançar aliados nas principais cidades fluminenses. O episódio da adega, porém, recoloca em destaque suspeitas antigas sobre o círculo de empresários beneficiados durante sua gestão. Parlamentares da base do atual governo avaliam que o caso pode respingar em agendas de projetos de concessão e obras ainda em licitação.

    A PF, por sua vez, enfatiza que o relatório entregue ao MPF é parcial e poderá ser ampliado conforme avanço de quebras de sigilo telefônico e bancário. Técnicos do Tribunal de Contas do Estado já foram acionados para cruzar dados de pagamentos e apontar se houve sobrepreço nos contratos assinados pela Enge Prat no período em análise.

    Próximos capítulos

    Se confirmadas as suspeitas de que a mansão serviu de moeda de troca, o ex-governador poderá enfrentar denúncia por improbidade administrativa e responder na esfera penal. O Ministério Público tem prazo inicial de 30 dias para decidir se oferece denúncia ou solicita diligências complementares. Até lá, a adega de R$ 245 mil, que deveria guardar vinhos raros, segue no centro de uma investigação que pode custar caro ao futuro político de Cláudio Castro.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.