O avanço da estiagem no Maranhão já provocou 233 falhas na rede elétrica causadas por fogo em vegetação entre janeiro e junho de 2026, segundo a Equatorial Maranhão. O número, 8,9% maior que o do mesmo período de 2025, ultrapassa dez mil consumidores impactados por quedas de energia e acende o alerta para o risco de apagar completo em comunidades rurais e urbanas.
Embora São Luís concentre o maior volume de ocorrências, foi Imperatriz quem registrou o maior contingente de clientes sem luz: mais de 3 mil desligamentos em apenas seis meses. A concessionária adverte que a tendência é de agravamento entre agosto e outubro, quando o calor, o vento e a vegetação seca formam o cenário perfeito para que chamas “saltam” para cabos e transformadores.
Mapa dos desligamentos e municípios mais críticos
O levantamento da distribuidora revela que a capital maranhense aparece no topo com 58 episódios envolvendo postes e cabos, interrompendo o fornecimento a 2.868 consumidores. Na sequência surgem São José de Ribamar (27 ocorrências, 1.681 clientes afetados), Imperatriz (24, 3.098), Santa Inês (15, 1.078), Timon (9, 1.141) e Pinheiro (6, 1.154).
Ao todo, somadas as interrupções listadas nesses seis municípios, mais de 11 mil unidades consumidoras ficaram às escuras em decorrência direta das queimadas. “O fogo distorce isoladores, derrete conexões e compromete a fibra dos postes”, detalha Gabriel Vieira, executivo de Segurança do Trabalho da Equatorial. “Em questão de minutos, um foco considerado pequeno vira incêndio de grandes proporções.”
Focos de calor colocam estado em 4º lugar no país
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que, de janeiro a agosto, o Maranhão já ultrapassou a marca de 3,5 mil focos de calor detectados por satélite. No ranking nacional, o estado ocupa a quarta posição, atrás apenas de Mato Grosso, Tocantins e Pará. A estatística reforça o potencial de novos problemas na rede de distribuição, já que muitos desses pontos de calor se espalham por áreas com linhas de média e alta tensão.
Como o fogo atinge o sistema de energia
Quando a queima é feita perto dos cabos, o calor extremo dilata condutores de alumínio e aço, que podem arrebentar e cair sobre a vegetação. A fuligem dispersada pelo vento cria um caminho para fuga de corrente e provoca curtos-circuitos. Equipamentos como transformadores e chaves fusíveis também sofrem sobrecarga térmica, desarmando linhas inteiras para evitar dano maior.
O prejuízo vai além do blecaute. Troca de postes quebrados, substituição de cabos e manutenções emergenciais encarecem a operação e acabam sendo repassadas à conta de luz. Em áreas rurais, onde a atividade agropecuária depende de bombas e irrigação, a falta de energia paralisa lavouras e impacta a produção de alimentos.
Consequências ambientais e para a saúde
As chamas não poupam a fauna: animais silvestres morrem carbonizados ou intoxicados pela fumaça. A fuligem reduz a qualidade do ar e agrava doenças respiratórias em crianças, idosos e portadores de enfermidades crônicas. A degradação do solo, por sua vez, expõe nutrientes, acelera processos erosivos e compromete nascentes – problema que retroalimenta a crise hídrica.
Orientações de segurança: o que evitar e o que fazer
- Não use fogo para limpar pastagens, terrenos baldios ou resíduos urbanos, principalmente perto de postes, subestações ou cabos aparentes.
- Jamais descarte bitucas de cigarro ou fósforos acesos em áreas com vegetação seca.
- Substitua a queimada por roçada mecânica e mantenha aceiros — faixas de solo limpo — como barreira contra o avanço das labaredas.
- Ao identificar princípio de incêndio, acione imediatamente o Corpo de Bombeiros (193) e avise a Equatorial (116) se houver risco à rede elétrica.
Gabriel Vieira destaca que, durante a seca, qualquer fagulha encontra combustível abundante: “A combinação de umidade do ar baixa, plantas desidratadas e vento constante transforma faíscas em labaredas em questão de segundos”.

Imagem: Internet
Campanhas de prevenção: VC+ Seguro e Agosto Vermelho
A distribuidora reforça as recomendações por meio do movimento VC+ Seguro, voltado à conscientização sobre acidentes envolvendo eletricidade. Durante agosto, a iniciativa ganha fôlego com o Agosto Vermelho, ação nacional coordenada pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). O objetivo é intensificar mensagens em rádios, redes sociais, pontos de atendimento e carros de som, alertando moradores de regiões críticas sobre os perigos de atear fogo próximo à rede.
Quando a queimada vira crime
No Maranhão, assim como no restante do país, provocar incêndio em floresta, mata ou qualquer tipo de vegetação é crime ambiental previsto no artigo 41 da Lei de Crimes Ambientais, com pena de até quatro anos de reclusão e multa. A legislação pune também quem, por imprudência ou negligência, deixa o fogo fugir ao controle.
Além das sanções penais, a concessionária pode acionar judicialmente responsáveis identificados, cobrando ressarcimento pelos danos causados aos ativos do sistema elétrico e pelas indenizações pagas a consumidores prejudicados por longos períodos sem luz.
Previsão para os próximos meses
Meteorologistas apontam que o ápice da estiagem no Maranhão ocorrerá entre agosto e outubro, período em que a umidade relativa do ar cai para índices inferiores a 30% em várias regiões. A Equatorial afirma que intensificará rondas aéreas e terrestres, poda de árvores e inspeções com drones para identificar pontos vulneráveis antes que o fogo chegue.
Para Gabriel Vieira, a participação comunitária é decisiva: “Não existe equipe suficiente para monitorar cada poste em um estado do tamanho do Maranhão. Se o morador colaborar, informando qualquer fumaça nas proximidades da rede, conseguimos mobilizar recursos rapidamente e evitar um blecaute prolongado”.
Responsabilidade coletiva
Cortar o ciclo das queimadas exige esforço conjunto de agricultores, prefeituras, órgãos ambientais, usuários de rodovias e concessionária. Casa, lavoura ou indústria dependem da mesma infraestrutura para manter luz, água, comunicação e serviços básicos. Quando um único foco de incêndio derruba um circuito, hospitais entram em contingência, aulas são suspensas e pequenos negócios têm prejuízos imediatos.
Com o alerta lançado, a expectativa da Equatorial é reduzir drasticamente o número de ocorrências no segundo semestre. Para isso, a palavra de ordem é um só recado: fogo e rede elétrica não combinam — a escolha por não queimar hoje pode evitar o apagão de amanhã.
