Silas Santos Fontoura, 40 anos, foi capturado na tarde de terça-feira (25) no Centro de São Mateus, Norte do Espírito Santo, menos de quatro dias depois de a polícia encontrar o corpo da companheira, Benedita de Jesus Rodrigues, 59, ocultado dentro de uma geladeira em Montanha, cidade vizinha. O crime, investigado como feminicídio, chocou a região pelo modus operandi: a vítima estava sentada, embalada em saco plástico preto e já em avançado estado de decomposição.
Além de ser o principal suspeito do assassinato, Silas tinha mandado de prisão preventiva pendente por outro homicídio cometido na Bahia. A detenção foi feita por equipes da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Mulher (DHPM) com apoio da Polícia Militar, após monitoramento de endereços em que o investigado poderia estar escondido.
Como a polícia localizou o suspeito
Segundo a Polícia Civil, a investigação ganhou celeridade ainda na madrugada de sábado (22), logo após a perícia em Montanha confirmar que Benedita fora morta a golpes de arma branca. Testemunhas relataram que o casal morava de aluguel no Centro da cidade havia cerca de um mês e mantinha rotina discreta. A descrição física de Silas, somada ao reconhecimento de vizinhos, ajudou no rastreamento. Ele foi visto embarcando em um ônibus intermunicipal em direção a São Mateus, onde tem conhecidos.
Os agentes verificaram cadastros de hospedagem, câmeras de monitoramento urbano e movimentações bancárias. O cruzamento das informações levou a um imóvel comercial no Centro da cidade, onde Silas foi detido sem oferecer resistência. Com ele foram apreendidos um aparelho celular, roupas com possíveis vestígios de sangue já lavado e documentos que podem confirmar a permanência do casal na residência de Montanha.
Mandado em aberto na Bahia
Ao consultar o banco nacional de mandados, os investigadores confirmaram que o suspeito era procurado pela Justiça baiana por homicídio ocorrido em 2019 em Ibotirama, oeste do estado. À época, Silas desapareceu após matar um desafeto em um bar e teve a prisão preventiva decretada. A ficha criminal, segundo a polícia, reforçou o pedido de nova prisão preventiva pelo feminicídio no Espírito Santo.
A descoberta do crime
O cadáver de Benedita foi encontrado na noite de sexta-feira (21) pelo proprietário do imóvel alugado. Ele relatou que não conseguia contato com a inquilina desde o sábado anterior e que o telefone de Silas estava desligado desde terça-feira (18). Preocupado, arrombou a porta e se deparou com forte odor vindo da cozinha. Ao abrir a geladeira, viu o corpo acondicionado em saco preto, sentado, com sinais de perfurações múltiplas.
O Serviço Médico Legal foi acionado imediatamente. Peritos identificaram lesões compatíveis com facadas no tórax, abdômen e costas. A posição do corpo indicava tentativa de ocultação rápida, provavelmente poucas horas após a morte. A vítima vestia roupa de dormir, evidenciando que o ataque pode ter ocorrido dentro da residência, possivelmente durante a madrugada.
Procedimentos periciais
- Coleta de impressões digitais na porta, geladeira e utensílios de cozinha.
- Recolhimento de faca encontrada em um balde, com possível resquício de sangue.
- Exames de DNA para comparar material genético sob as unhas da vítima.
- Perícia complementar no telefone celular de Silas, em busca de mensagens ameaçadoras.
O corpo foi levado para a Seção Regional de Medicina Legal de Colatina, onde o laudo preliminar apontou morte por choque hipovolêmico provocado pelas perfurações. Após liberação, familiares de Benedita providenciaram o sepultamento em Nanuque, Minas Gerais, cidade natal da vítima.
Dinâmica do relacionamento
Vizinhos informaram à polícia que o casal se conheceu na região de Teixeira de Freitas, sul da Bahia, e se instalou em Montanha há pouco mais de um mês. Apesar de discretos, foram ouvidos relatos de discussões frequentes, sobretudo à noite. Nenhuma denúncia formal constava nos registros da Delegacia de Montanha, o que dificultou ações preventivas.

Imagem: Internet
Para a delegada responsável pelo caso, o histórico de violência doméstica pode vir à tona à medida que novos depoimentos sejam colhidos. “Há indícios de que Benedita sofria agressões físicas e psicológicas, mas temia denunciar. Esse silêncio facilita a escalada de violência que, infelizmente, culminou com a morte”, afirmou.
O que diz a defesa
Até o fechamento desta reportagem, Silas não havia constituído advogado. Em depoimento inicial, permaneceu em silêncio, direito previsto em lei. Quando apresentar versão dos fatos, o conteúdo será anexado ao inquérito.
Próximos passos da investigação
- Concluir o laudo de necropsia definitivo, que detalhará horário exato da morte e tipo de arma utilizada.
- Analisar material biológico recolhido na residência, confrontando com perfil genético do suspeito.
- Ouvir familiares das duas partes para traçar cronologia do casal e verificar eventuais ameaças anteriores.
- Indiciar Silas por feminicídio qualificado, ocultação de cadáver e execução de violência doméstica.
- Remeter inquérito ao Ministério Público, que decidirá sobre a denúncia criminal.
Enquanto aguarda audiência de custódia, Silas permanece recolhido na Penitenciária Regional de São Mateus. Caso a prisão preventiva seja mantida, ele poderá ser transferido para unidade de segurança máxima, visto o histórico de crimes em dois estados.
Impacto regional e rede de apoio
O crime reforçou estatísticas preocupantes: o Espírito Santo figura entre os estados com maior taxa de feminicídios do país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Autoridades municipais de Montanha anunciaram intensificação de campanhas educativas e ampliação do atendimento a mulheres vítimas de violência, em parceria com a Defensoria Pública e o Ministério da Mulher.
Moradores organizaram vigília em frente à residência onde Benedita foi morta, pedindo justiça e políticas de proteção. Organizações civis ofereceram acompanhamento psicológico gratuito à família da vítima e às vizinhas que testemunharam o resgate do corpo.
Como denunciar violência doméstica
Casos de ameaça ou agressão podem ser comunicados pelo Disque 180, central nacional de atendimento à mulher, ou presencialmente nas delegacias especializadas. Denúncias anônimas também podem ser feitas pelo 190 da Polícia Militar ou pelo aplicativo ES na Palma da Mão, que permite envio de fotos, vídeos e localização em tempo real.
A Delegacia de Montanha reforça que todo relato é confidencial e pode salvar vidas. “Ao primeiro sinal de agressão, procure ajuda. Não espere o pior acontecer”, orientou a delegada.
