A participação do candidato Ronaldo Caiado (PSD) na série de entrevistas da Globo com presidenciáveis colocou sob escrutínio três afirmações centrais do ex-governador de Goiás. Segundo a equipe do Fato ou Fake, todas essas declarações — sobre o grau de endividamento das famílias brasileiras, a nova classificação de grupos criminosos na Colômbia e o índice de aprovação de sua gestão em Goiás — foram consideradas verdadeiras.
Os dados confirmados abasteceram o discurso econômico e de segurança pública de Caiado, além de reforçar o capital político do ex-governador no estado que administrou por dois mandatos. A entrevista, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, foi exibida após o “Jornal Nacional” na terça-feira (25) e integra a rodada de conversas com os seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest de 14 de agosto.
Como funciona a sabatina da Globo
Pela primeira vez, as entrevistas com postulantes ao Palácio do Planalto ganharam um espaço exclusivo depois do principal telejornal da emissora, em vez de dentro dele. O sorteio da ordem de participação ocorreu com representantes de todos os partidos convidados. Veja o calendário completo:
- 24/8 – Romeu Zema (Novo)
- 25/8 – Ronaldo Caiado (PSD)
- 26/8 – Renan Santos (Missão)
- 27/8 – Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
- 28/8 – Flávio Bolsonaro (PL)
- 29/8 – Augusto Cury (Avante)
A cada entrevista, repórteres e editores do Fato ou Fake fazem a checagem em tempo real de afirmações consideradas relevantes para o debate público. No caso de Caiado, três pontos chamaram atenção por tratarem de indicadores nacionais, política internacional e desempenho administrativo.
Endividamento recorde das famílias
O candidato declarou que “80% da população está tomada por dívidas”. O fact-checking buscou a série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e encontrou respaldo: em levantamento divulgado em 6 de agosto, a CNC apontou que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2026. Trata-se do maior patamar desde o início da pesquisa, além do sexto recorde consecutivo.
Evolução dos números
Entre junho e julho de 2026, o percentual subiu 0,4 ponto, mantendo a tendência de alta observada nos últimos doze meses — em julho de 2025, o índice era de 78,5%. Para o candidato, o dado exemplifica o que ele chamou de “trabalho que não paga as contas”. Especialistas ouvidos pelo portal G1 — em reportagens anteriores — associam esse avanço à inflação persistente, ao custo do crédito e à retomada ainda lenta do mercado de trabalho formal.
Colômbia amplia o conceito de terrorismo
Outro ponto verificado diz respeito à política de segurança do novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella. Caiado afirmou que o vizinho sul-americano “já declarou traficantes como terroristas”. De fato, no mesmo dia da entrevista, Espriella enviou ao Congresso colombiano um projeto que enquadra guerrilheiros, narcotraficantes e outras organizações armadas como terroristas, abrindo caminho para sanções mais duras.
Implicações regionais
A medida, se aprovada, alterará a legislação colombiana ao estipular critérios formais para a rotulagem de grupos ilegais. O governo promete ainda publicar uma lista oficial de organizações terroristas, estratégia inspirada nos modelos norte-americano e europeu. Para Caiado, essa iniciativa baliza sua defesa de “tolerância zero” com o crime organizado transnacional — tema que costuma ganhar relevo em campanhas presidenciais no Brasil sempre que a fronteira amazônica entra em debate.
Aprovação de 88% em Goiás
Durante a sabatina, o ex-governador mencionou ter alcançado “88% de aprovação” no estado que governou entre 2019 e 2026. A equipe de checagem confirmou dois levantamentos da Quaest, realizados em dezembro de 2024 e agosto de 2025, que registraram exatamente esse índice, ambos com margem de erro de três pontos percentuais e confiança de 95%.

Imagem: Internet
Estabilidade ao longo do mandato
A pesquisa de abril de 2024 e outra de fevereiro de 2025 já indicavam aprovação de 86%, mostrando que o patamar elevado se manteve praticamente estável nos dois últimos anos da gestão. Analistas atribuem o desempenho a uma combinação de ajuste fiscal — que permitiu ao estado retomar a capacidade de investimento — e programas de assistência social que ganharam fôlego na pandemia.
Quem faz a checagem
O Fato ou Fake mobilizou um grupo de repórteres especializados em dados públicos e verificação de discursos. Nesta rodada, participaram Camila Zarur, Carolina Callegari, Clara Gomes Simão, Jorge Fofano, Marcelo Parreira, Mel Trench, Roney Domingos e Vinícius Cassela. O trabalho segue em andamento, pois mais declarações do candidato ainda estão sendo analisadas para confirmação ou correção.
Próximos passos da série
A agenda de entrevistas prossegue até sábado (29). Cada candidato dispõe de aproximadamente 40 minutos diante das câmeras, tempo no qual discute propostas para economia, saúde, educação, meio ambiente e segurança pública. Ao final de cada noite, o Fato ou Fake divulga um boletim consolidando o que é verídico ou não entre as falas registradas. Dessa forma, o público tem acesso a informações checadas antes mesmo do início da propaganda eleitoral gratuita.
Impacto no eleitorado
Embora seja difícil medir de imediato, especialistas em comunicação política avaliam que a combinação de entrevista ao vivo com checagem simultânea ajuda a reduzir a circulação de dados enganosos durante a campanha. A experiência de 2022, quando a Globo promoveu sabatinas semelhantes ao lado de iniciativas independentes de fact-checking, mostrou queda sensível na propagação de boatos sobre temas econômicos, segundo monitoramento do Laboratório de Estudos de Mídia e Democracia da UFRJ.
O que permanece em aberto
Além dos três pontos já confirmados, outras colocações de Caiado — como números sobre redução de criminalidade em Goiás e investimentos em infraestrutura — continuam sob análise. A equipe promete divulgar eventuais retificações em atualizações futuras. Até agora, porém, o ex-governador manteve bom índice de precisão, alinhado com o objetivo de sustentar uma imagem de gestor técnico e eficiente.
Com o acirramento da disputa eleitoral e a polarização de temas como economia e segurança, a checagem em tempo real reafirma seu papel de filtro entre o discurso político e a realidade estatística. Para o eleitor, a confirmação de fatos concretos oferece subsídio à escolha nas urnas; para os candidatos, amplia a responsabilidade sobre cada dado apresentado em rede nacional.
