Globo revisita São Paulo para mapear o eleitor “pendular” que pode decidir 2026

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    Um grupo de eleitores que não se fideliza a partidos nem a candidatos — e que já mudou de escolha nas duas últimas disputas presidenciais — soma 32% do total de votantes no país, segundo a consultoria Quaest. De olho nesse contingente capaz de alterar o resultado nas urnas, o Jornal da Globo deu início à série especial “Voto Pendular”, que estreia percorrendo a cidade de São Paulo em busca das histórias, das angústias e das expectativas desses brasileiros.

    Ao lado da jornalista Renata Lo Prete, o diretor da Quaest e professor da FGV, Felipe Nunes, conversa com trabalhadores autônomos da capital paulista — entregadores por aplicativo, profissionais da beleza e empreendedores de inovação — para entender como enxergam trabalho, Estado, serviços públicos e democracia. O roteiro pela maior metrópole do país lança as primeiras pistas sobre o comportamento político que poderá influenciar as eleições de 2026.

    Uma fatia decisiva do eleitorado

    O que diz a pesquisa Quaest

    Levantamento recente da Quaest detectou que quase um terço dos brasileiros alternou o voto entre 2018 e 2022. Eles não se veem representados por legendas fixas e transitam de um nome a outro conforme o momento econômico, a agenda pública e a identificação pessoal. No pleito passado, essa movimentação foi crucial: a diferença nacional em favor de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno — pouco mais de dois milhões de votos — contou com expressiva contribuição da capital paulista, que deu ao petista cerca de meio milhão de votos a mais que a Jair Bolsonaro.

    Por que começar por São Paulo

    A capital é considerada o coração do voto volátil. Históricos eleitorais mostram que o município já garantiu vitórias a siglas de direita, centro e esquerda em diferentes eleições, ao contrário do interior do estado, bem mais estável. Além disso, São Paulo concentra grande número de trabalhadores autônomos: gente que, fora do regime CLT, improvisa soluções de renda e lida diretamente com as falhas — e ausências — do Estado.

    Autonomia como valor: o retrato dos entregadores

    Liberdade versus proteção social

    A prefeitura calcula em 350 mil o número de motociclistas que fazem entregas na cidade. Nos depoimentos colhidos na Zona Leste, região mais populosa do município, a palavra “liberdade” aparece como um mantra. Desde os 11 anos nas ruas, Micaías Alves se orgulha de “não ter patrão” e planeja crescer no próprio ritmo. Cícero da Silva, que roda inclusive nos fins de semana para turbinar a renda, vai além: “Nunca mais trabalho para ninguém”.

    A independência, porém, tem custo alto. Sem férias, sem auxílio-doença e expostos a acidentes diários, os entregadores admitem insegurança. “Se o motoboy cai, quem ajuda?” questiona Alef Bastos, citando colegas que ficam meses sem renda após uma fratura. A dilema resume-se a como equilibrar o desejo de autonomia com algum tipo de rede de proteção.

    Desconfiança na política e risco de abstenção

    O sentimento de desalento com autoridades permeia as conversas. Micaías tem título de eleitor, mas nunca compareceu à urna: “Quem entra lá não olha para nós”. Já Cícero insiste em votar, ainda que sem acreditar em melhorias concretas. Para Felipe Nunes, a postura mostra caminhos distintos — abstenção ou comparecimento crítico — que surgem a partir de percepções quase idênticas sobre o poder público.

    Salões e esmaltes: o dia a dia das profissionais da beleza

    Férias que não chegam, medo que persiste

    Mais de 140 mil microempreendedoras individuais atuam no setor de beleza na Grande São Paulo. Entre manicures e cabeleireiras, a maratona diária começa cedo e raramente permite folga. “Se tiramos 30 dias, não entra um real”, relata Janine Pereira. Elas também expõem o temor de assaltos ao voltar para casa: quase 60% dos brasileiros dizem ter medo de andar sozinhos, índice que sobe para 75% quando se trata de mulheres, de acordo com a Quaest.

    Saúde, educação e voto consciente

    Ainda que compartilhem o gosto pela autonomia, as profissionais foram mais enfáticas sobre serviços públicos. Helen Melo menciona a filha de 10 anos como razão para levantar cedo e reclama das interrupções na escola municipal. Kelly Rosa sonha ver avanços na saúde e pretende repatriar o filho que vive fora do país. Nenhuma delas descarta o voto; preferem analisar propostas até o último momento, sinalizando atenção a pautas de segurança, educação e assistência social.

    A voz dos “liberais sociais” da Zona Oeste

    Estado necessário, mas eficiente

    No ecossistema de startups e coworkings da Zona Oeste, predomina o que Nunes chama de “liberalismo social”: empresários que defendem mercado aberto, porém reconhecem o papel do Estado em áreas onde o lucro não chega. “É o poder público que leva escola a um rincão”, observa Lucas de Lima Neto, executivo que viveu a ditadura militar. Alex Appel, dono de uma empresa de alimentação, diz que a prosperidade do negócio depende de políticas que estimulem inovação e geração de empregos.

    Democracia como pré-requisito

    Entre esses empreendedores, a maior queixa recai sobre a falta de candidatos que representem suas convicções. A coordenadora Renatta Hülse prevê “escolha pelo menos pior”, enquanto Lucas prefere “o que mais se aproxime” no primeiro turno e, se necessário, “o menos pior” no segundo. Ainda assim, todos rejeitam a ideia de se ausentar. Ao recordar a repressão militar, Lucas resume: “A democracia é inegociável”.

    Diversas prioridades, um mesmo rótulo

    Os três grupos evidenciam a heterogeneidade do eleitor independente. Entregadores valorizam flexibilidade e buscam mínima cobertura em caso de acidente; profissionais da beleza pedem segurança, saúde e condições para cuidar dos filhos; empreendedores querem ambiente de negócios estável, mas cobram presença estatal onde o mercado não atua. Se a origem das demandas diverge, o sentimento de orfandade política é comum: todos se queixam da distância entre as propostas dos candidatos e a vida real.

    Nos próximos episódios, a série “Voto Pendular” segue para Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, traçando o mesmo retrato multifacetado. A aposta da Globo é que, ao iluminar esses diferentes perfis, seja possível compreender melhor como vota — e por que muda de voto — o segmento que poderá definir a próxima sucessão presidencial.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.