Faltando pouco mais de um mês para a Festa de Nossa Senhora Aparecida, indústrias do Vale do Paraíba vivem um período de ritmo frenético. A demanda por produtos devocionais disparou e forçou fábricas de Potim e Roseira a reforçarem turnos, contratar temporários e até repensar logística para garantir o abastecimento de paróquias, lojas especializadas e romeiros de todo o país.
O movimento é tamanho que uma das tradicionais fábricas de imagens de Nossa Senhora já registra produção três vezes maior que a usual, enquanto o setor de velas e hóstias trabalha desde julho em regime de alta intensidade. O objetivo é dar conta do fluxo de pedidos que antecede a programação oficial, marcada para ocorrer entre 3 e 12 de outubro no Santuário Nacional.
Produção de imagens triplica em Potim
Em Potim, a empresa fundada há mais de três décadas por David Soares transformou-se em referência nacional na confecção de estátuas da Padroeira. Administrada hoje pelas filhas do idealizador, a firma costuma produzir de 1,5 mil a 2 mil peças por semana em períodos normais. Com a festa no horizonte, esse número salta para até 6 mil unidades semanais, exigindo a adoção de turnos extras e o remanejamento de funcionários de outros setores internos.
Segundo Fernanda Soares, uma das sócias, além de suprir o comércio local e o Centro de Apoio ao Romeiro, a fábrica envia encomendas para lojistas de vários estados. “Há pedidos que já chegam com três meses de antecedência”, relata. Para dar vazão, o estoque de matéria-prima — que inclui resina, tinta e embalagens especiais — foi reforçado logo após o término das celebrações do ano passado.
Da modelagem à prateleira
- Escultores moldam o gesso-matriz que serve de base para todo o processo;
- As réplicas são vertidas em resina e passam por cura em estufas climatizadas;
- Pintores aplicam detalhes manuais, do manto azul-anil às pequenas estrelas;
- No fim, cada peça recebe verniz protetor e é embalada com certificado de autenticidade.
O cuidado artesanal, explica Fernanda, é justamente o que mantém a procura aquecida mesmo diante de opções mais baratas importadas. “O consumidor percebe a diferença entre um produto industrial em larga escala e um trabalho que respeita a iconografia tradicional”, diz.
Velas e hóstias em alta na vizinha Roseira
A cerca de 15 quilômetros dali, a Sacrarium, especializada em insumos litúrgicos há 21 anos, também opera no limite. Desde julho, os pedidos de velas votivas, cirios e hóstias aumentaram a cada semana. De acordo com a direção, a fábrica precisou antecipar a compra de parafina e farinha de trigo de grau litúrgico para não correr risco de desabastecimento no período crítico entre setembro e outubro.
Além de fornecer diretamente ao Santuário Nacional, a empresa atende dioceses de todo o Sudeste. Entre os itens mais requisitados estão as velas de promessa, preferidas por romeiros que cumprem ex-votos caminhando até Aparecida. Já as hóstias confeccionadas em lotes de até 600 mil unidades abastecem celebrações em todo o país durante a novena.
Pacote completo para o peregrino
Com a linha diversificada, a Sacrarium produz ainda imagens em resina e mármore, chaveiros, porta-velas e artigos em MDF personalizados com a temática mariana. A proximidade da festa impulsiona esses acessórios. “O fiel que vem à basílica muitas vezes leva um kit inteiro, da vela à imagem para presentear familiares”, afirma a gerência.
Impacto regional e geração de renda
O aquecimento sazonal provoca reflexos diretos na economia do Vale do Paraíba. Somente nas duas fábricas, cerca de 80 vagas temporárias foram abertas para os meses de agosto, setembro e início de outubro, abrangendo funções que vão da pintura artística ao empacotamento. O comércio local se beneficia ainda da circulação de fornecedores e transportadores que movimentam hotéis, restaurantes e postos de combustível.

Imagem: Internet
Para especialistas em turismo religioso, o fenômeno mostra como festas de cunho devocional podem sustentar cadeias produtivas inteiras. A Associação Brasileira de Agências de Viagem estima que, em 2025, o segmento moveu mais de dois milhões de pessoas até Aparecida — número que tende a se repetir em 2026, considerando o cronograma nacional de feriados.
Contagem regressiva para 12 de outubro
A Novena e Festa da Padroeira de 2026 traz como tema “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra!”. As celebrações começam em 3 de outubro, com missas diárias e momentos de oração no interior e no entorno da basílica. Durante a semana, fiéis participam de carreata, festival mariano e procissões internas.
O ponto alto ocorre no feriado de 12 de outubro, quando o Santuário organiza:
- Missa Solene ao amanhecer;
- Missa das Crianças, reunindo escolas e grupos de catequese;
- Consagração Solene na Basílica Histórica no período da tarde;
- Missa de Encerramento ao anoitecer, seguida de Procissão Solene pelas ruas próximas e show pirotécnico.
Em 2025, o complexo religioso registrou cerca de 170 mil visitantes apenas no dia 12. A administração espera número similar ou superior este ano, impulsionando ainda mais a procura por artigos religiosos.
Logística para atender o país
Com encomendas partindo para todas as regiões, parte da produção é despachada por transportadoras que operam rotas expressas. A fábrica de Potim reserva duas carretas semanais só para São Paulo, Minas e Paraná. Já a Sacrarium escalonou entregas para o Nordeste com antecedência de 40 dias, evitando atropelos próximos à data principal.
Apesar da maratona, empresários garantem que a operação vale o esforço: outubro representa até 35% do faturamento anual. “É o ápice do nosso calendário”, resume Fernanda Soares. Depois da festa, a produção desacelera, mas nunca para totalmente, já que muitos fiéis antecipam compras para o Natal ou para oferecer lembranças ao longo do ano.
Fé que move a economia
O cenário confirma a vitalidade do mercado de artigos sacros no Brasil e reforça o papel do turismo religioso como motor de desenvolvimento local. Enquanto a devoção alimenta a esperança dos fiéis, ela também sustenta empregos, renda e inovação em pequenas cidades do Vale do Paraíba — mostrando que, para além do altar, a fé circula em muitas mãos antes de chegar ao destino final dos devotos.
