Ao desembarcar em Teresina nesta segunda-feira (24), a presidenciável Samara Martins (Unidade Popular) colocou o sistema público de saúde no centro de sua campanha. Segundo ela, vereadores, governadores, deputados e até o ocupante do Palácio do Planalto deveriam ser obrigados a recorrer ao SUS para sentir, “na fila e no balcão”, a dimensão dos problemas vividos pela população.
Martins avaliou que, em um país “rico como o Brasil”, seria possível investir “muito mais” em saúde e educação. A candidata afirmou que submeter a classe política às mesmas condições enfrentadas pelos usuários do SUS “é a maneira mais rápida de acelerar o aumento de verbas” para o setor.
Compromisso declarado com o SUS
Diante de apoiadores, a representante da UP argumentou que a distância entre governantes e políticas públicas gera decisões desconectadas da realidade. “Eles legislam sobre o serviço, mas não sentem a falta de remédio ou a demora de exames”, declarou. Para ela, aproximar os tomadores de decisão do cotidiano das unidades básicas e hospitais forçaria a melhoria imediata de estruturas, equipes e equipamentos.
Embora não tenha detalhado metas numéricas, a candidata repetiu que saúde e educação estariam “no topo das prioridades” caso fosse eleita em 2026. O discurso, feito de forma improvisada sobre um carro de som, foi interrompido em diversos momentos por aplausos de servidores e estudantes que se juntaram à atividade.
Roteiro intenso na capital piauiense
A agenda começou às 8h, quando Samara Martins foi recepcionada na rodoviária de Teresina. Ali, além de militantes locais, estavam o candidato ao Governo do Piauí, Santiago Belizário (UP), e o postulante ao Senado, Pedro Laurentino. O grupo marchou em cortejo até a antiga sede da Águas e Esgotos do Piauí (Agespisa), ponto simbólico para a plataforma antiprivatização defendida pela legenda.
Ao longo do trajeto, bandeiras vermelhas e cartazes com frases como “Água é direito, não mercadoria” acompanharam a comitiva. Militantes revezavam palavras de ordem, enquanto um carro-som reproduzia jingles que reforçavam a defesa da “industrialização nacional” e do “poder popular”.
Encontro com ex-trabalhadores da Agespisa
Na porta da antiga empresa pública, Samara Martins reivindicou a reestatização do saneamento básico no Piauí e criticou experiências semelhantes em outros estados, onde, segundo ela, “metrôs, ônibus e hospitais foram entregues à lógica de mercado”. A candidata classificou a privatização como “transformação de direitos em mercadorias” e prometeu não apenas anular vendas futuras, mas reverter concessões já assinadas.
“Nenhum funcionário pode ficar sem trabalho por causa de um decreto que passa o patrimônio público para mãos privadas”, afirmou. Ela defendeu a reintegração automática de funcionários demitidos e se comprometeu a barrar qualquer novo processo de venda de estatais, “do saneamento ao transporte coletivo”.
Panfletagem na universidade
Por volta de meio-dia, já sob forte sol, a caravana se dirigiu a um restaurante popular dentro da Universidade Federal do Piauí. No local, Samara, Santiago e Pedro distribuíram panfletos que resumem o programa do partido. Entre os temas destacados, apareciam a “industrialização nacional planejada” e a “luta pelo direito das mulheres”.
Em conversa com estudantes, Martins enfatizou a necessidade de ampliar a presença feminina em espaços de poder. “Quando metade da população não é ouvida, a política se torna incompleta”, disse. Ela mencionou a precariedade do atendimento às mulheres no SUS como exemplo de como a ausência de representatividade impacta políticas públicas.
Articulação estadual e discurso unificado
A passagem por Teresina integrou a estratégia do partido de sincronizar o discurso presidencial com candidaturas regionais. Santiago Belizário reforçou que planeja reproduzir, no Piauí, o compromisso de submeter autoridades ao sistema público de saúde, caso alcance o Palácio de Karnak. Já Pedro Laurentino declarou que, no Senado, atuará para “engordar o orçamento do SUS” e barrar mudanças que facilitem privatizações.

Imagem: Internet
Enquanto o grupo conversava com alunos e servidores da UFPI, integrantes da UP organizavam rodadas curtas de debate. Os assuntos variaram da criação de empregos a políticas de saneamento, todos atravessados pela mesma ideia-força: serviços essenciais devem permanecer nas mãos do Estado.
Privatizações no centro da crítica
Samara Martins citou recorrentemente a situação da Agespisa como estudo de caso para justificar sua oposição a concessões. Segundo ela, a transferência ao setor privado não significou melhora percebida na rede de distribuição de água, mas resultou em reajustes tarifários sucessivos. “É o povo que paga a conta, e ainda recebe um serviço pior”, argumentou.
Dentro do seu plano de governo, a presidenciável sustenta que a reversão de privatizações seria financiada pela “reorganização das prioridades fiscais” e pela “recuperação de receitas que hoje deixam o país na forma de juros”. Embora não tenha detalhado mecanismos, a candidata prometeu “criar condições para que cada real recolhido de imposto se transforme em melhor atendimento e mais escolas”.
Industrialização e soberania
Em resposta a perguntas de estudantes, Martins defendeu a retomada de um projeto nacional de industrialização. Ela relacionou o tema à geração de empregos “com direitos garantidos” e ao fortalecimento da soberania econômica. “Se queremos financiar saúde e educação de qualidade, precisamos produzir aqui dentro, pagar bons salários e arrecadar de forma justa”, disse.
O discurso foi alinhado aos pontos divulgados nos folhetos distribuídos no campus, que também citam a defesa do patrimônio ambiental e o enfrentamento da desigualdade de gênero. Apesar da ênfase em assuntos diversos, a candidata retornou repetidas vezes ao SUS como fio condutor das conversas.
Recepção popular e próximos passos
Durante todo o percurso em Teresina, a comitiva foi acompanhada por simpatizantes, curiosos e antigos funcionários da Agespisa. Em rodas de conversa improvisadas, alguns relataram dificuldades recentes para marcar consultas pela rede pública, reforçando o argumento da candidata sobre a urgência de investimento.
Ao encerrar a visita, por volta do meio da tarde, Samara Martins prometeu voltar ao estado ainda durante a campanha. Ela pretende percorrer municípios do interior para “ouvir quem mais precisa do SUS e quem sentiu no bolso a privatização da água”.
Enquanto se despedia, a presidenciável reiterou: “Se quem manda no orçamento sentir na pele o que é esperar meses por um exame, esse orçamento muda no dia seguinte”. A declaração resumiu o tom das quase sete horas que passou em solo piauiense, marcadas por críticas à venda de estatais e pela aposta de que obrigar autoridades a usar o SUS seria o primeiro passo para fortalecer o sistema.
