Aos 57 anos, brasileira de Santos obtém certificado para guiar turistas nos Alpes Suíços

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    A paixão tardia pelas montanhas acaba de render um novo ofício a Beatriz Krähenbühl. Aos 57 anos, a santista radicada em Verbier concluiu a formação de Mountain Leader, passo decisivo para guiar visitantes pelos Alpes Suíços com chancela internacional. O feito coloca a brasileira a poucos meses do brevet federal — exame que, se aprovado, permitirá atuar legalmente em todos os países associados à União Internacional de Guias de Montanha (UIMLA).

    O diploma coroa uma virada iniciada depois da pandemia de Covid-19, quando Beatriz trocou as caminhadas de lazer por um rigoroso treinamento físico, técnico e intelectual. “Entrei no curso já depois dos 50. Cada módulo vencido provava que não existe prazo de validade para recomeçar”, resume.

    Virada de rota aos 57 anos

    Formada em Biologia Marinha em Santos, Beatriz passou por companhias aéreas como comissária de bordo e desembarcou na Suíça em 1996 ao lado do marido, igualmente brasileiro. O plano original era permanecer apenas uma temporada, mas três décadas depois ela segue nos Alpes, fluentemente integrada à comunidade francófona de Verbier.

    Nos primeiros anos, trabalhou em hotéis, restaurantes, no centro esportivo da cidade e até na companhia de teleféricos local, onde controlava passes de esquiadores. Em 2000, com o nascimento do filho, migrou para a educação infantil e permaneceu mais de duas décadas em creches, até que o confinamento sanitário de 2020 a levou a buscar alívio nas trilhas próximas. As postagens das caminhadas nas redes sociais logo atraíram conterrâneos interessados em conhecer a região. “Uma brasileira pediu para acompanhá-la, depois outra, e quando me dei conta já conduzia grupos inteiros pelos vales”, conta.

    Três anos de estudo e provas na neve

    Percebendo o potencial profissional, um guia suíço sugeriu que Beatriz se inscrevesse no curso de Mountain Leader da escola Horizons Nature, credenciada pela UIMLA. Para ser aceita, ela precisou comprovar um vasto histórico em alta montanha e demonstrar fôlego para vencer 600 m de desnível por hora com mochila de 8 kg.

    O currículo, distribuído em nove módulos ao longo de dois anos letivos, exigiu cerca de três anos entre aulas, estágios e avaliações práticas no verão e no inverno. Entre as disciplinas, destacam-se:

    • Gestão de risco e segurança em terreno alpino;
    • Navegação, leitura de mapas e orientação por bússola e GPS;
    • Meteorologia aplicada;
    • Nivologia e prevenção de avalanches;
    • Primeiros socorros em áreas remotas;
    • Condução e dinâmica de grupos heterogêneos;
    • Geologia, glaciologia e hidrologia;
    • Fauna, flora e botânica de altitude;
    • História, cultura e economia das regiões de montanha.

    Concluídas as etapas, Beatriz recebeu o status de guia aspirante, categoria que permite liderar trilhas dentro da Suíça sob supervisão. A prova final, prevista para novembro, envolve um exame escrito e uma expedição avaliada por instrutores federais. A aprovação confere o brevet que valida o exercício da atividade em 21 nações, do Chile ao Nepal.

    Rotina de treino e adaptação

    Para encarar a maratona de avaliações, a brasileira manteve uma rotina de corridas em altitude, musculação e sessões semanais de escalada. “Foi um desafio físico, mental e intelectual. Há dias de aula em que ficamos doze horas no gelo aprendendo a construir abrigo de emergência”, recorda.

    Aos poucos, ela diz ter notado o ganho de resistência, sobretudo durante os longos desníveis carregando todo o equipamento de segurança — cordas, crampons, kit de primeiros socorros e suprimentos para grupo. “Quando vi que conseguia acompanhar colegas de 30 anos, percebi que idade é apenas parte da equação.”

    Da Baixada Santista às encostas europeias

    Filha de família praiana, Beatriz nunca imaginou trocar o mar pelo gelo eterno dos Alpes. A distância do oceano, segundo ela, acabou compensada pela sensação de liberdade nas cotas acima de 2 000 m. “A montanha muda a cada estação, a cada virada de luz. Percorrer a mesma trilha em agosto e depois em fevereiro é como visitar dois planetas diferentes”, descreve.

    O senso de descoberta constante, aliado ao prazer de ensinar, será a base dos roteiros que pretende oferecer a partir de 2025 para brasileiros e estrangeiros. Entre os percursos favoritos estão a travessia Verbier–Arolla, com vista para montanhas de 4 000 m, e trilhas familiares que combinam fauna alpina com aldeias centenárias.

    Público brasileiro em crescimento

    De acordo com agências de turismo de aventura, o número de visitantes do Brasil na Suíça voltou a crescer após a reabertura das fronteiras. Muitas dessas pessoas buscam guias que falem português e conheçam os costumes do país de origem — lacuna que Beatriz pretende preencher com grupos pequenos, priorizando segurança e interpretação ambiental.

    “Não quero apenas levar o turista do ponto A ao B; quero que ele entenda como a geleira influencia a economia local, por que o suíço protege o edelweiss e qual a história por trás de cada chalé centenário”, explica.

    Próximos passos e lição sobre recomeços

    Até novembro, a guia aspirante deve registrar mais 40 dias de condução supervisionada, requisito formal para se apresentar ao exame federal. A aprovação final garantirá crachá profissional emitido pela federação suíça e permitirá a assinatura de roteiros em países parceiros, abrindo portas para temporadas no Mont Blanc francês ou na cordilheira dos Pireneus, por exemplo.

    Para além das novas possibilidades de trabalho, Beatriz vê no diploma uma mensagem de reinvenção aos 50 +. “Muita gente acha que a vida fica menor depois de certa idade. Eu descobri justamente o contrário: quando ousamos mudar, o horizonte se expande.”

    Enquanto aguarda a prova definitiva, a brasileira continua guiando gratuitamente amigos e futuros clientes, aperfeiçoando técnicas de interpretação da paisagem e de liderança de grupos multilíngues. O ciclo de preparação se encerra, mas a jornada sobre cristas nevadas — como ela gosta de brincar — está apenas começando.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.