O que começou como piada na internet acabou virando ponto de encontro no mundo real. Dois amigos de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, transformaram uma página de memes criada em 2016 em uma espetaria temática que hoje recebe cerca de 250 clientes por mês e movimenta R$ 37 mil em receitas. Para levantar o negócio, André Abib e Lucas Mil investiram R$ 60 mil, apostaram em referências do bairro na decoração e contrataram apenas moradores da região.
Ao trazer para dentro do restaurante os símbolos, gírias e a estética que fizeram sucesso nas redes sociais, a dupla construiu um ambiente que reforça o sentimento de pertencimento dos frequentadores. A estratégia mantém a comunidade engajada, sustenta o ticket médio de R$ 145 e serve de vitrine para outras iniciativas digitais mantidas pelos sócios, como podcast, página de notícias e premiação local.
Da linha do tempo para a grelha
A aventura empresarial começou em 2016, quando André, designer, e Lucas, publicitário, decidiram abrir um perfil dedicado a brincadeiras sobre a rotina de quem vive em São Mateus. O conteúdo viralizou rapidamente e, em pouco tempo, empresas do entorno passaram a pedir publicações patrocinadas. A demanda por posts impulsionou a profissionalização: os criadores compraram equipamentos, criaram formatos comerciais e, depois de quatro anos, perceberam que a renda on-line se aproximava dos salários formais que recebiam.
Em 2020, os dois entregaram as carteiras de trabalho. O portfólio digital cresceu com uma página de notícias, um podcast semanal e um prêmio anual que destaca iniciativas da periferia. Faltava, no entanto, um endereço físico. “Queríamos um espaço onde pudéssemos encontrar a galera que ri dos nossos vídeos”, resume André.
Nascimento da casa de espetos
Com a decisão tomada, a dupla escolheu os espetinhos como carro-chefe por dois motivos: baixo investimento em cozinha industrial e forte tradição nos bares de bairro. Foram R$ 60 mil aplicados em reforma, equipamentos e ambientação. Placas que reverenciam o monotrilho da Linha 15, lambe-lambes com memes famosos do perfil e quadros que homenageiam personalidades locais compõem o salão.
A preocupação em fortalecer a economia da periferia norteia as compras. Carnes, pães, bebidas artesanais e uniformes vêm de microempreendedores de São Mateus, o que reduz custo logístico e reforça o discurso de valorização do território. “O dinheiro precisa circular aqui dentro”, enfatiza Lucas.
Identidade periférica como diferencial competitivo
Mais do que decoração, a cultura local orienta o posicionamento de marca. O cardápio usa expressões consagradas no perfil de memes e cada espeto recebe nome de situações típicas do bairro. No lugar de música ambiente genérica, a playlist alterna funk, rap e samba de artistas daqui.
Esse cuidado criou o que os sócios chamam de “experiência de feed ao vivo”: para muitos clientes, visitar o espaço equivale a entrar dentro das piadas que acompanham no celular. A familiaridade impulsiona a taxa de compartilhamento espontâneo em redes sociais — porta de entrada para novos consumidores sem custo adicional de marketing.
Time recrutado na vizinhança
Toda a equipe, dos churrasqueiros aos garçons, mora num raio de até três quilômetros. A política traz dois benefícios diretos: reduz a rotatividade, já que o trajeto casa-trabalho é rápido, e reforça a sensação de que o estabelecimento pertence a quem vive em São Mateus. Alguns colaboradores, inclusive, já apareceram nos memes que originaram o negócio.

Imagem: Internet
Números que sustentam o projeto
- Investimento inicial: R$ 60 mil
- Clientes mensais: cerca de 250
- Ticket médio: R$ 145
- Faturamento mensal: R$ 37 mil
- Retorno do investimento: previsto para 20 meses
Os sócios atribuem o ritmo de caixa positivo a duas iniciativas. A primeira é o rodízio de espetos às quartas e quintas, que eleva o fluxo nos dias mais fracos da semana. A segunda refere-se ao cross-selling digital: seguidores que compram ingressos para eventos transmitidos no podcast ganham vouchers para consumir na casa, e vice-versa.
Controle de custos
Para driblar a inflação de alimentos, o cardápio muda sempre que a cotação da carne dispara. Assim, cortes bovinos mais caros cedem espaço a opções suínas ou de frango sem comprometer a margem. Além disso, itens sazonais — como espetinho de milho em julho ou de camarão na Semana Santa — criam senso de urgência e ampliam o tíquete.
Planos de expansão sem perder a raiz
Com as mesas cheias nos fins de semana, a dupla estuda abrir uma segunda unidade dentro da própria Zona Leste antes de pensar em franquias. O desenho inicial prevê espaço maior, programação cultural e estúdio de gravação integrado para podcasts. A proximidade geográfica, afirmam, é crucial para manter o controle de qualidade e a coerência com o propósito de “humor periférico”.
Outra frente em análise é o licensing de produtos: molhos, camisetas e bonés que levam frases dos memes. Os itens seriam vendidos tanto no restaurante quanto on-line, replicando o modelo de negócios que combina conteúdo, comércio e comunidade.
“Meu bairro, minha história”
Para André, o crescimento do empreendimento serve de prova de que narrativas da periferia podem se transformar em receita — sem romantização nem estereótipos. “Quando a galera vê que dá para viver bem sem sair daqui, cria-se um ciclo virtuoso”, diz. Lucas concorda: “São Mateus nos deu a matéria-prima. Agora devolvemos em forma de emprego, festa e comida”.
Se depender dos sócios, a espetaria continuará sendo ponte entre o feed e o boteco. Com a grelha acesa e o bom-humor como tempero, eles pretendem transformar o meme em legado econômico para a região onde nasceram.
