Engenheira de Teresina transforma hobby em negócio de sabonetes que imitam frutas e doces

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    Numa bancada tomada por cheiros cítricos e adocicados, laranjas, morangos e taças de sorvete parecem prontos para a sobremesa — mas, na verdade, são barras de sabonete. A engenheira civil Cristina Lima, 46 anos, converteu o passatempo com essências e corantes numa fonte de renda depois de ficar afastada dos canteiros de obra na pandemia.

    Dois anos após levar as primeiras criações a uma feira de Teresina, ela produz mais de 300 unidades por mês, mantém um ateliê próprio e ainda ministra oficinas para quem deseja aprender a técnica que mistura química, escultura e design.

    Da prancheta ao ateliê perfumado

    Cristina passou quase duas décadas dedicada a obras de infraestrutura, cronogramas e planilhas. Quando a Covid-19 interrompeu contratos em 2020, o tempo livre em casa reacendeu o gosto antigo pelo artesanato. Ela começou a fazer cursos on-line de saboaria e velas, testou combinações de glicerina, corantes e fragrâncias e percebeu que a produção, além de terapêutica, chamava atenção de amigos e vizinhos.

    Em 2021, já com a retomada gradual dos eventos presenciais, a engenheira decidiu expor as peças numa feira de artesanato no centro da capital piauiense. O estande lotado e a fila de pedidos mostraram que havia público para sabonetes que parecem frutas fatiadas, cupcakes ou ursos de pelúcia. Nascia o Saboom Ateliê, instalado em um cômodo de sua própria casa, equipado com fornos de micro-ondas, balanças de precisão e prateleiras repletas de moldes de silicone.

    Inspiração e referências

    Boa parte das ideias vem de cursos especializados e do trabalho de artesãos que fazem sucesso na internet, como o paulista Peter Paiva, conhecido pelo realismo das peças. “Gosto de olhar para uma sobremesa e pensar: como transformo isso em sabonete sem perder a textura e a cor?”, conta a empreendedora.

    O cardápio de formatos inclui maçãs, fatias de bolo red velvet, flores tropicais, pirulitos e brinquedos infantis. O realismo é tão grande que muita gente tenta morder as criações durante as feiras. Para evitar acidentes, cada embalagem traz alerta em letra destacada: “Produto cosmético, não comestível”.

    Como nascem as peças aromáticas

    A produção começa pela escolha da fragrância, que precisa combinar com o visual. Essências cítricas, por exemplo, são reservadas às frutas; notas de baunilha reforçam a identidade dos sabonetes em forma de doce. Depois, glicerina vegetal é derretida e misturada ao corante cosmético. O líquido é despejado em moldes individuais ou em barras que, depois de frias, são talhadas à mão.

    Quando a peça exige mais detalhes — caso das frutas que trazem folhagem ou da casquinha listrada do sorvete — o processo pode durar até três horas, já que cada camada precisa solidificar antes da aplicação seguinte. Por fim, o sabonete é desmoldado, polido com álcool de cereais para tirar pequenas bolhas e recebe rótulo personalizado que informa composição, data de fabricação e registro na Anvisa.

    Qualidade cosmética garantida

    Embora muita gente compre apenas para decorar o lavabo, todos os sabonetes podem ser usados na pele. A base leva manteiga de karité ou óleo de coco, ingredientes que garantem hidratação. “Não faz sentido ter algo lindo que não seja funcional. Minha formação em engenharia ajuda no cálculo das fórmulas e no controle de qualidade”, explica Cristina.

    Volume de produção e público-alvo

    A rotina de trabalho varia conforme o calendário de feiras. Nos meses em que participa de eventos, Cristina chega a produzir 300 unidades, além de kits corporativos para brindes de empresas locais. Fora das temporadas de alta, a média cai para 150, vendidos principalmente por meio das redes sociais do ateliê.

    Segundo ela, 60 % do faturamento vem de vendas diretas; o restante é dividido entre encomendas para festas, lembrancinhas de casamento e oficinas. O ticket médio é de R$ 25 por unidade, mas kits temáticos podem ultrapassar R$ 120.

    Clientes fiéis e expansão

    A fidelidade dos compradores se mede pelos cheques recompra: cerca de 40 % dos clientes voltam a cada dois meses para renovar o estoque ou presentear familiares. “Quem compra para decorar o lavabo acaba usando e volta porque gostou da sensação na pele”, afirma. O próximo passo é firmar parcerias com hotéis e pousadas do litoral piauiense para fornecer miniaturas personalizadas.

    Oficinas atraem curiosos e futuros empreendedores

    Além de vender, Cristina ensina. Todas as sextas e sábados, ela recebe até três alunos por turma no ateliê. O curso introdutório de três horas cobre princípios de segurança, manipulação de bases glicerinadas, escolha de essências e criação do primeiro sabonete artístico. O valor de R$ 250 inclui apostila digital, certificado e material necessário para produzir quatro peças, que o aluno leva para casa.

    De acordo com a engenheira, muitos participantes buscam complementar renda. “Em tempos de insegurança econômica, investir pouco para montar um negócio caseiro é atrativo. Mostro que, com disciplina e criatividade, dá para alcançar bons resultados”, explica. Ela também oferece módulos avançados focados em técnicas de marmorização e sabonetes 3D.

    Impacto emocional do artesanato

    Cristina afirma que o retorno vai além do financeiro. Cada vez que alguém se surpreende com o perfume de maracujá saindo de uma miniabóbora de glicerina, ela lembra por que trocou concreto por fragrâncias. “A arte manual provoca memórias afetivas. Quando alguém sente o cheiro do doce de infância em um sabonete, cria-se uma conexão imediata”, diz.

    Desafios e perspectivas

    O principal obstáculo é o custo das matérias-primas importadas, que subiram após a pandemia. A solução encontrada foi comprar essências e manteigas em volume maior junto a outros artesãos da cidade, reduzindo o frete. Além disso, a exigência de registro na Anvisa aumenta a burocracia, mas garante confiança do consumidor.

    Para 2024, o plano é lançar uma linha sustentável com corantes de origem vegetal e embalagens biodegradáveis. Cristina também pretende ampliar a presença em marketplaces de artesanato, sem abandonar o atendimento personalizado que consagrou o Saboom Ateliê. “Quero crescer sem perder a essência: peças únicas, feitas à mão, que provocam sorriso de quem vê pela primeira vez”, resume.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.