Já se passaram dez dias desde que a goiana Alice Dias de Oliveira, de 16 anos, desapareceu na região metropolitana de Paris, e a família ainda não recebeu qualquer informação concreta das autoridades francesas. O silêncio oficial mantém parentes em vigília permanente entre Trappes, onde a jovem mora com os pais, e Goiânia, cidade natal da família. “Ninguém dorme, ninguém come”, desabafa a tia Luciana Oliveira, que acompanha as buscas do Brasil.
O caso mobiliza parentes, amigos e internautas que compartilham imagens da estudante nas redes sociais. Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores confirma a prestação de assistência consular, mas esbarra em normas de privacidade que impedem a divulgação de detalhes. A ausência de pistas — nem mesmo imagens de câmeras da estação de trem foram liberadas à família — aumenta a sensação de impotência.
Dez dias sem respostas
Família em vigília
De Goiânia, Luciana mantém contato diário com o irmão e a cunhada que vivem na França. Segundo ela, o casal está emocionalmente abalado e evita aparições públicas. A fala ficou a cargo da filha mais velha, Ana Flávia, que gravou vídeo cobrando celeridade nas investigações: “A polícia não nos deu filmagem, não nos deu nada. Já não sei mais o que fazer”. A gravação circulou em grupos de brasileiros na Europa e intensificou o compartilhamento da foto de Alice.
O último contato
A adolescente desapareceu em 22 de julho, logo após sair do estágio que realizava durante as férias escolares. Às 17h26 daquela tarde, ela enviou mensagem ao pai informando que aguardava o trem de volta para casa, em Trappes. Desde então, o celular está inativo. No dia anterior, uma amiga que também cursa o mesmo colégio havia sumido em circunstâncias semelhantes. Os parentes cogitam que as duas possam estar juntas, mas não há qualquer confirmação oficial.
Protocolo policial e críticas
De acordo com a família, a polícia da Île-de-France adota, no verão europeu, um procedimento distinto do brasileiro para casos de menores desaparecidos. Como é comum que adolescentes viajem ou participem de eventos sem aviso prévio nesse período, as autoridades costumam aguardar prazos mais longos antes de classificar o sumiço como potencial crime. Isso explicaria a demora na liberação de imagens das câmeras de segurança e no rastreamento de sinais telefônicos, etapas consideradas básicas no Brasil.
O atraso, contudo, gera indignação. “Entendemos que o protocolo seja diferente, mas o desgaste emocional não conhece fronteiras”, diz Luciana. A família teme que informações valiosas se percam com o passar dos dias, sobretudo porque a linha férrea que liga Paris a Trappes recebe grande fluxo de passageiros.
Assistência consular brasileira
Questionado, o Ministério das Relações Exteriores informou, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Paris, que acompanha o caso e oferece apoio aos familiares. O órgão, contudo, lembra que segue a legislação internacional e a Lei de Acesso à Informação, que proíbem a divulgação de dados pessoais do assistido. Dessa forma, detalhes sobre as tratativas com a polícia francesa permanecem reservados.

Imagem: Internet
A assistência consular inclui orientação jurídica, emissão de documentos de viagem e intermediação com autoridades locais. Até agora, não há confirmação de que representantes brasileiros tenham obtido acesso a relatórios policiais ou às gravações solicitadas pela família.
Mobilização nas redes
Sem novidades oficiais, a estratégia adotada pelos parentes é ampliar a visibilidade do caso. Ana Flávia divide a rotina de trabalho em Paris com a missão de responder mensagens e distribuir cartazes em estações, mercados e pontos turísticos. Ela pede que quem tiver qualquer pista, por menor que seja, procure imediatamente a polícia francesa ou o consulado brasileiro.
No Brasil, amigos organizam correntes de oração e campanhas virtuais. A comoção lembra episódios recentes envolvendo brasileiros no exterior, em que a pressão pública acelerou investigações. Para especialistas, a repercussão pode, de fato, influenciar o ritmo das buscas, embora não substitua procedimentos técnicos de polícia.
O que se sabe até agora
- Alice Dias de Oliveira, 16 anos, mora em Trappes com os pais.
- Desapareceu em 22 de julho, após estágio de férias escolares.
- Última mensagem ao pai: “Estou esperando o trem para casa”.
- Família não recebeu gravações de câmeras da estação.
- Itamaraty presta assistência, mas mantém sigilo de detalhes.
- Uma amiga da jovem sumiu um dia antes; hipótese de que estejam juntas ainda não foi confirmada.
Próximos passos
Enquanto aguardam avanços na investigação francesa, os parentes insistem no pedido para que a divulgação continue. Eles acreditam que a circulação da imagem da adolescente possa alcançar alguém que tenha visto Alice ou a suposta amiga. Também esperam que pressões diplomáticas e políticas acelerem o acesso aos vídeos solicitados.
Por ora, a maior esperança repousa no trabalho das autoridades locais. A família afirma que permanecerá na França pelo tempo que for necessário. “Não sairemos daqui sem ela”, resume Ana Flávia, com a voz embargada pela incerteza que insiste em persistir desde aquela mensagem de fim de tarde, há exatos dez dias.
