Quatro décadas depois de a ciência transformar o HIV de sentença de morte em infecção crônica controlável, um novo relatório do UNAIDS sinaliza que o fantasma da epidemia pode voltar a rondar o planeta. Cortes no financiamento internacional, retração dos serviços de prevenção e políticas que restringem direitos das populações mais vulneráveis colocam em risco a meta da ONU de eliminar a doença como ameaça à saúde pública até 2030.
O alerta global encontra eco no Brasil. Mesmo reconhecido pela distribuição gratuita de medicamentos, o país aparece entre as 21 nações que registraram aumento de novas infecções por HIV. Para a infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente da International AIDS Society (IAS) e pesquisadora da Fiocruz, o crescimento reflete o enfraquecimento de políticas de prevenção e o avanço de medidas que ampliam a vulnerabilidade de grupos historicamente mais expostos ao vírus.
Quatro décadas de avanço sob ameaça
Desde o início da epidemia, em 1981, investimentos em pesquisa, campanhas educativas e novos medicamentos reduziram em 30 anos o número global de mortes relacionadas à AIDS ao menor patamar histórico. A terapia antirretroviral tornou possível zerar a carga viral, enquanto estratégias de prevenção combinada — como preservativos, profilaxia pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP) — ajudaram a frear a transmissão.
O novo relatório do UNAIDS, porém, mostra que essa trajetória está longe de ser linear. Segundo o documento, a desaceleração no financiamento internacional compromete programas essenciais em países de baixa e média renda, onde se concentram a maioria dos 39 milhões de pessoas que vivem com HIV no mundo. O corte de verbas atinge especialmente iniciativas voltadas a jovens, mulheres e populações chave, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo e usuários de drogas.
Financiamento em queda livre
Do ponto de vista orçamentário, o cenário é crítico. Agências multilaterais, governos doadores e fundações privadas reduziram contribuições, enquanto a alta de custos operacionais — logística, equipamentos de proteção individual e testagem — pressiona ainda mais as contas dos programas de HIV. “Quando faltam recursos, as primeiras áreas a serem afetadas são justamente testagem e prevenção, dois pilares fundamentais para interromper cadeias de transmissão”, explica Beatriz Grinsztejn.
Com menos postos de testagem e distribuição irregular de insumos, o diagnóstico precoce fica comprometido. Pessoas que desconhecem seu status sorológico não iniciam tratamento e continuam transmitindo o vírus, alimentando um ciclo que ameaça retomar cifras vistas no auge da epidemia.
Impacto das políticas restritivas
Outro ponto destacado pelo UNAIDS é o avanço de legislações que restringem direitos sexuais e reprodutivos ou criminalizam comportamentos. Mais de 20 países aprovaram ou discutem leis que dificultam o acesso a serviços de saúde para populações já marginalizadas. “Medidas que cerceiam direitos afastam esses grupos dos sistemas públicos, reduzem a adesão ao tratamento e, no fim, ampliam a transmissão comunitária”, afirma a especialista.
Para ela, combater discriminação e estigma é tão estratégico quanto garantir medicamentos. “Se a pessoa tem medo de ser presa, agredida ou excluída socialmente, dificilmente buscará testagem ou assistência, mesmo que o serviço seja gratuito”, completa.
Por que os casos voltaram a crescer no Brasil
Embora mantenha referência internacional em distribuição de antirretrovirais, o Brasil não escapou da tendência preocupante identificada pelo UNAIDS. O relatório inclui o país no grupo de 21 nações que viram subir a curva de infecções recentes. A infectologista lista três fatores principais para explicar esse movimento:

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- Enfraquecimento da prevenção: campanhas educativas perderam espaço nos últimos anos, com menor presença em escolas, estações de transporte e meios de comunicação. A oferta de preservativos e de PrEP não acompanhou a demanda crescente em diversas capitais.
- Desigualdade regional: apesar de centros de excelência em grandes cidades, estados do Norte e do Nordeste relatam dificuldades logísticas para manter estoques de testes rápidos, antirretrovirais e PrEP.
- Vulnerabilidades sociais: agravamento da pobreza, falta de moradia e violência de gênero expõem populações específicas, elevando a probabilidade de transmissão do HIV.
Segundo Grinsztejn, “o Brasil dispõe das ferramentas científicas necessárias, mas precisa reativar campanhas massivas, fortalecer a atenção básica e trabalhar a educação sexual sem tabu para impedir retrocessos”.
Referência em tratamento não basta
Nenhum outro país de renda média distribui gratuitamente o esquema de antirretrovirais tão amplo quanto o Sistema Único de Saúde. Ainda assim, a cobertura de tratamento, por si só, não garante o fim de novas infecções. “Se a pessoa começa a medicação tardiamente, ela já transmitiu o vírus. Precisamos ampliar testagem e adesão precoce para alcançar a meta de 95-95-95 da ONU até 2030”, reforça a pesquisadora. O objetivo prevê que 95% das pessoas vivendo com HIV saibam do diagnóstico, 95% dessas recebam tratamento e 95% atinjam carga viral indetectável.
A oferta de PrEP para populações de maior risco também precisa avançar. Hoje o medicamento é distribuído em serviços especializados, mas ainda encontra barreiras burocráticas que retardam o início da profilaxia.
O que está em jogo até 2030
A ONU definiu como horizonte 2030 para erradicar a AIDS como ameaça à saúde pública. Com a tendência atual de financiamento e políticas restritivas, o UNAIDS adverte que o alvo pode escapar. “Não se trata apenas de salvar vidas, mas de evitar que a epidemia volte a mobilizar recursos e atenções que poderiam ser investidos em outros desafios sanitários”, observa Grinsztejn.
O relatório defende a retomada urgente dos aportes internacionais e a manutenção de legislações que garantam direitos humanos. Países com resultados consistentes investem em pacotes integrados que aliam saúde, educação e inclusão social. “A experiência mostra que onde há proteção social o HIV recua; onde há estigma, ele prospera”, resume a presidente da IAS.
Desafios imediatos
- Restabelecer fundos de doadores multilaterais para programas de testagem e prevenção.
- Expandir a PrEP, especialmente para jovens e pessoas trans.
- Lançar campanhas de comunicação contínuas, baseadas em evidência científica.
- Garantir que legislações nacionais não criminalizem populações-chave.
- Fortalecer a rede de atenção primária para descentralizar diagnóstico e tratamento.
“A ciência nos entregou as ferramentas; cabe a governos e sociedades civis removê-las das gavetas e colocá-las em prática”, conclui Beatriz Grinsztejn, lembrando que qualquer recuo agora pode custar anos de progresso e vidas que já não precisariam ser perdidas.
