Ponte entre Rússia e Coreia do Norte acirra temor de corredor bélico e preocupa Ucrânia

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    A poucos metros da antiga linha férrea que liga Rússia e Coreia do Norte desde os tempos soviéticos, surge agora uma ponte rodoviária cuja inauguração era prevista para junho, mas foi adiada por atrasos do lado russo. A estrutura, que corta o rio Tumen entre Khasan e Tumangang, já aparece completa nas imagens de satélite e promete tráfego em mão dupla tão logo Moscou conclua os postos alfandegários.

    Para a Ucrânia, o novo atalho pavimentado pode virar rota discreta de armas, munições e até soldados norte-coreanos, reforçando o esforço militar russo no leste europeu. Especialistas em Kiev argumentam que caminhões são mais difíceis de rastrear do que vagões ferroviários e, portanto, poderiam burlar a vigilância de serviços de inteligência ocidentais.

    Obra avança às margens do Tumen

    Ponte rodoviária complementa conexão de 1959

    Até aqui, o transporte terrestre entre Moscou e Pyongyang dependia quase exclusivamente da “Ponte da Amizade”, inaugurada há 65 anos. O velho tabuleiro ferroviário segue ativo, mas limita fluxos à capacidade dos trens. A nova via de concreto e aço, estimada em mais de US$ 100 milhões, abre passagem contínua para veículos de carga e passageiros.

    Imagens comerciais obtidas desde março mostram que a Coreia do Norte terminou toda a infraestrutura frontal: estradas de acesso, pistas de inspeção e guaritas. Do lado russo, escavadeiras ainda nivelam o terreno e instalam sensores de fiscalização. A cerimônia de corte da fita, prevista inicialmente para 19 de junho, foi postergada sem nova data.

    Preocupação militar de Kiev

    Dificuldade de monitoramento por satélite

    Um relatório da organização ucraniana de direitos humanos Truth Hounds serviu de alerta: o valor econômico do projeto seria restrito, mas seu potencial logístico militar é alto. Veículos pesados podem cruzar a fronteira, descarregar em depósitos camuflados e retomar o caminho de volta antes que satélites revisitem o mesmo ponto. Vagões, ao contrário, seguem trilhos fixos e exigem pátios de manobra, fatores que facilitam o acompanhamento remoto.

    A análise ganhou repercussão depois que o presidente Volodymyr Zelensky afirmou, em discurso ao Parlamento, que “dezenas de milhares” de militares norte-coreanos poderiam ser integrados às fileiras russas nos próximos meses. Kiev já atribui a Pyongyang o envio de projéteis de artilharia e mísseis balísticos usados contra cidades ucranianas.

    • Transporte rodoviário permite rotas alternativas fora do alcance de drones de reconhecimento;
    • Cargas podem ser fracionadas em caminhões menores, dificultando a identificação de armamentos específicos;
    • Tempos de viagem mais curtos encurtam janelas de interdição por forças aliadas.

    Discurso econômico de Moscou em xeque

    Comércio bilateral não justifica investimento

    A narrativa oficial russa sustenta que a ponte reforçará o intercâmbio comercial e impulsionará o turismo. Dados alfandegários, porém, contam outra história: o comércio formal entre os dois países somou escassos US$ 34 milhões em 2024, valor incapaz de amortizar a obra em horizontes razoáveis. Já o fluxo turístico mantém-se reduzido. No ano passado, apenas 10 mil russos obtiveram vistos para visitar a Coreia do Norte, quase todos em pacotes rigidamente controlados.

    Questionado sobre o custo-benefício, o ministro dos Transportes Andrei Nikitin limitou-se a dizer que “infraestruturas se pagam no longo prazo” e que a ponte “trará oportunidades ainda invisíveis”. Analistas ocidentais enxergam aí um eufemismo para “cooperar no campo militar sem chamar atenção”.

    Ponte entre Rússia e Coreia do Norte acirra temor de corredor bélico e preocupa Ucrânia - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Parceria Moscou-Pyongyang sob escrutínio internacional

    Possíveis impactos na duração da guerra

    O apoio norte-coreano a Moscou vem crescendo desde que Vladimir Putin visitou Pyongyang em 2024, ocasião em que os dois líderes assinaram acordos que incluem assistência técnico-militar. A entrega de projéteis calibre 122 mm e 152 mm — compatíveis com obuses soviéticos em uso no front russo — já foi documentada por serviços secretos ocidentais.

    Diplomatas europeus temem que a ponte fixe um corredor terrestre capaz de fornecer estoques constantes a um exército que dispara, segundo estimativas da Otan, até 10 mil cartuchos de artilharia por dia. A mesma via poderia levar de volta à Coreia do Norte petróleo russo e tecnologia espacial, dois ativos estratégicos para o regime de Kim Jong-un.

    Enquanto isso, Washington, Seul e Tóquio discutem medidas de sanção adicionais ao círculo de empresas russas envolvidas na construção. O Departamento de Estado dos EUA já sinalizou que podem ser aplicadas restrições financeiras a construtoras e bancos que facilitem a passagem de material bélico.

    O Kremlin nega qualquer transferência de armas proibidas e sustenta que “a cooperação com Pyongyang respeita o direito internacional”. Na ONU, porém, o tema enfrenta impasse: Rússia e China, membros permanentes do Conselho de Segurança, têm poder de veto sobre novas punições.

    No terreno, a Ucrânia prepara resposta assimétrica. Fontes do Ministério da Defesa em Kiev afirmam que ataques a depósitos de munição na região de Primorsky, extremo-leste russo, “não estão fora de cogitação” se a ponte entrar em operação militar. Analistas lembram que drones de longo alcance ucranianos já atingiram alvos a mais de 1.000 km da fronteira nos últimos meses.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.