Brasília — Investigações da Polícia Federal indicam que o ex-presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) Alessandro Stefanutto recebeu propina de forma recorrente para favorecer fraudes contra aposentados e pensionistas. Segundo a corporação, os valores — entregues em espécie, cheques ou transferências — eram disfarçados em mensagens com termos como “pendrive” ou “encomenda”.
Pagamentos subiram para R$ 250 mil mensais
De acordo com o inquérito, Stefanutto passou a receber mesadas de até R$ 250 mil depois que assumiu a presidência do instituto. A PF rastreou os repasses por meio de conversas de integrantes da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), apontada como operadora dos descontos ilegais.
Nas anotações internas da entidade, o ex-presidente era identificado como “Italiano”. Pelo menos 47 pessoas, incluindo Stefanutto, foram indiciadas. Ele nega qualquer irregularidade.
Entregas em hotéis de São Paulo
Mensagens interceptadas revelam encontros fora da agenda oficial em 2022, marcados “no final da noite” ou “madrugada” em hotéis paulistanos, entre eles o Hotel Hudson, no Itaim Bibi. Parte das reuniões teria contado com a presença do então ministro do Trabalho José Carlos Oliveira, tratado nos diálogos como “Abou yasser”.
Espécie, cheques e pix
Além de pacotes com R$ 50 mil ou R$ 100 mil, a PF identificou:
- cheque de R$ 250 mil registrado em outubro de 2022;
- transferências pix a um escritório de advocacia e a uma pizzaria, a Delícia Italiana Pizzas, que recebeu R$ 900 mil entre junho e agosto de 2024;
- pagamentos de R$ 1,5 milhão a uma imobiliária entre novembro de 2023 e abril de 2024.
Em áudio de janeiro de 2023, um operador afirma que “o Italiano não dá para ser TED” e menciona a entrega de cheques. Extratos anexados ao processo mostram repasses a partir de contas de empresas ligadas à Conafer.
“Peça institucional” do esquema
Para a PF, Stefanutto era “peça institucional de sustentação” do grupo criminoso desde 2017, usando a função pública para garantir “blindagem regulatória” e permitir descontos previdenciários indevidos. O valor pago a ele teria saltado de R$ 50 mil para R$ 250 mil mensais após sua nomeação para a presidência do INSS.
Imagem: Brenno Carvalho
Os investigadores afirmam que o ex-presidente usou uma “complexa estrutura de ocultação patrimonial”, com escritórios de advocacia, imobiliária e empresas de fachada, para lavar o dinheiro obtido.
Relação próxima com operador
Conversas de março de 2024 mostram o operador de propina oferecendo a familiares o contato de Stefanutto para serviços de cidadania italiana “de graça”. Em outra troca de mensagens, o ex-presidente chama o dirigente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, de “rei”.
Segundo a PF, não restam dúvidas de que os recursos saíram diretamente da Conafer, “ou seja, dos aposentados e pensionistas do INSS que tiveram os descontos indevidos”.
Com informações de O Globo