Morre Paulo Roberto Teixeira, arquiteto da resposta brasileira ao HIV/Aids

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    O médico sanitarista Paulo Roberto Teixeira, uma das figuras centrais na criação das políticas de enfrentamento ao HIV/Aids no Brasil, morreu neste sábado, 19 de setembro de 2026, aos 77 anos. A família não informou a causa do falecimento.

    Teixeira foi responsável por iniciativas que transformaram a forma de lidar com a epidemia: em 1983, chefiou o primeiro programa governamental dedicado à Aids na América Latina, concebido na Secretaria de Saúde de São Paulo. A partir dali, balizou a estratégia nacional que colocou o país entre os exemplos globais no acesso gratuito a tratamento antirretroviral.

    Primeiro programa da América Latina nasceu em meio ao pânico moral

    No início dos anos 1980, as descobertas científicas sobre o HIV eram escassas, e o medo se misturava ao preconceito contra homens gays e bissexuais, erroneamente tratados como únicos vetores da infecção. Foi neste cenário que Teixeira, então na direção da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) paulista, articulou uma resposta baseada em três eixos considerados inovadores: atendimento especializado, informação de qualidade e defesa intransigente dos direitos humanos.

    O modelo desenhado na capital paulista previa centros de referência, testagem sigilosa, distribuição de preservativos e acolhimento multiprofissional. Mais tarde, essas diretrizes seriam incorporadas pelo Ministério da Saúde e replicadas em outras capitais brasileiras, além de inspirar gestores de países vizinhos.

    Combate ao estigma virou parte da política pública

    Teixeira defendia que o sucesso sanitário dependia de desmontar mitos que isolavam pessoas vivendo com HIV. Para isso, aproximou o poder público de organizações da sociedade civil e de movimentos LGBT, garantindo espaços de participação social na formulação das ações. A estratégia ajudou a reduzir o “pânico moral” que, à época, afugentava pacientes dos serviços de saúde e perpetuava erros de diagnóstico.

    Do gabinete do Ministério da Saúde à Organização Mundial da Saúde

    No começo dos anos 2000, o sanitarista assumiu o comando do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, cargo em que consolidou linhas de financiamento para ampliar a rede de testagem e tratamento. Em seguida, tornou-se diretor do Departamento de HIV/Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS) e atuou como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), levando a experiência brasileira para fóruns internacionais.

    Sob sua gestão no governo federal, o país fortaleceu parcerias com laboratórios públicos para produzir antirretrovirais no território nacional, barateando custos e assegurando abastecimento contínuo. No palco global, advogou pela quebra de patentes de medicamentos essenciais, posicionando-se a favor de licenças compulsórias em situações de emergência.

    Advocacia pelo acesso universal a medicamentos

    A consolidação, em 1996, da lei que garante tratamento gratuito a todas as pessoas com HIV pelo Sistema Único de Saúde teve participação direta de Teixeira. Ele articulou estudos que demonstravam o impacto epidemiológico e econômico da oferta ampla de antirretrovirais, ajudando a convencer parlamentares e autoridades sanitárias.

    Desde então, o Brasil mantém uma das maiores políticas de distribuição gratuita de antirretrovirais do mundo, citada pela ONU como referência em saúde pública. Para o sanitarista, o acesso universal era também um imperativo ético: “Sem dignidade, não existe saúde”, costumava afirmar em conferências.

    Morre Paulo Roberto Teixeira, arquiteto da resposta brasileira ao HIV/Aids - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Repercussão: notas de pesar e homenagens

    O Ministério da Saúde divulgou nota afirmando que a trajetória de Paulo Roberto Teixeira “fortaleceu o SUS e garantiu a milhares de pessoas cuidado integral e respeito”. A Fundação Oswaldo Cruz, por meio do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, descreveu o médico como “humanista incansável e um dos arquitetos fundamentais da resposta brasileira ao HIV/Aids”.

    Colegas também se manifestaram. O psiquiatra Táki Cordás, da Faculdade de Medicina da USP, declarou sentir “imensa dor pela perda de um grande médico humanista”. Redes de profissionais de saúde pública compartilharam relatos sobre a influência de Teixeira em suas formações, citando-o como mentor na integração entre clínica, epidemiologia e direitos humanos.

    Números da epidemia no Brasil contextualizam legado

    Dados do DataSUS mostram que, entre 1982 — ano dos primeiros registros de infecção no país — e o fim de 2024, 1,6 milhão de brasileiros tiveram diagnóstico de HIV. Desse total, 1,1 milhão evoluíram para Aids, e 402 mil morreram por complicações relacionadas à doença. O índice de mortalidade caiu de forma sustentada após 1996, período em que os antirretrovirais passaram a ser distribuídos gratuitamente.

    Especialistas apontam que a curva descendente de óbitos se deve não apenas aos medicamentos, mas também ao modelo de atenção inaugurado por Teixeira, que integrou prevenção, assistência e ações comunitárias. “Ele deixou um roteiro pronto; cabe a nós atualizá-lo diante dos novos desafios, como a ampliação da profilaxia pré-exposição”, resume a epidemiologista Ana Tereza Roubaud, da UFRJ.

    Perspectivas para a política de HIV/Aids sem seu principal formulador

    Embora novas tecnologias, como injeções semestrais de longa duração, estejam próximas de chegar ao SUS, especialistas alertam que o avanço depende de manter o mesmo compromisso social defendido por Teixeira há quatro décadas: informar sem moralismo, garantir insumos e preservar direitos. A virologista Marta de Almeida, da Fiocruz, afirma que “a melhor homenagem é assegurar que ninguém seja deixado para trás”.

    Paulo Roberto Teixeira deixa mulher, três filhos, netos e uma geração de profissionais que cresceram sob sua influência. Seu velório será realizado neste domingo (20), no Cemitério da Consolação, em São Paulo, aberto ao público das 9h às 15h.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.