A poucos dias da prometida medida provisória que deve proibir cassinos online e apertar o cerco à propaganda de apostas esportivas, as principais casas de apostas intensificaram a pressão sobre o Palácio do Planalto. O lobby ganhou força com a divulgação de números que apontam investimentos bilionários em publicidade e patrocínio, argumento usado para convencer governo e Congresso de que a restrição pode descapitalizar veículos de comunicação e clubes de futebol.
Em resposta direta às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — que classificou as bets como “doença” e prometeu “acabar” com elas —, o setor passou a circular estudos internos mostrando que, somente em 2025, famílias brasileiras teriam perdido R$ 62,5 bilhões nas plataformas de jogo, mas que parte relevante desse dinheiro retorna ao mercado por meio da cadeia de mídia.
Números bilionários entram em campo
O primeiro conjunto de dados, levantado pela consultoria Tunad, indica um aporte de aproximadamente R$ 1,4 bilhão em propaganda distribuída entre TV aberta, TV paga, rádio e serviços de streaming em 2025. Já um relatório do Itaú Unibanco coloca a cifra total do segmento — somando publicidade tradicional e patrocínio — entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões a cada 12 meses.
Os executivos do ramo de apostas repetem que esse capital viabiliza transmissões esportivas, reality shows e parte da programação jornalística. Segundo estimativas setoriais, emissoras e plataformas de vídeo arrecadam entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,3 bilhões por ano apenas com anúncios de bets. Eles defendem que o vácuo publicitário forçaria concessionárias a rever tabelas comerciais, podendo encarecer planos de streaming e abrir cortes de grade.
Outdoor paulista também entra na conta
Além do universo televisivo, a Kantar Ibope Media calculou R$ 422 milhões em mídia exterior somente na cidade de São Paulo, no período de janeiro de 2024 a junho de 2026. Painéis digitais em grandes avenidas, estações de metrô e abrigos de ônibus viraram vitrines para marcas de apostas, ampliando a visibilidade do segmento e o alcance da futura regulação.
Manifesto do futebol segura patrocínios
A primeira versão da medida provisória circulou na Esplanada com um item que proibia qualquer modal de jogo online. O texto inicial não especificava exceções para os contratos já firmados por clubes de futebol, o que levou dirigentes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, além de federações estaduais, a redigir um manifesto contra a proposta. A pressão surtiu efeito: rascunhos mais recentes mantêm as apostas esportivas operando e garantem continuidade dos patrocínios até o fim dos acordos vigentes.
O recuo parcial, porém, não elimina o temor de perda de receita. Clubes mantêm acordos que ultrapassam a casa dos R$ 500 milhões anuais. Sem as bets, dirigentes argumentam que a receita de TV — hoje pressionada pela fragmentação de direitos de transmissão — não cobriria a lacuna, comprometendo salários, investimentos em base e manutenção de arenas.
Órgãos de defesa do consumidor contestam discurso
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e pesquisadores da área de saúde pública discordam da estratégia ofensiva da indústria. Eles alegam que a regulamentação implementada no fim de 2023 não reduziu a exposição de menores e apostadores vulneráveis, especialmente nas redes sociais, onde influenciadores e ex-atletas promovem plataformas sem critérios etários claros.
Para críticos, o argumento econômico esconde um quadro de endividamento que se alastra. O estudo conduzido pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado (Cicef) calcula que, em 2025, o valor líquido perdido pelos lares brasileiros atingiu R$ 62,5 bilhões — totais apostados já descontados os prêmios pagos. O montante, sustentam, supera os investimentos em publicidade alardeados pelas próprias casas, configurando balanço social negativo.
Lula eleva o tom: “coisa mais horrorosa que já vi”
Em um comício em Guarulhos no último sábado (19), Lula subiu o volume da retórica. “Essa jogatina na internet é uma doença. Se depender de mim, eu vou acabar com essas bets”, afirmou, arrancando aplausos da militância. O discurso reforça a disposição do governo de publicar a medida provisória nas próximas semanas, apesar da resistência empresarial.

Imagem: Internet
Nos bastidores do Planalto, auxiliares próximos admitem que o texto final deve focar na proibição dos cassinos online — modalidade que reúne roletas virtuais e jogos de cartas —, endurecer regras de marketing para as bets esportivas e impor limites mais rígidos ao horário de exibição de anúncios. Também está sobre a mesa a criação de multas escalonadas para quem descumprir exigências de proteção a menores.
Congresso deve ser campo decisivo
Depois de editada, a medida provisória terá 120 dias para ser votada por Câmara e Senado. O período promete ser de forte disputa, já que bancadas da bola, da comunicação e dos governadores — interessados em receitas de ICMS — tendem a contestar qualquer limitação que afete a arrecadação de clubes e redes regionais.
O governo, por sua vez, aposta que o foco em saúde pública e prevenção ao endividamento encontrará eco nas bancadas evangélica e da saúde, tradicionalmente críticas ao jogo. A combinação de argumentos morais e sanitários pode equilibrar a balança diante do poder econômico da indústria de apostas.
Impacto potencial nos consumidores
Embora o debate esteja ancorado em cifras bilionárias, a consequência prática para o público passa por duas frentes. A primeira é o eventual aumento no preço de assinaturas de streaming ou pacotes esportivos caso a verba de anúncios seja suprimida. A segunda, lembrada pelo Idec, é o alívio em pressão de marketing voltado a perfis suscetíveis, algo que ainda depende da efetividade da fiscalização.
Especialistas apontam que nenhum modelo de autorregulação foi capaz de conter a enxurrada de banners dinâmicos e desafios em redes sociais. A aposta do governo é transferir a responsabilidade de bloqueio às próprias plataformas tecnológicas, sob risco de multas diárias. Empresas de mídia reagiram, alegando dificuldade técnica e possível violação de liberdade de expressão publicitária.
Próximos passos
No curto prazo, a expectativa é de que Lula assine a medida provisória ainda em outubro. Assim que o texto chegar ao Congresso, o Planalto deve articular relatoria simpática à ideia de restringir cassinos virtuais, mas aberta a ajustes no capítulo de propaganda esportiva. A estratégia visa evitar derrota semelhante à sofrida pela MP das Apostas, devolvida em 2023 por falta de consenso.
Enquanto isso, as casas de apostas seguirão exibindo tabelas de patrocínio, relatórios de audiência e projeções de cancelamento de contratos. A vitória ou a derrota do setor, entretanto, dependerá menos da robustez das planilhas e mais da capacidade de Lula de transformar indignação pública em maioria parlamentar.
