O acréscimo obrigatório de etanol na gasolina, fixado em 32% desde agosto, virou novo campo de batalha na campanha presidencial de 2026. A mudança, chancelada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) por 180 dias, foi saudada pelo agronegócio, mas rendeu críticas do senador Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Luiz Inácio Lula da Silva.
Enquanto o governo argumenta que a medida pode poupar o país de importar cerca de 900 milhões de litros de gasolina por ano e blindar motoristas da volatilidade do petróleo, o parlamentar a classifica como “reduflação” disfarçada: “se o consumidor paga por gasolina, deve receber gasolina”, declarou em transmissão ao vivo.
Decisão do governo amplia teor de etanol
O Brasil já possuía a maior proporção de biocombustível misturado à gasolina no mundo. A resolução do CNPE elevou temporariamente o percentual de 30% para 32%, com possibilidade de prorrogação por mais seis meses. A autorização baseia-se na Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024, que permite variação de 22% a 35% — patamares acima de 27% dependem de comprovação técnica.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), testes conduzidos em 16 modelos de automóveis e 13 motocicletas atestaram que a formulação a 32% não provoca desgaste mecânico. Novas avaliações de durabilidade serão realizadas antes de qualquer avanço para 35%.
Objetivo: reduzir dependência externa
Ao elevar a parcela de etanol, o governo procura amortecer oscilações do mercado internacional de petróleo e reforçar a transição para combustíveis de baixo carbono. A expectativa oficial é poupar cerca de US$ 700 milhões em importações anuais, além de estimular usinas de cana-de-açúcar e milho.
Reação política e disputas no Congresso
O agronegócio — responsável por 80% da produção nacional de etanol — celebrou a decisão. Seis entidades do setor divulgaram nota rebatendo a analogia de Flávio Bolsonaro à “reduflação”, afirmando que ela “confunde o consumidor e ataca uma política de Estado construída por diferentes governos”. Os dirigentes lembraram que o senador esteve presente na sessão que aprovou, sem voto contrário registrado, a lei que sustenta a nova mistura.
Apesar do constrangimento, dois deputados do PL protocolaram projetos de decreto legislativo para sustar a resolução do CNPE. Até agora, não houve votação. Analistas da consultoria Eurasia Group avaliam que o arcabouço de biocombustíveis desfruta de apoio robusto no Congresso e deve ser preservado, vença quem vencer a eleição. A principal diferença, segundo o especialista Marcelo Alvarenga, é a ênfase de Lula em expandir rotas produtivas e exportar combustíveis sustentáveis, enquanto Bolsonaro sinaliza incentivos sem mexer no teor da gasolina.
Discurso de danos ao motor é contestado
Entidades da indústria automotiva como a AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva) afastam riscos aos veículos. “Os modelos flex foram projetados para operar de 25% a 100% de etanol”, explica Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da associação. A única diferença prática é o ligeiro aumento no consumo, pois o etanol tem densidade energética menor que a da gasolina.
Base legal e caminho para até 35%
A Lei do Combustível do Futuro criou gatilhos para elevar progressivamente a participação de biocombustíveis, prevendo mistura de 35% de etanol e 25% de biodiesel até 2035 — metas dependentes de parecer técnico do CNPE. A regulamentação foi celebrada como peça-chave da estratégia brasileira para cumprir o Acordo de Paris.

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Desde 1975, com o lançamento do Pró-Álcool, o país consolidou o etanol como pilar do transporte leve. O primeiro carro 100% movido a álcool apareceu em 1979, e a virada para motores flex, nos anos 2000, permitiu aos consumidores alternar entre gasolina e etanol conforme o preço.
Força econômica do biocombustível
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos. Dados da BloombergNEF indicam que os investimentos globais em biocombustíveis saltaram 62% no primeiro semestre de 2026, alcançando US$ 7,7 bilhões; a América Latina respondeu por 58% desse montante, impulsionada quase exclusivamente pelo mercado brasileiro.
O incremento de capital se soma à safra recorde de cana em São Paulo e à expansão do etanol de milho no Centro-Oeste, fortalecendo a cadeia de 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos. Para usineiros, o blend maior cria demanda adicional equivalente a 600 mil toneladas de cana ou 200 mil toneladas de milho por ano.
Benefício climático em xeque
Os biocombustíveis são considerados neutros em carbono porque o CO₂ emitido na queima foi previamente capturado pelas plantas. Entretanto, a vantagem desaparece se a matéria-prima provocar desmatamento ou deslocar atividades agrícolas para novas áreas. Organizações ambientais cobram monitoramento rígido para que a expansão não pressione biomas como Amazônia e Cerrado.
Cenário eleitoral: risco ou continuidade?
A retórica de Flávio Bolsonaro tem apelo popular ao associar mistura maior a possível perda de desempenho no tanque, mas especialistas veem margem limitada para retrocessos. “O consenso parlamentar foi construído ao longo de décadas em torno de segurança energética e geração de renda no interior”, diz Alvarenga, da Eurasia.
Na prática, qualquer tentativa de reduzir o teor de etanol exigiria nova deliberação do CNPE ou alteração legislativa, enfrentando forte lobby de usinas e de montadoras que investiram em motores flex. Por outro lado, uma vitória de Lula tende a acelerar projetos de etanol de segunda geração, diesel verde e combustível sustentável de aviação, segmentando novos mercados externos.
Próximos passos
- Até fevereiro de 2027 – prazo inicial para vigência da mistura a 32%, com possibilidade de extensão por mais seis meses.
- Segundo semestre de 2027 – conclusão de testes de durabilidade para eventual elevação a 35%.
- 2035 – meta prevista de 35% de etanol e 25% de biodiesel na matriz de combustíveis automobilísticos.
Entre a necessidade de conter a alta dos derivados de petróleo e a disputa por votos, o aumento da mistura de etanol expõe como a política energética brasileira se tornou inseparável do tabuleiro eleitoral. A decisão final sobre manter, ampliar ou reduzir o percentual caberá ao próximo governo — mas, pelo histórico de apoio multipartidário, o biocombustível parece ter vindo para ficar nos tanques e nos debates.
