O tremor que impediu o menino Fellipe Mello Negrisoli, 12, de terminar uma prova escolar foi o ponto de virada para descobrir que a esclerose múltipla (EM) pode atacar muito antes da vida adulta. Um mês depois, o líquor confirmava a presença de bandas oligoclonais, marcador típico da doença, e o tratamento com ocrelizumabe passou a conter novos surtos. Episódios como o dele reforçam o alerta de especialistas: identificar precocemente a EM em crianças é crucial para evitar sequelas permanentes.
Embora a palavra “esclerose” costume ser associada ao envelhecimento, a EM não escolhe idade. Segundo a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), de 3% a 5% dos diagnósticos surgem antes dos 18 anos. Com medicamentos mais eficazes e menos agressivos, esses pacientes podem ter evolução controlada, mantendo rotina escolar, esportes e vida social.
A doença deixou de ser sentença
O que acontece no organismo
A esclerose múltipla é uma enfermidade autoimune e inflamatória que produz cicatrizes (escleroses) no cérebro e na medula espinhal. O ataque do próprio sistema imunológico destrói a mielina, capa protetora dos neurônios, e interrompe a transmissão dos impulsos elétricos. O resultado pode ser perda de equilíbrio, formigamento, visão turva, fadiga ou dificuldades de memória e raciocínio.
Graças a protocolos atualizados, a imagem de pacientes presos a cadeiras de rodas deixou de refletir a realidade de boa parte dos casos. “Temos drogas mais potentes, de aplicação simples e seguras para crianças, que reduzem surtos e retardam progressão”, explica a neurologista pediátrica Renata Paolilo, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP.
Quando a esclerose chega na infância
Percentual de casos pediátricos
Dados internacionais apontam 2,9 milhões de pessoas vivendo com EM no planeta; no Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem) estima 40 mil. Embora mulheres entre 20 e 40 anos concentrem a maioria das notificações, estudos da Fundação Integrada de Diagnóstico (Fidi) mostram que 25% dos laudos de ressonância magnética positivos entre janeiro e junho de 2026 ocorreram fora da faixa adulta convencional, incluindo adolescentes.
Sintomas que acendem o alerta
Os sinais em crianças reproduzem o quadro do adulto, mas podem confundir pais e médicos de primeiro contato. Alterações visuais, desequilíbrio, fraqueza em um lado do corpo, dormência nas mãos ou pés, fadiga intensa e dificuldade para se concentrar merecem avaliação neurológica quando duram mais de 24 horas ou se repetem em episódios espaçados.
Manuela Fragomeni, coordenadora do Departamento de Neuroimunologia da SBNI, reforça que qualquer elo da cadeia de atendimento – pediatra, oftalmologista, ortopedista ou pronto-socorro – deve pensar em EM diante de sintomas neurológicos sem causa óbvia. “Quanto menos tempo entre o primeiro surto e o início da medicação, menor o risco de incapacidade futura”, afirma.
Caminho até o diagnóstico
Papel da ressonância magnética
A confirmação da esclerose múltipla combina história clínica, exame neurológico, ressonância magnética (RM) e, em muitos casos, análise do líquor. Segundo o radiologista Harley De Nicola, superintendente médico da Fidi, não basta flagrar lesões: é preciso localizar cicatrizes típicas e acompanhar se novas aparecem em momentos diferentes – critério que caracteriza disseminação no tempo e no espaço.

Imagem: Internet
Nosso protagonista, Fellipe, realizou quatro RMs até que a inflamação na medula espinhal se tornasse evidente. O atraso é frequente quando o sintoma inicial é vago, como formigamento ou dor. A recomendação é repetir o exame poucos meses depois, caso persista a suspeita, porque marcas microscópicas podem não surgir na primeira imagem.
Novas terapias mudam o prognóstico
Acesso pelo SUS e judicialização
Décadas atrás, os únicos recursos eram corticoides e interferons – drogas úteis, porém incapazes de impedir a progressão em todos os casos. Hoje, agentes biológicos como ocrelizumabe, natalizumabe e fingolimode oferecem maior potência com esquema de infusões semestrais ou comprimidos diários, algo mais palatável para o público infantil.
No entanto, a incorporação desses medicamentos no Sistema Único de Saúde ainda não acompanha a velocidade dos avanços. A família de Fellipe precisou recorrer à Justiça depois que o convênio privado negou cobertura. A liminar saiu, e as duas primeiras doses garantiram remissão desde abril. Situações semelhantes se repetem em todo o país e, segundo entidades de pacientes, colocam em risco crianças que poderiam estar estáveis.
Vida escolar e qualidade de vida
Chegar a um regime de tratamento consistente é só parte da equação; a outra envolve suporte psicossocial. Na escola, professores precisam entender que crises de fadiga ou visão dupla podem exigir adaptações como tempo extra em avaliações e intervalos para repouso. Atividade física regular, alimentação equilibrada e rotina de sono são aliados tanto no controle da doença quanto no desenvolvimento global da criança.
“Nosso objetivo é que o aluno com EM participe de tudo, sem carga de superproteção”, defende Paolilo. Fellipe confirma: “Sigo brincando, indo para a aula, jogando videogame. Só não gosto de falar muito sobre a doença, porque as pessoas não entendem direito.” O depoimento ilustra que informação clara e empática é fundamental para quebrar o estigma ainda presente em parte da sociedade.
No Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, celebrado em 30 de agosto, neurologistas reforçam a mensagem: doença detectada cedo, aliada a terapias de última geração, significa alto grau de autonomia na vida adulta. O desafio agora é estender essa realidade a todos, independentemente de idade, endereço ou condição socioeconômica.
