Um ano depois de pendurar a carteira profissional, a ex-funcionária pública Lucimara Camargo, de 54 anos, descobriu no próprio carro uma nova ocupação: transportar e acompanhar idosos que precisam se deslocar sem a ajuda de parentes. O trabalho, descrito por ela como o de uma “filha de aluguel”, virou renda extra e, sobretudo, uma rede de afeto para quem se sente só em Itu, no interior paulista.
O serviço atende, principalmente, famílias que trabalham em horário comercial e não conseguem acompanhar pais ou avós a consultas médicas, fisioterapia, missas, compras e demais compromissos. Pelo WhatsApp, filhos agendam com antecedência a hora e o local; na data marcada, a aposentada busca o passageiro, ajuda a entrar e sair do veículo e permanece ao lado dele durante todo o percurso.
De aposentada a motorista de confiança
Lucimara transformou a empatia que sempre teve pelos mais velhos em uma atividade remunerada poucos meses depois de deixar o emprego formal. A decisão ocorreu, segundo relata, ao perceber que muitos idosos ficam presos em casa por falta de quem os conduza com segurança. “Não sou cuidadora clínica; sou acompanhante. Minha função é garantir que o trajeto aconteça com tranquilidade”, explica.
A rotina começa cedo. Entre um compromisso e outro, ela adapta o itinerário conforme a agenda do cliente: médico, banco, supermercado, igreja ou mesmo um passeio ao shopping. Quando a família prefere, a viagem é feita no próprio automóvel do idoso; se não, o carro de Lucimara está sempre à disposição. Ela frisa que não presta atendimento emocional estruturado, mas a convivência diária abre espaço para conversas que amenizam a solidão de muitos passageiros.
Como funciona o atendimento
- Agendamento pelo WhatsApp com data, horário, destino e eventuais necessidades especiais.
- Chegada antecipada para auxiliar na locomoção do idoso da porta de casa até o veículo.
- Acompanhamento presencial em exames, consultas ou compras, evitando que o passageiro espere sozinho.
- Retorno ao lar, novas instruções à família e confirmação de que tudo transcorreu bem.
A ex-servidora conta que cada percurso exige paciência dobrada na hora de acomodar bengalas, andadores ou cadeiras dobráveis. “A maior parte dos meus clientes ensina lições de vida enquanto seguimos viagem. Escutar faz parte do pacote”, diz.
Quando o vínculo vai além do contrato
Entre as passageiras fixas está Antonia de Campos, de 75 anos, que recorre ao serviço há uma década. Com os dois filhos morando em Madri, a pensionista viu em Lucimara a presença diária que faltava. “Ela me acompanha a eventos, à igreja e, se preciso, senta para tomar um café quando bate o nervosismo”, relata Antonia. “Virou uma filha do coração. Confio a ela meus segredos.”
A convivência prolongada resultou em cumplicidade mútua. Para Antonia, a presença constante da acompanhante garante autonomia e segurança; para Lucimara, a troca reforça a percepção de que o trabalho vai além do transporte. “Muitas vezes quem entra no meu carro está carente de atenção. Faço questão de acolher, porque sei o quanto esse gesto importa”, comenta.
Empatia como ferramenta de trabalho
Escuta ativa, leveza no diálogo e respeito ao ritmo de quem já ultrapassou a casa dos 70 anos são, segundo a própria motorista, os pilares do serviço. Ela observa que os idosos tendem a se abrir com quem demonstra paciência genuína. “Exercitamos altruísmo e dedicação a cada corrida. Há quem precise apenas de cinco minutos para contar uma história da juventude e sair renovado”, destaca.
Lucimara lembra que, na maioria das vezes, o contratante é o filho adulto que vive entre reuniões e prazos. A eles, ela envia mensagens após cada compromisso, confirmando horários e eventuais orientações médicas recebidas durante a consulta. “A família fica tranquila, e o idoso percebe que não foi deixado de lado”, resume.

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Rotina sob medida para cada cliente
Embora o foco seja o deslocamento, o atendimento personalizado faz diferença na hora de fidelizar clientes. Há quem contrate a ex-servidora apenas para idas ao mercado uma vez por semana; outros solicitam acompanhamento diário. O valor cobre combustível, tempo de espera e apoio na locomoção, compondo a renda que complementa a aposentadoria de Lucimara.
A motorista reforça que não substitui profissionais da saúde, mas faz questão de observar sinais de cansaço ou dificuldade motora ao longo do dia. Caso perceba algo incomum, avisa imediatamente os familiares. “O importante é que a pessoa volte para casa melhor do que saiu”, pontua.
Segurança e confiança como prioridades
Para tranquilizar as famílias, Lucimara mantém cópias da própria documentação, carteira de habilitação atualizada e comprovantes de endereços à disposição de quem contrata. Também faz questão de apresentar referências de clientes antigos quando necessário. “A confiança precisa ser recíproca. Eles depositam em mim um patrimônio afetivo que não tem preço”, afirma.
A profissional evita assumir rotas conflitantes no mesmo horário para garantir exclusividade a cada passageiro. Caso surja uma demanda emergencial, negocia a agenda ou indica colegas de confiança. “Não adianta aceitar mais do que consigo atender bem”, observa.
A arte de estar presente
Ao olhar no retrovisor, Lucimara enxerga mais do que quilômetros percorridos. Cada história compartilhada no banco de trás reforça a convicção de que o afeto é peça central do serviço. “Idosos têm muito a oferecer. O mínimo que posso fazer é retribuir com atenção verdadeira”, conclui.
Nas ruas de Itu, a motorista que trocou o crachá pelo GPS segue conectando trajetos e corações — um compromisso de segunda a segunda, sempre à velocidade da empatia.
