O medo de assaltos, homicídios e da presença ostensiva do crime organizado transformou-se no principal filtro usado por milhares de baianos que não se alinham a partidos nem a candidatos fixos. Em bairros históricos de Salvador e no centro comercial de Camaçari, moradores e comerciantes relatam como a rotina é planejada para evitar riscos, e explicam que a opção nas urnas depende, antes de tudo, de quem apresentar respostas críveis para esse cotidiano de tensão.
As conversas colhidas pela série “Voto Pendular”, do Jornal da Globo, mostram um eleitorado frustrado com velhas promessas e disposto a oscilar entre legendas se surgir alguém capaz de articular segurança, educação e desenvolvimento econômico. O retrato, ainda que regional, ajuda a entender por que a violência aparece desde janeiro de 2025 como a maior preocupação nacional nos levantamentos da Quaest.
Salvador: medo a poucos passos do cartão-postal
Pelourinho dividido entre turistas e moradores
No Centro Histórico de Salvador, a forte presença policial garante ambiente tranquilo para quem fotografa igrejas e casarios. Mas basta avançar alguns quarteirões para que o cenário mude. A líder comunitária Sandra Regina chama a área onde vive de “periferia do Centro”: ruas apertadas, imóveis antigos em disputa por regularização fundiária e quase nenhum patrulhamento.
O contraste pesa na hora do voto. Sandra afirma que só apoia candidatos que defendam moradia digna, escolas de qualidade e acesso seguro às ruas. Ela declara alternar seus escolhidos a cada eleição como forma de pressionar resultados: “O poder não pode ficar concentrado. Se não funciona, troco”.
Famílias trancadas em casa após o expediente
A costureira Narjara Barbosa personifica o medo que não cessa ao cair da noite. Todos os dias, espera a filha chegar do trabalho perto das 23 h, contando minutos ao telefone até ouvir o portão. Grades nas janelas, cachorro no quintal e a constatação de que a mesma patrulha que protege turistas jamais sobe a ladeira onde ela mora.
Questionada sobre solução, Narjara recusa armas ou mais confronto. Para ela, a chave é educação integral, arte e ofícios que ocupem adolescentes: “Quando a família não abraça, a rua abraça da pior forma”. A percepção ecoa nos dados que colocam a Bahia como segundo estado com maior taxa de homicídios do país – e Salvador, a capital hoje mais violenta.
Música contra o recrutamento do crime
Nascido no Pelourinho, o percussionista Ivan Santana usa tambores para afastar jovens do tráfico há 45 anos. Ao lado da esposa, a também musicista Ivaniria Sousa, ele condiciona a participação nos ensaios à assiduidade escolar. Vários ex-alunos atingiram blocos de Carnaval e grupos internacionais, prova de que cultura e oportunidade freiam a violência, dizem.
Para os entrevistados, programas desse tipo deveriam receber o mesmo destaque que viaturas nas ruas. “Segurança, educação e respeito vêm no mesmo pacote”, resume Narjara. A visão reforça conclusão do diretor da Quaest, Felipe Nunes: eleitores associam criminalidade a um conjunto de carências, não a um problema isolado.
Camaçari: o impacto direto nos negócios
Comércio encurtando jornada por causa dos assaltos
A 50 km da capital, Camaçari vive explosão industrial e logística, mas também virou rota de facções que disputam portos, estradas e galpões. No calçadão central, o sapateiro Geraldo Kaleb trabalha com dois celulares: o pessoal e o “do ladrão”. A tática – entregar um aparelho barato para preservar a vida – tornou-se comum entre lojistas.
Nas ruas onde o expediente começava às 7 h, muitas portas agora só se erguem depois das 8 h30. “Fechamos às 18 h para não correr”, relata Carlos Henrique Freitas, dono de uma loja de construção que sente vendas minguarem quando a clientela evita o crepúsculo. Já a comerciante de roupas Adriana Mendes teme não apenas o caixa, mas a liberdade de circular sozinha à noite e o futuro dos filhos adolescentes.

Imagem: Internet
Insegurança mina confiança na política
Entre os três comerciantes, o sentimento dominante é descrédito. Falta de projetos consistentes, incapacidade de medir resultados e escândalos sucessivos alimentam a descrença. “Os políticos estão desacreditados porque a gente não vê mudança”, dispara Carlos. Geraldo admite não saber em quem votar a poucas semanas do pleito, e Adriana alterna esperança e desalento: “Otimista porque não dá para perder a fé; pessimista quando vejo certas práticas no meio político”.
Para Felipe Nunes, trata-se de um “medo econômico”: além do risco físico, existe temor de falência. Quando o eleitor percebe que a violência ameaça o negócio familiar, a disposição de mudar de candidato cresce – fenômeno que pode alterar o mapa eleitoral nas regiões metropolitanas.
Programas sociais: ajuda necessária, mas insuficiente
Pela primeira vez na série, benefícios federais como o Bolsa Família surgiram de forma espontânea em quase todas as falas. Moradores reconhecem o alívio imediato, mas deixam claro que transferência de renda não substitui emprego formal, formação escolar e policiamento territorial. Sandra Regina, que vive da assistência e do trabalho voluntário, resume: “É bom, mas não resolve tudo”.
O orgulho do próprio esforço se mistura ao desejo de autonomia. Narjara, por exemplo, instalou máquinas de costura em casa e fabricou máscaras durante a pandemia para evitar fome e despejo. Agora quer retomar o plano de cursar Design de Moda após ter conseguido nota suficiente no Enem.
Capital x interior: dois comportamentos eleitorais
Embora o PT governe a Bahia há quase 20 anos e vença eleições presidenciais com folga no estado, Salvador jamais foi administrada pela sigla. Nas nove capitais nordestinas, sete são comandadas por partidos fora da coligação petista. Para Nunes, a diferença expõe duas lógicas: no interior e em cidades médias, o voto costuma seguir programas sociais e lideranças locais; nas metrópoles, a pauta urbana – transporte, emprego e, sobretudo, segurança – pesa mais e fragmenta preferências.
A reportagem indica que, se o tema violência continuar no topo da lista de preocupações, o comportamento de Salvador pode contagiar redutos antes considerados estáveis. Afinal, lembra Renata Lo Prete, o eleitor pendular é aquele que decide na reta final, guiado por preocupações concretas e imediatas.
O que pode definir o próximo voto
- Compromissos objetivos com policiamento e inteligência contra facções;
- Planos claros para ampliar vagas em escolas de tempo integral;
- Incentivos a projetos culturais e profissionalizantes nos bairros;
- Medidas de apoio a pequenos negócios ameaçados pela criminalidade;
- Transparência e prestação de contas para resgatar a confiança.
Se nenhum candidato apresentar propostas que dialoguem com esses pontos, o risco, segundo pesquisadores, é crescer o abstencionismo ou o voto de protesto. Mas, caso alguém consiga articular segurança pública com oportunidades sociais, poderá conquistar um contingente decisivo de eleitores independentes que, da capital ao interior, esperam muito mais do que promessas genéricas para dormir com menos preocupações e abrir a loja sem receio na manhã seguinte.
