Seis integrantes da Torcida Uniformizada Os Imbatíveis (TUI) permanecerão atrás das grades por decisão da Justiça baiana. Eles são apontados como participantes diretos da emboscada que terminou na morte de José Alexandre Souza Borges, de 28 anos, membro da Bamor, no domingo (23), véspera do clássico Ba-Vi. A audiência de custódia, realizada nesta terça-feira (25), converteu o flagrante em prisão preventiva ao considerar a gravidade do delito e o risco de novos confrontos.
O juiz Horácio Moraes Pinheiro classificou o ataque como “planejado e violento”, citando laudo que constatou nove perfurações por arma branca – seis nas costas e três na cabeça – além de afundamento craniano na vítima. A autoridade também destacou que o grupo cercou os rivais usando dois carros para bloquear a via, portava facas, socos-ingleses e artefatos explosivos, e ainda houve disparos de arma de fogo contra a polícia durante a fuga.
Quem são os detidos e de que crimes respondem
Os suspeitos tiveram a identidade confirmada pela polícia: Caíque Santos Chaves, Guilherme Maia da Luz, Marcos Vinicius Costa Magalhães, Neithan Oliveira dos Santos, Sérgio Gabriel Reis dos Santos e Tiago Franco Barbosa Lima Silva. Eles responderão por homicídio doloso qualificado consumado e tentado, além de porte de artefatos explosivos, tumulto e violência em contexto de torcidas organizadas.
Marcos Vinicius foi reconhecido por vítimas como um dos autores das facadas e já possui condenação por tráfico de drogas. Os demais, embora não identificados nos golpes, estavam no grupo capturado a poucos metros da cena do crime, vestiam roupas com manchas de sangue e carregavam instrumentos usados nos ataques.
Indícios que fundamentaram a decisão
- Bloqueio deliberado da via com dois veículos para isolar a vítima.
- Superioridade numérica do grupo agressor, caracterizando emboscada.
- Posses de facas, socos-ingleses e explosivos artesanais.
- Roupas sujas de sangue e proximidade imediata do local do crime.
- Disparos contra policiais, indicando disposição para confronto armado.
Sétimo detido por material bélico
Em procedimento separado, a Justiça converteu também em preventiva a prisão de um sétimo integrante da TUI, flagrado com barras de ferro, rojões, canivetes e faixas na Avenida Afrânio Peixoto, bairro do Lobato. Ele admitiu transportar o arsenal para um possível confronto, mas, até o momento, não foi vinculado ao homicídio de Borges.
Outra morte sob escrutínio
A mesma tarde violenta deixou mais uma vítima: Lucas dos Reis Bonfim, 19 anos, baleado no bairro Castelo Branco. A Polícia Civil ainda não encontrou elementos que liguem esse assassinato ao caso principal, mas a família sustenta que o jovem saiu de um encontro da Bamor para ver a confusão na Via Regional e acabou alvejado. O corpo foi sepultado nesta terça-feira (25) no mesmo cemitério onde Borges foi enterrado um dia antes.
Defesa, clubes e autoridades reagem
Versão do advogado
A defesa de Caíque Santos Chaves negou participação do cliente em qualquer ato de violência. Segundo nota, correr para se proteger em meio ao tumulto “não o torna homicida” e a inocência será provada no curso da ação penal.
Posicionamento das torcidas
- Bamor declarou luto e cobrou justiça.
- TUI lamentou a morte, disse ter repassado à polícia seus itinerários antes do clássico e pediu investigação rigorosa.
Clubes e federação
Bahia e Vitória repudiaram a violência. O Bahia manifestou solidariedade às famílias e exigiu punição exemplar; o Vitória afirmou que ações criminosas “não representam o clube”. A Federação Bahiana de Futebol também condenou o episódio.
Secretaria de Segurança Pública
O secretário Marcelo Werner classificou a atuação das torcidas organizadas como “barbárie” e defendeu repensar a existência desses grupos diante da repetição de atos violentos.

Imagem: integrantes de torcida organizada
Por que a manutenção da prisão é vista como estratégica
A decisão judicial sublinha que parte dos envolvidos permanece foragida e que a liberdade dos seis acusados poderia atrapalhar buscas e intimidar testemunhas. Para o magistrado, a emboscada mostrou capacidade de planejamento, poder bélico e disposição para confrontar inclusive policiais, fatores que tornariam insuficientes medidas alternativas como tornozeleira eletrônica ou comparecimento periódico ao fórum.
Impacto no calendário esportivo
Embora a partida Ba-Vi tenha transcorrido sob reforço policial, a escalada de violência levanta discussões sobre restrição de público visitante e ações mais duras contra torcidas organizadas. O MP-BA acompanha as investigações e promete apresentar propostas de segurança em eventos esportivos.
Próximos passos da investigação
- Coleta de imagens adicionais de câmeras públicas e privadas.
- Laudos periciais nos artefatos explosivos e armas brancas apreendidas.
- Depoimentos de testemunhas protegidas e análise de comunicação entre integrantes da TUI.
- Identificação e possível prisão dos atiradores que dispararam contra a PM.
- Confronto balístico para elucidar o assassinato de Lucas Bonfim.
Contexto histórico de confrontos
Confrontos entre as duas torcidas rivais já resultaram em diversas ocorrências policiais na capital baiana nos últimos anos. Bombas caseiras, depredação de ônibus e emboscadas em saídas de estádio tornaram-se frequentes, levando o Batalhão Especializado em Policiamento de Eventos (Bepe) a mapear deslocamentos de grupos antes dos clássicos. Mesmo assim, o episódio de domingo expôs falhas na contenção de atos previamente anunciados.
Debate sobre legislação
Especialistas defendem endurecer a Lei Geral do Esporte, que prevê punições às torcidas organizadas, incluindo suspensão de atividades e proibição de frequentar estádios. Parlamentares da bancada baiana já sinalizam que apresentarão propostas para ampliar as sanções.
Sentimento das famílias
No velório de José Alexandre, parentes cobraram respostas rápidas. A esposa, Gabriele Vasconcelos, disse temer que o filho cresça sem conhecer “o lado incrível” do pai. Do outro lado da cidade, a mãe de Lucas Bonfim descreveu a cena do crime como “estarrecedora” e questionou como o lazer do futebol passou a representar risco de morte.
O que vem a seguir
Com a prisão mantida, o inquérito deve ser concluído em até 30 dias. O Ministério Público avaliará a denúncia formal e, se acolhida, os acusados irão a júri popular. Até lá, a polícia tenta localizar cúmplices e apreender armas ainda em circulação. O resultado dessas diligências será determinante para frear a escalada de violência que, mais uma vez, manchou o futebol baiano de sangue.
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