Uma parceria entre usina, transportadora, operadora ferroviária e produtora de gás renovável colocou na estrada, nesta quinta-feira (20), os primeiros caminhões movidos exclusivamente a biometano para transportar açúcar bruto do Triângulo Mineiro até o Porto de Santos (SP). Batizada de Rota Verde, a operação piloto sai de Tupaciguara, percorre pouco mais de 160 quilômetros até o Terminal Integrador de Uberaba e, de lá, segue sobre trilhos pela Ferrovia Centro-Atlântica até o litoral paulista.
Além de retirar o diesel do trecho rodoviário, o projeto usa combustível fabricado com resíduos gerados no próprio processamento da cana-de-açúcar, fechando um ciclo de economia circular que, segundo as empresas envolvidas, pode reduzir significativamente as emissões de CO₂ em toda a cadeia de exportação do produto.
Como funciona a Rota Verde
A logística combina duas etapas. Na primeira, a Aguetoni Transportes despacha carretas abastecidas com biometano diretamente da usina Bioenergética Aroeira, em Tupaciguara, até o complexo ferroviário operado pela VLI em Uberaba. São 43 viagens por dia, totalizando, nesta fase de testes, cerca de 12 mil toneladas de açúcar embarcadas mensalmente.
Chegando ao terminal, a carga é içada para vagões que percorrem mais 680 quilômetros até o Porto de Santos. Lá, o açúcar segue para navios destinados ao mercado externo. O trajeto misto foi escolhido porque a ferrovia emite, em média, até 75% menos CO₂ por tonelada transportada do que o transporte rodoviário tradicional, de acordo com estudos divulgados pela VLI.
Do campo ao porto sem diesel
O centro nervoso da operação é a planta de biometano inaugurada em Tupaciguara em outubro de 2025, fruto de um investimento de R$ 70 milhões da Gasgrid/Zeg Biogás. O complexo captura o biogás liberado durante a decomposição dos resíduos da cana — bagaço, palha e vinhaça — e o purifica até alcançar a mesma composição do gás natural fóssil, mas com origem 100% renovável.
O combustível é comprimido em cilindros e abastece, diretamente na usina, uma frota dedicada de caminhões cujo motor já vem adequado de fábrica para operar somente com combustíveis gasosos. A substituição do diesel, além de reduzir a pegada de carbono, elimina o risco de contaminação do açúcar por partículas de fuligem, problema recorrente em operações que utilizam óleo pesado.
Ferrovia corta tempo e poluentes
Depois de Uberaba, a locomotiva assume o comando. O trecho ferroviário aproveita energia elétrica em parte de seu traçado e, mesmo quando usa óleo B8, mantém a vantagem ambiental: cada vagão carrega o equivalente a três carretas, operação que diminui o fluxo de caminhões nas rodovias entre Minas e São Paulo. Cálculos internos apontam potencial de evitar a emissão de até 18 mil toneladas de CO₂ por ano quando o projeto atingir plena capacidade.
Uma cadeia que reaproveita seus próprios resíduos
A lógica de economia circular sustenta a Rota Verde de ponta a ponta. O resíduo agrícola que antes virava problema — exigindo tratamento caro ou, muitas vezes, sendo queimado a céu aberto — passa a gerar receita, vira combustível e, por fim, movimenta a mesma carga cujo processamento produziu aquele detrito. Para a usina Aroeira, o ganho é duplo: além de cortar custos com energia, a companhia passa a cumprir metas de descarbonização impostas por compradores internacionais de açúcar.

Imagem: Internet
O modelo também dilui riscos cambiais. Em vez de importar diesel, pago em dólar, o empreendimento produz o próprio energético em real, dentro da porteira. Isso ajuda a estabilizar a planilha de custos logísticos, historicamente volátil no segmento sucroenergético.
Próximos passos da operação
A fase piloto vai até o fim do primeiro semestre de 2026. Nesse intervalo, serão analisados parâmetros como consumo médio de combustível, performance dos motores a gás em longas distâncias e integridade da carga. Superados os ajustes, a projeção é ampliar o fluxo para 200 mil toneladas anuais já em 2027, o que exigirá uma frota adicional de caminhões, novos pontos de abastecimento e mais vagões dedicados na malha da Ferrovia Centro-Atlântica.
Os parceiros também estudam estender o uso do biometano a outras rotas agrícolas que partem do Triângulo Mineiro, abrangendo granéis sólidos, etanol e até fertilizantes. Caso a expansão se confirme, o Triângulo Mineiro poderá se tornar um corredor logístico de baixo carbono, atraindo investimentos adjacentes em geração distribuída de biogás, tecnologias de captura de metano e serviços auxiliares de mobilidade elétrica.
Fôlego para a transição energética rural
Para especialistas do setor, o projeto sinaliza a viabilidade econômica de rotas verdes em corredores agrícolas, um passo fundamental para a ambição brasileira de reduzir 50% das emissões até 2030. A aposta de R$ 70 milhões na planta de Tupaciguara — combinada a contratos de longo prazo para fornecimento de gás e escoamento ferroviário — cria previsibilidade financeira, algo ainda raro em iniciativas de baixo carbono, especialmente no interior do país.
Se mantiver o ritmo de crescimento, a Rota Verde pode ainda gerar créditos de descarbonização (CBIOs) suficientes para remunerar produtores, transportadores e investidores, reforçando o círculo virtuoso da bioeconomia.
