As eleições de 2026 no Amazonas terão 163 mulheres na disputa, o equivalente a 35,8% do total de 462 registros encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O índice mantém a participação feminina no patamar observado no pleito municipal de 2024, mas representa queda de 29% quando comparado às eleições gerais de 2022, quando 230 amazonenses se candidataram aos mesmos cargos em jogo este ano.
Apesar de ainda superar a cota mínima de 30% exigida pela legislação, o recuo acende alerta em organizações que atuam pela inclusão de gênero na política. Especialistas temem que a redução no número absoluto de mulheres na disputa comprometa a renovação de quadros femininos em espaços como a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal.
Retrato numérico da participação feminina
Entre os 163 registros femininos, 100 concorrem a uma vaga de deputada estadual, cargo que concentra 61,35% do total de candidaturas de mulheres. As demais se dividem da seguinte forma:
- 53 mulheres buscam outros cargos em disputa (deputada federal, governador, vice, senador, suplências).
- Apenas uma mulher registrou candidatura para cada um dos cargos de governadora, senadora e segunda suplente.
- Três mulheres integram chapas como vice-governadoras.
- Quatro aparecem na condição de primeira suplente ao Senado.
Comparativo histórico
O TSE registra a seguinte evolução no número de candidatas mulheres no Amazonas:
- 2020 – 3.451 inscrições, ano de eleição municipal.
- 2022 – 230 inscrições, para cargos federais e estaduais.
- 2024 – 2.800 inscrições, novamente eleição municipal.
- 2026 – 163 inscrições até o momento, sujeitos a eventuais substituições.
A comparação direta entre 2022 e 2026 revela a maior queda proporcional na última década, rompendo uma trajetória de crescimento registrada desde a implantação da cota de gênero, em 1997. Na época, a lei passou a impor que cada partido ou federação respeite o intervalo mínimo de 30% e máximo de 70% de candidaturas de cada gênero em todas as disputas proporcionais.
Quem são as candidatas
Cor e etnia predominantes
Dados raciais divulgados pelo TSE indicam que 61,96% das candidatas amazonenses se autodeclaram pardas. Entre as demais:
- 26,99% se apresentam como brancas;
- 5,52% se reconhecem pretas;
- o cadastro reúne ainda oito candidaturas indígenas, distribuídas entre as etnias Kambéba, Mundurukú, Kokama, Múra, Tikúna e Witóto;
- duas mulheres quilombolas completam o grupo, correspondendo a 1,23% dos registros.
Especialistas apontam que a expressiva presença de mulheres pardas reflete a própria composição demográfica do estado, mas também evidencia obstáculos adicionais enfrentados por candidatas negras, cuja representação segue abaixo da média nacional.
Distribuição partidária
Seis siglas concentram a maior parte das candidaturas femininas no Amazonas:
- PL – 15 candidatas;
- MDB – 13 candidatas;
- PSD – 13 candidatas;
- Novo – 11 candidatas;
- Republicanos – 11 candidatas;
- PDT – 11 candidatas.
Na outra ponta, a Unidade Popular (UP) apresenta apenas uma mulher em sua nominata. Analistas lembram que os partidos não são obrigados a lançar o mesmo percentual de mulheres e homens ao cargo majoritário, mas afirmam que a baixa adesão pode comprometer a diversidade de propostas no debate eleitoral.
O desafio das candidaturas competitivas
Levantamentos de ciclos eleitorais anteriores mostram que, embora o requisito mínimo de 30% venha sendo cumprido desde 2016, a maior parte das mulheres inscritas recebe menos recursos de campanha e tempo de televisão do que os homens. Para 2026, ainda não há divulgação oficial do montante destinado às candidatas pelo fundo partidário, mas entidades que monitoram a participação feminina indicam que o volume de verbas será decisivo para transformar presença em vitórias nas urnas.

Imagem: Internet
Na avaliação da cientista política Aline Marques, a estagnação no percentual de mulheres e a queda no número absoluto de candidaturas demonstram que a cota se tornou o teto, não o piso: “Os partidos fazem o cálculo exato para cumprir a norma sem enfrentar penalidades, mas não investem em ampliar a base feminina nem em garantir que essas candidaturas sejam de fato competitivas”.
Fiscalização da Justiça Eleitoral
Depois do prazo final para registros, encerrado em 15 de agosto, a Justiça Eleitoral iniciou a análise documental dos candidatos. O processo pode resultar na rejeição de nomes que não atendam a requisitos legais, o que pode alterar levemente o percentual de participação feminina.
Uma vez confirmadas as listas, os próprios partidos ficam sujeitos a sanções caso se comprove fraude à cota de gênero. Em 2024, legendas em todo o país perderam tempo de propaganda e recursos do fundo eleitoral por inflar nominatas femininas apenas para cumprir a regra.
Perspectivas para outubro
A campanha oficialmente começa em 16 de agosto, e a propaganda gratuita no rádio e na televisão estreia em 30 de agosto. Até lá, candidatas e candidatos buscam consolidar alianças e definir estratégias de comunicação. A votação do primeiro turno acontece em 4 de outubro.
Sociólogas que acompanham o tema afirmam que a presença de mulheres na disputa tem influência direta sobre o debate público. “Quando temos mais candidatas, temas como creche, violência doméstica e saúde reprodutiva ganham espaço nas agendas de governo”, observa a pesquisadora Helena Ramos. Para ela, o retrocesso numérico no Amazonas vem na contramão de índices nacionais que apontam tendência de crescimento lento, porém constante, da participação feminina.
Embora o cenário aponte desafios, lideranças de movimentos de mulheres destacam que a legislação atual oferece ferramentas de fiscalização cidadã. Entre elas, a publicação on-line dos gastos de campanha, o acompanhamento de eventos partidários e a denúncia em caso de suspeita de candidaturas fictícias.
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