Roraima vira peça-chave em projeto da PanAmazônia para ligar Brasil, Guiana e Venezuela

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    Empresários, parlamentares e representantes de vários segmentos produtivos se reuniram em Boa Vista para traçar um plano que pode reposicionar Roraima no comércio internacional. A Associação PanAmazônia, que reúne lideranças da Amazônia Legal, decidiu centrar esforços no estado para criar um corredor logístico que conecte Brasil, Guiana e Venezuela e, a partir daí, alcance tanto o Caribe como o Norte Global.

    A proposta foi apresentada na primeira reunião do novo conselho diretor da entidade, eleito para o biênio 2026-2028. Se sair do papel, a iniciativa promete abrir rotas mais curtas para escoar mercadorias brasileiras, atrair investimentos em infraestrutura e gerar empregos num ponto de fronteira até hoje subaproveitado.

    Roraima na rota do comércio internacional

    Cercado por Venezuela e Guiana, o território roraimense oferece a passagem terrestre mais direta entre a Amazônia brasileira e portos caribenhos. Do lado leste, a estrada que liga Boa Vista à cidade guianense de Lethem já existe; do lado norte, a BR-174 garante acesso a Puerto Ordaz e a toda a região norte da Venezuela. Somadas, essas vias podem encurtar em milhares de quilômetros o caminho de grãos, minérios e produtos industrializados rumo a mercados na América do Norte e na Europa.

    Para o presidente da PanAmazônia, deputado federal licenciado Remídio Monai, colocar Roraima no centro desse tabuleiro é um passo decisivo: “Queremos transformar Boa Vista em porta de entrada e saída para duas costas: o Caribe e o Atlântico Sul”, disse, lembrando que a região poderá captar negócios hoje concentrados nos portos do Sudeste.

    Corredor terrestre e fluvial

    O desenho logístico não se limita ao asfalto. Uma das peças do quebra-cabeça é o esforço do governo peruano para tornar o rio Amazonas um corredor navegável capaz de ligar o Pacífico ao Atlântico. Ao conectar esse traçado hidroviário à BR-174 e, na sequência, à rodovia Lethem–Georgetown, surgiria um caminho contínuo que cruza o continente de costa a costa, até a foz caribenha da Guiana.

    Belisário Arce, fundador e diretor-geral da associação, enfatizou que esse ambiente de rotas combinadas — rodovia, hidrovia e, futuramente, ferrovias — pode alavancar polos industriais nos estados amazônicos. “A integração não pode ficar apenas na promessa. Estrutura física é o motor do desenvolvimento”, argumentou.

    Malha aérea regional

    Outra prioridade é restabelecer voos regulares entre Boa Vista e as capitais vizinhas. Atualmente não há ligação direta com Georgetown e a conexão com Santa Elena de Uairén, na Venezuela, foi suspensa há anos. Para a PanAmazônia, ligar as três cidades por via aérea facilitaria o trânsito de executivos, técnicos e turistas, encurtando tempo e custo de viagens hoje feitas por estrada.

    Monai afirma que o diálogo com companhias aéreas já começou. “Precisamos mostrar que há demanda reprimida de passageiros e de cargas de alto valor agregado, como peças de reposição e itens perecíveis. A rota pode ser lucrativa”, avaliou.

    Estratégia da PanAmazônia para 2026-2028

    O plano de ação aprovado em Boa Vista elenca cinco metas que deverão pautar o trabalho da diretoria nos próximos dois anos:

    • Avançar nos acordos de transporte de cargas e passageiros com a Guiana.
    • Retomar e fortalecer as relações comerciais com a Venezuela.
    • Modernizar a infraestrutura logística — rodovias, hidrovias e terminais de fronteira.
    • Criar ligações aéreas regulares entre Boa Vista e capitais amazônicas de países vizinhos.
    • Promover a integração econômica dos estados brasileiros com Peru, Colômbia, Venezuela e Guiana.

    Agenda de integração

    Durante o encontro também surgiram reivindicações pontuais. Integrantes da bancada federal defendem isenção ou redução de pedágio na BR-364, eixo vital para o fluxo de Rondônia ao Acre. Houve ainda preocupação com a possível concessão da hidrovia do rio Madeira à iniciativa privada, o que, segundo eles, pode encarecer o frete e desestimular empresas menores.

    Ao mesmo tempo, os participantes reiteraram a importância de manter incentivos da Zona Franca de Manaus e das Áreas de Livre Comércio da região. “Sem esses instrumentos, partes da indústria migram para outras fronteiras fiscais e o ciclo de pobreza se mantém”, alertou Arce.

    Infraestrutura em discussão

    A falta de pavimentação em trechos críticos, a ausência de alfândega 24 horas e o descompasso entre legislações sanitárias dos países foram citados como gargalos que precisam ser enfrentados. A diretoria promete atuar junto ao governo federal para acelerar licenças, liberar recursos e articular protocolos binacionais.

    Além das ações diretas, a associação quer envolver empresas privadas em parcerias público-privadas para construir pátios aduaneiros, centros de distribuição e terminais portuários secos. Responsável pela logística de grãos de uma multinacional agrícola, a executiva Maria Fernanda Dias avalia que “o mercado nota quando há previsibilidade. Se o investimento público inicial ocorre, o capital privado entra em seguida”.

    Papel do setor privado e da comunicação

    A Rede Amazônica, grupo de mídia fundado por Phelippe Daou, renova seu compromisso com a integração regional, segundo o diretor-executivo em Roraima, Joel Cristian Gomes. “Informação qualificada ajuda a sociedade a cobrar políticas que transformem a realidade local. Estaremos junto da PanAmazônia para dar visibilidade a cada avanço e a cada obstáculo”, disse.

    Gomes destacou que a imprensa tem papel decisivo para divulgar janelas de oportunidade às empresas e para monitorar compromissos assumidos pelo poder público. Nesse sentido, parcerias estratégicas com veículos de comunicação de Guiana e Venezuela também estão no radar da associação.

    Com a posse do novo conselho diretor, a entidade pretende visitar capitais amazônicas, organizar rodadas de negócios transfronteiriças e, até o fim de 2027, apresentar um balanço público com metas cumpridas, pendências e perspectivas. “Transparência é essencial; investidores querem saber onde pisam”, frisou Monai.

    Se o cronograma avançar, Roraima poderá, em poucos anos, deixar de ser apenas um extremo geográfico do país para tornar-se centro operacional de um corredor que conectará Pacífico, Atlântico e Caribe, movimentando economias de pelo menos sete nações amazônicas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.