Pescador mergulha em apneia e revela retroescavadeira, micro-ônibus e ruínas de povoado soterrado no Lago de Palmas

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    Um cenário quase fantasmagórico repousa sob a lâmina d’água do Lago de Palmas, no Tocantins. Ruínas de uma casa, uma piscina de azulejos, uma retroescavadeira e até um micro-ônibus integram o inventário submerso registrado nas últimas semanas pelo pescador esportivo e tenente-coronel da Polícia Militar Luiz Carlos Marques de Queiroz. Equipado apenas com máscara, nadadeiras e fôlego controlado, ele desce até nove metros em mergulho livre para filmar resquícios do antigo povoado Canela, inundado entre 2001 e 2002 para a formação do reservatório.

    Os vídeos viralizaram entre comunidades de pesca e mergulho, reacendendo a curiosidade sobre o passado encoberto pelo lago artificial que margeia a capital Palmas. Enquanto as imagens carregam valor histórico, na prática os escombros hoje servem de refúgio para cardumes — informação preciosa para quem compete em torneios de pesca como Luiz.

    A caça a relíquias debaixo d’água

    Técnica de mergulho em apneia

    Sem cilindros nem suporte de ar comprimido, Luiz Carlos pratica a apneia estática: inspira profundamente na superfície, segura a respiração e desce. O limite pessoal estabelecido por segurança são nove metros, embora ele relate a existência de estruturas a mais de dez metros que permanecem fora de alcance. “Acima disso, a tolerância do corpo cai rápido. Prefiro voltar inteiro e tentar outro dia”, explica.

    Sonar, GPS e olho treinado

    A busca começa no barco. Um equipamento de varredura eletrônica mostra irregularidades no relevo do fundo. Quando o sonar destaca um contorno suspeito, o pescador lança âncora, memoriza as coordenadas no GPS e mergulha para confirmar. “Em muitas ocasiões o ponto vira dupla serventia: registro histórico e spot de pesca”, conta. Cada nova descoberta é filmada com câmera de ação presa ao peito e catalogada em um mapa particular que ele atualiza desde 2021.

    Vestígios do antigo povoado Canela

    A casa que resistiu ao alagamento

    O achado mais recente, feito em junho de 2026, foi a estrutura de alvenaria que pertenceu a uma família do povoado Canela. Paredes internas, pisos e até a moldura de uma porta continuam visíveis. A edificação lembra que, antes da água, a área abrigava fazendas e pequenas comunidades rurais que precisaram ser reassentadas quando a usina foi construída. “Você passa a mão na parede e sente o reboco. É como visitar um museu que ninguém mais consegue ver”, descreve Luiz.

    Maquinário engolido pelo reservatório

    Entre os equipamentos encontrados, uma retroescavadeira enferrujada chama atenção pelo tamanho e pelo risco que representaria se estivesse próxima à superfície. Ela repousa tombada sobre um declive arenoso, com parte da caçamba submersa no lodo. Há ainda uma piscina de azulejos, evidência de antiga área de lazer rural, e um micro-ônibus que, ao contrário do restante, não foi perdido pelo enchimento. Segundo apuração confirmada com o Corpo de Bombeiros, o veículo foi afundado deliberadamente para treinamentos de mergulho na época da formação do lago.

    Da construção do reservatório ao presente

    O preenchimento do Lago de Palmas começou no início de 2001, quando as comportas da usina foram fechadas para represar o rio Tocantins. Em menos de dois anos, cerca de 180 quilômetros quadrados ficaram submersos, alterando rotinas de comunidades ribeirinhas, propriedades rurais e uma porção da malha viária local. O povoado Canela desapareceu do mapa, apesar de parte dos moradores ter sido reassentada em vilas próximas.

    Sem a vegetação densa que existia originalmente, o leito anegado passou a oferecer novo habitat para espécies de peixes apreciadas na pesca esportiva, como tucunaré e traíra. Os destroços construídos pelo homem acabaram funcionando como recifes artificiais, fornecendo sombra, alimento e abrigo contra predadores maiores. É lá que Luiz procura boas capturas para os campeonatos regionais.

    Memória preservada sob a água

    O registro dos objetos tem gerado demanda de historiadores e professores que veem nas imagens oportunidade rara de ilustrar aulas sobre formação de reservatórios e deslocamento populacional. Embora alguns moradores antigos reconheçam as ruínas, muitos palmenses chegaram à capital após 2002 e desconhecem que parte da cidade avançou onde antes existiam estradas vicinais e pastagens.

    Ecossistema e esporte dividem o mesmo espaço

    As descobertas de Luiz também reabrem debate sobre segurança náutica. Navegadores menos experientes podem colidir com estruturas rasas em épocas de estiagem, quando o nível do lago baixa. A Capitania Fluvial da Araguaia Tocantins mantém balizamento em áreas críticas, mas o mapeamento informal de mergulhadores ajuda a atualizar rotas de lazer e turismo.

    Para a pesca competitiva, a riqueza de pontos atrai esportistas de vários estados. Campeonatos de tucunaré movimentam hotéis, restaurantes e marinas da região, reforçando a vocação turística de Palmas. Luiz, que já representou o Tocantins em torneios nacionais, afirma que pretende publicar parte de seu acervo em redes sociais, mesclando dicas de preservação e relatos históricos. “Quanto mais gente souber o que existe aqui embaixo, maior será o cuidado com o lago”, defende.

    Possíveis próximos mergulhos

    Com o período seco se aproximando e a visibilidade subaquática melhorando, o tenente-coronel planeja novas incursões em busca de antigas sedes de fazenda. Ele calcula que ainda haja ao menos três casarões inteiros não documentados e máquinas agrícolas que trabalhavam na construção da rodovia TO-050. “O lago é grande, a história também. Cada mergulho revela um capítulo que ficou suspenso no tempo”, afirma.

    Por ora, as ruínas permanecem onde estão, silenciosas, abrigando peixes e aguçando a imaginação de quem passa de barco pela superfície turquesa do Lago de Palmas.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.