Um disparo de revólver interrompeu, na manhã de segunda-feira (17), a vida de Stefani Larine Johann, 25 anos, auxiliar de serviços gerais da Secretaria de Educação de Palmitos, no Oeste catarinense. O tiro que a atingiu no rosto foi disparado, segundo a Polícia Militar, dentro da residência do casal no bairro Bortolanza. O único suspeito é o namorado da vítima, um adolescente de 16 anos, que se apresentou minutos depois no quartel dos bombeiros pedindo socorro e acabou apreendido.
A morte da jovem, mãe de um menino de três anos que estava com os avós no momento do disparo, abalou a comunidade escolar e colocou em evidência dúvidas sobre a configuração do crime. A Polícia Civil ainda não confirma se houve feminicídio e aguarda laudos periciais para definir se o episódio foi um homicídio intencional ou um disparo acidental, como alega o adolescente.
Primeiros passos da investigação
As diligências começaram assim que a PM chegou à casa indicada pelo próprio suspeito. Stefani já não apresentava sinais vitais e o imóvel foi isolado para o trabalho da perícia. Testemunhas ouvidas até o início da noite, entre elas uma vizinha de 57 anos, não relataram brigas ou histórico recente de violência entre o casal. Mesmo assim, investigadores tratam o caso com cautela, pois ainda é necessário cruzar depoimentos, perícia balística e análise de telefonia.
O inquérito considera a possibilidade de feminicídio pela relação entre vítima e autor e pela vulnerabilidade de Stefani no momento do disparo. A delegacia aguardará o laudo necroscópico, que revelará distância, ângulo e trajetória da bala. Também serão periciadas as roupas do adolescente para identificar resíduos de pólvora.
Arma irregular e drogas apreendidas
- Revólver calibre .38 com numeração raspada encontrado atrás da residência, em meio à vegetação.
- Cinco munições: quatro intactas e uma deflagrada, compatível com o projétil que atingiu a vítima.
- Aproximadamente 40 gramas de maconha e oito porções de cocaína localizadas no mesmo terreno.
Tanto a arma quanto as substâncias ilícitas foram levadas à Delegacia de Palmitos. O adolescente não soube explicar a origem do revólver. Caso se confirme posse ilegal, ele poderá responder também por ato infracional análogo ao porte de arma de uso restrito.
Como foi o pedido de socorro
Pouco antes das 11h, o jovem chegou sozinho ao quartel do Corpo de Bombeiros, visivelmente abalado, e relatou que “havia acontecido um acidente com arma de fogo”. Ele forneceu o endereço, mas saiu do local antes da chegada da viatura. Os socorristas, ao encontrarem Stefani sem pulso, acionaram a PM e preservaram a cena do crime até a chegada da Polícia Científica.
Informada de que o autor buscou ajuda, a guarnição militar iniciou buscas imediatas. O adolescente foi localizado na casa de um familiar, não reagiu à abordagem e confessou ter efetuado o disparo enquanto manuseava o revólver. O Conselho Tutelar foi chamado para acompanhar a oitiva, por se tratar de menor de idade.
Risco de contaminação da cena
Especialistas ouvidos pela reportagem lembram que o deslocamento do suspeito ao quartel e seu posterior retorno a outro endereço podem complicar a reconstituição. A perícia, entretanto, ainda dispõe de elementos como posição do corpo, manchas de sangue e resíduos na parede para apontar dinâmica e distância do tiro.
Quem era Stefani Larine Johann
Filha de servidores municipais, Stefani atuava no Núcleo Educacional Municipal Leonida Alda Nardin Spessatto, onde cuidava da limpeza e apoio às salas de aula. Colegas descrevem a jovem como dedicada e sempre disposta a colaborar. Ela se preparava para a festa de quatro anos do filho, prevista para o início de setembro.
Em nota oficial, a Prefeitura de Palmitos declarou luto e ressaltou o “vazio imensurável” deixado na comunidade escolar. As aulas da unidade onde trabalhava foram suspensas nesta terça-feira (18) para que colegas e alunos prestassem homenagens. O corpo da servidora foi velado no salão comunitário da Linha Progresso e sepultado no cemitério local sob forte comoção.

Imagem: Internet
Repercussão na cidade
Com cerca de 17 mil habitantes, Palmitos registrou poucos casos de homicídio nos últimos anos. A violência doméstica, entretanto, preocupa entidades que atuam na defesa da mulher. A coordenadora do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) local, Maria Eduarda Senger, afirmou que o caso evidencia a necessidade de ampliar campanhas sobre porte ilegal de armas e relacionamentos abusivos, sobretudo entre adolescentes.
Já a Câmara de Vereadores convocou sessão extraordinária para discutir políticas municipais de proteção à mulher. Entre as propostas estão a criação de um canal de denúncias anônimo e programas de orientação em escolas da rede pública.
Estatísticas de feminicídio em Santa Catarina
Dados da Secretaria de Segurança Pública apontam que, até julho, o estado registrou 32 feminicídios em 2026. No ano anterior, foram 49 casos. Apesar da redução, autoridades ressaltam que a subnotificação de ameaças e agressões precedentes ainda dificulta ações preventivas.
Próximos passos da apuração
- Conclusão do laudo pericial da arma e confrontação balística.
- Análise do conteúdo dos celulares do casal, recolhidos na cena.
- Reconstituição orientada pela Polícia Científica, prevista para a próxima semana.
- Encaminhamento do adolescente ao Ministério Público, que decidirá sobre pedido de internação provisória.
Se confirmada a intenção de matar, o jovem poderá responder por ato infracional equiparado a homicídio qualificado, com possibilidade de internação de até três anos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. Caso a tese de disparo acidental prevaleça, o enquadramento pode ser alterado para homicídio culposo.
Rede de apoio à família
O filho de Stefani permanecerá temporariamente sob os cuidados dos avós maternos, enquanto o Conselho Tutelar e o Ministério Público da comarca analisam a melhor forma de garantir proteção psicológica e social. Vizinhos organizaram uma vaquinha virtual para custear despesas emergenciais e assegurar a continuidade do tratamento de fonoaudiologia da criança.
Organizações civis disponibilizaram atendimento jurídico gratuito para a família. Uma equipe do serviço de psicologia da rede municipal também fará acompanhamento das professoras e funcionários que trabalhavam diretamente com a vítima, como parte do protocolo pós-trauma.
Quando e onde buscar ajuda
Moradores de Santa Catarina podem denunciar violência de gênero pelos seguintes canais:
- Ligue 190 (Polícia Militar) para situações de emergência.
- Disque 100 ou 180 para relatos anônimos de violação de direitos.
- WhatsApp da Polícia Civil: (48) 98844-0011, com atendimento 24 h.
- Delegacia Virtual: delegaciavirtual.sc.gov.br.
Embora os investigadores ainda não definam o enquadramento legal, o assassinato de Stefani reacende o debate sobre posse ilegal de armas e relações marcadas por desequilíbrio de poder, especialmente quando um dos parceiros é menor de idade. A cidade agora acompanha, com expectativa e indignação, o desfecho do caso que tirou a vida de uma jovem conhecida por seu sorriso constante e dedicação à escola onde trabalhava.
