Aos 98, morre Laura Cardoso; convite recebido em Curitiba marcou estreia da atriz na TV Globo

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    Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), aos 98 anos, deixando a dramaturgia brasileira órfã da atriz que mais somou novelas no país. A despedida, marcada para esta terça-feira até as 14h no bairro da Bela Vista, em São Paulo, mobiliza colegas de gerações distintas e reacende um capítulo especial da carreira: o telefonema recebido em Curitiba, em 1981, que a levou para “Brilhante”, primeira produção dela na TV Globo.

    A ligação, feita pelo diretor Daniel Filho enquanto Laura se apresentava no palco do Guairinha com a peça “Os órfãos de Jânio”, redefiniu rumos profissionais e aproximou ainda mais a artista do público que já a acompanhava desde os tempos da Rádio Tupi. Quarenta e cinco anos depois, a passagem pelo Paraná segue lembrada como ponto de virada na trajetória de Laurinda de Jesus Balleroni, paulistana nascida em 1927 e ativa na arte desde os 15 anos.

    O telefonema que mudou tudo

    Surpresa nos bastidores

    No Memória Globo, em 2008, Laura recordou a cena com simplicidade: “Eu estava no Paraná fazendo teatro. Aí recebi um telefonema do Daniel Filho me convidando para a novela Brilhante”. Em cartaz na capital paranaense, a atriz conciliava ensaios e apresentações quando surgiu a chance de estrear na emissora carioca, já então referência de teledramaturgia no país.

    “Os órfãos de Jânio” no Guairinha

    Naquele ano, a montagem do texto de Millôr Fernandes lotava a casa de espetáculos anexa ao Teatro Guaíra. O enredo, temperado pelo humor político característico do autor, servia de vitrine para a versatilidade de Laura — reconhecida desde os primeiros folhetins radiofônicos. Bastou a notícia circular nos corredores para colegas de elenco vibrarem com o salto que se aproximava: um papel fixo em rede nacional.

    Volta a Curitiba e novos encontros

    Festival de 1994

    Treze anos depois, Laura retornou a Curitiba, desta vez para o III Festival de Teatro da cidade. No palco do Teatro Fernanda Montenegro, encarnou Dolor, a mãe de Joaquim, personagem vivido pelo paranaense Luís Melo em “Vereda da Salvação”. O drama rural, escrito por Jorge Andrade, foi recebido com casa cheia e ampliou a relação afetuosa da atriz com o público local.

    Fotos cedidas pela fotógrafa Lenise Pinheiro mostram Laura vibrante, conduzindo a história de fanatismo religioso que move a peça. Àquela altura, ela já somava mais de 40 novelas e carregava o respeito de quem viu o nascimento da televisão brasileira.

    Da estreia em 1952 ao recorde de novelas

    Primeiros passos na TV Tupi

    Laura entrou para o elenco de “Tribunal do Coração” em 1952, aos 25 anos. O folhetim exibido ao vivo pela TV Tupi exigia memorização rápida e improviso constante, recursos que a atriz dominou nas radionovelas produzidas pela mesma emissora. A experiência lhe rendeu disciplina — característica apontada por parceiros de cena como decisiva para a longevidade da carreira.

    Mais de 60 títulos no currículo

    A contagem final supera seis dezenas de novelas, marco que faz de Laura Cardoso a intérprete com o maior número de títulos exibidos na televisão brasileira. Entre eles, além de “Brilhante” (1981), estão “Mulheres de Areia” (1993), “Fera Ferida” (1994), “Explode Coração” (1995) e “A Dona do Pedaço” (2019), última produção na qual apareceu com frequência. No cinema, o trabalho derradeiro foi “Dona Rosinha”, lançado em 2025.

    O ritmo intenso, no entanto, não livrou a atriz de boatos. Em entrevista ao “Fantástico”, ela mesma contou ter sido vítima de fake news sobre supostos falecimentos, todos prontamente desmentidos por sua equipe. A morte real, nesta semana, aconteceu depois de um mal-estar em casa, segundo informou a filha, Fátima Cardoso.

    Despedida e tributos

    O corpo de Laura é velado em São Paulo, cidade onde construiu grande parte da trajetória profissional. Desde as primeiras horas da manhã, mensagens se multiplicaram nas redes sociais. O paranaense Ary Fontoura, companheiro de elenco em diversas novelas, publicou foto ao lado da amiga e escreveu que “o palco perde, mas a memória permanece”. Grazi Massafera, que contracenou com Laura em “A Dona do Pedaço”, agradeceu o privilégio de tê-la como referência.

    Enquanto isso, fãs recordam cenas marcantes e entrevistados revivem histórias de bastidores, como o famoso telefonema de Daniel Filho que partiu de um estúdio no Rio para um camarim em Curitiba. Aquele convite sela a conexão simbólica entre a atriz e o Paraná, onde parte de sua virada profissional começou. Para quem deseja relembrar outros momentos da passagem dela pelo estado, o acervo digital da emissora reúne depoimentos completos de 2008. Confira materiais relacionados.

    Aos 98 anos, a artista encerra, em definitivo, a contribuição que iniciou aos 15, mas deixa um repertório que continuará servindo de estudo para atores, diretores e pesquisadores. Se o último ato aconteceu em São Paulo, uma das viradas mais emblemáticas veio mesmo do palco paranaense — lembrança que agora ganha ainda mais força na memória do teatro e da televisão brasileiros.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.