A sul-coreana InnoSpace volta à ativa nesta quarta-feira (19), quando pretende lançar o foguete suborbital SEBIT às 15h45 (horário de Brasília) a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. É a primeira operação da empresa depois da explosão que destruiu um veículo orbital em dezembro de 2025, episódio que paralisou o cronograma de voos comerciais do grupo.
Se as condições meteorológicas ou técnicas frustrarem a estreia, a missão pode ser remarcada até 28 de agosto, período definido como janela de lançamento. A campanha recebeu sinal verde após um ensaio geral realizado em 14 de agosto, quando o foguete foi abastecido, conectado aos sistemas de solo e passou por uma simulação completa da contagem regressiva.
Contagem regressiva reaberta
O treinamento de 14 de agosto serviu para verificar motor, telemetria, protocolos de segurança e integração com a infraestrutura do CLA. Todos os procedimentos ocorreram sem anomalias, segundo a companhia, o que permitiu confirmar a data de 19 de agosto como tentativa inicial. Ainda no início do mês, em 3 de agosto, o SEBIT havia sido submetido a um teste estático de 83 segundos na Coreia do Sul, tempo equivalente ao impulso previsto para a fase de ascensão.
Durante o voo real, engenheiros monitorarão parâmetros de empuxo, consumo de propelente, controle de atitude e estabilidade estrutural. Os dados obtidos nortearão ajustes em futuros veículos suborbitais e integrarão o portfólio de serviços comerciais de ensaios em microgravidade, verificação de componentes e demonstrações tecnológicas.
Primeiro lançamento pós-explosão
O acidente de 14 de dezembro de 2025, quando o veículo orbital HANBIT-Nano explodiu poucos segundos após deixar a plataforma maranhense, levou a InnoSpace a suspender temporariamente suas operações. Desde então, a companhia redesenhou processos de certificação, revisou softwares de controle e reforçou redundâncias de segurança. O SEBIT, por se tratar de um foguete menor e suborbital, foi escolhido para marcar a retomada gradativa das atividades.
Como funciona a janela de lançamento
A permissividade entre 19 e 28 de agosto garante margem para lidar com ventos em altitude, chuvas fortes ou eventuais falhas de equipamento. Cada dia será avaliado em tempo real pela equipe conjunta que envolve InnoSpace, a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A. (ALADA), a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Agência Espacial Brasileira (AEB). Caso a tentativa precise ser abortada, o foguete retorna ao hangar para nova checagem sem que isso encerre a campanha.
O que é o SEBIT
O SEBIT é classificado como veículo suborbital multifuncional, projetado para atingir entre 50 km e 100 km de altitude, faixa limítrofe da região conhecida como espaço próximo. Diferentemente de um lançador orbital, ele não possui energia suficiente para inserir satélites em torno da Terra, mas oferece um ambiente de microgravidade de alguns minutos, útil para:
- Testes de sensores, componentes eletrônicos e sistemas de navegação;
- Ensaios de biotecnologia e medicina que dependem da ausência de peso;
- Verificação de novos materiais submetidos a altas velocidades e variações térmicas;
- Demonstrações tecnológicas solicitadas por clientes institucionais ou privados.
O motor híbrido gera aproximadamente 3 toneladas de empuxo e utiliza propulsor sólido combinado a oxidante líquido, solução que reduz riscos de manuseio em comparação a motores totalmente líquidos. Um sistema de telemetria envia em tempo real posição, velocidade e estado de saúde da carga útil para as estações de solo do CLA.
Integração com clientes
Segundo o CEO Kim Su-jong, o desenho modular do SEBIT facilita a instalação de experimentos de universidades, agências espaciais e empresas de setores como defesa, saúde e química de materiais. A companhia planeja ofertar voos regulares a partir de 2027, utilizando Alcântara como base predominante para o hemisfério Sul.
Por que Alcântara interessa à Coreia do Sul
Localizado a apenas 2°18’ ao sul da Linha do Equador, o CLA oferece economia de combustível e maior flexibilidade de inclinação orbital em relação a bases de latitudes médias. Para lançamentos suborbitais, a proximidade com o mar permite correção de trajetória sobre área despovoada, reduzindo o risco para comunidades locais e simplificando planos de contingência.

Imagem: Internet
Ainda em 2023, Brasil e Coreia do Sul firmaram acordos de salvaguardas tecnológicas que protegem a propriedade intelectual dos equipamentos estrangeiros sem abrir mão da soberania nacional do sítio de lançamento. O ensaio desta semana servirá como novo teste prático desses protocolos.
Segundo ato: retorno do HANBIT-Nano
Encerrada a janela do SEBIT, a InnoSpace volta suas atenções para novembro, quando pretende realizar uma segunda tentativa de colocar em órbita o satélite de demonstração InnoSat-0 a bordo do HANBIT-Nano. O modelo orbital, de maior porte, carrega as lições aprendidas com a falha de 2025: válvulas de pressurização reprojetadas, estrutura reforçada e algoritmos de orientação revistos.
Calendário depende de autorizações
A data exata ainda aguarda liberações de agências reguladoras brasileiras e coreanas, além de análises de risco climático típicas do período chuvoso no litoral do Maranhão. Caso todas as etapas sejam superadas, a InnoSpace se tornará a primeira empresa estrangeira a realizar um voo orbital comercial a partir de Alcântara, credencial decisiva para atrair novos contratos.
Impacto na economia local
A movimentação de equipes de engenharia, logística e segurança já gera aumento de demanda por hospedagem e alimentação em Alcântara e São Luís. A prefeitura municipal estima que, somente durante a campanha do SEBIT, cerca de 150 profissionais estrangeiros circulem pela região, número que pode dobrar na operação do HANBIT-Nano.
Parceria com o Brasil fortalece setor espacial
A cooperação com a ALADA prevê transferência de práticas de integração de cargas, uso compartilhado de laboratórios de propulsão e capacitação de técnicos brasileiros. O objetivo de médio prazo é consolidar o CLA como polo regional para lançamentos suborbitais e orbitais leves, aproveitando a vocação geográfica do sítio e a crescente demanda mundial por pequenos satélites.
Para a AEB, a sequência de voos ajuda a validar normativos de segurança recém-atualizados e serve de vitrine para atrair outras startups internacionais. Já a FAB observa ganhos diretos na formação de pessoal e na modernização de radares de rastreio, indispensáveis para garantir proteção do espaço aéreo durante operações.
Se o cronograma se mantiver, Alcântara poderá registrar, em um intervalo inferior a três meses, dois lançamentos de perfis diferentes — um suborbital e outro orbital — algo inédito nos 30 anos de história do centro. O sucesso das missões deve influenciar a ampliação da infraestrutura local, incluindo a construção de um novo conjunto de plataformas e a adaptação de hangares para sistemas de propelentes variados.
